As homenagens e carinho por Paulo Roberto Teixeira que morreu em São Paulo, no último sábado continuam. Amigos, ex-colegas de trabalho estiveram no velório do dermatologista que, visionário e consciente da importância do poder público construir e sedimentar uma resposta a doença nova que atingimos gays na década de 80, não mediu esforços para criar um programa especifico que enfrentasse a patologia.
Médico formado pela Universidade Estadual Paulista(Unesp/Botucatu),,com especialização em dermatologia pela Universidade Federal Paulista(ex-Escola Paulista de Medicina) eem saúde pública pela Faculdade deSaúde Pública de São Paulo/USP, PauloTeixeira sempre foi ousado e inquieto.Em sua época de estudante participou ativamente de movimentos estudantis e de outros grupos de esquerda, como a “Ação Popular”. Sua militância lhe rendeu processos e prisões entre 1968, 1969 e 1974. Como não poderia deixar de ser, Paulo participou, em 1978, 1979 e 1980, de ações que contribuíram para a criação do Partido dos Trabalhadores ( PT)
Dra. Maria Clara Gianna, consultora do Ministério da Saúde: “ O compromisso é continuarmos com a sua missão!

Paulo Roberto Teixeira! Grande Mestre, aprendi o que era coordenar um programa com o Paulo, tinha terminado a Residência de Medicina Social na Santa Casa quando em 1988 o CRT-DST-Aids estava se organizando, Paulo ficou encarregado de chefiar a equipe de Vigilância Epidemiológica e nos convidou a fazer parte da equipe. Teve entrevista e nos entendemos na hora. As bases da resposta a Aids já estavam estabelecidas pela equipe de pioneiros que em 1983 organizou a primeira resposta a Aids na América Latina. Sempre digo que faço parte da segunda geração de profissionais de saúde que se envolveram na resposta a Aids. Paulo sempre estabeleceu diretrizes muito claras para a equipe, coordenar programa era estar junto com os profissionais de saúde nos municípios e serviços, conheço grande parte dos municípios paulistas e atualmente praticamente todos os estados do país, dialogando com a sociedade civil de forma contínua, ouvindo as PVHA, com porta aberta para todos e não deixando ninguém sem resposta !Paulo teve uma grande importância na construção da resposta a Aids no estado, no país e no mundo. Vamos sentir muito a sua falta! O compromisso é continuarmos com a sua missão! Obrigada meu amigo, descansa ! Com carinho!
Dr. Arthur Kalichman, Coordenador da Vigilância em HIV/Aids no Dathi do Ministério da Saúde: “Quem conviveu com Paulo pôde aproveitar de sua sabedoria”

Eu diria que o Paulo foi um grande sanitarista e que a AIDS teve a sorte de ter esse grande sanitarista dedicado a esse campo. O Paulo como poucas pessoas sabia juntar a dimensão ética, política dos direitos com a questão das tecnologias de gestão de cuidado em saúde em todos os níveis desde o nível da gestão político-programática, passando pela organização dos serviços, a própria criação do CRT é um exemplo disso, né? O cuidado individual, Paulo era um clínico de mão cheia e essa dimensão dos direitos humanos e dos direitos das pessoas né que é tão caro ao SUS a reforma sanitária o Paulo sempre soube trazer pra dentro da dimensão da política pública em AIDS, né representando toda a luta que ele sempre teve pela garantia do acesso acesso à prevenção acesso ao cuidado, né? Seja em nível nacional, seja até em nível internacional quando ele vai pro MS nessa batalha aí do trie by5 né pra garantir acesso ao tratamento a 3 milhões de pessoas. Enfim, uma grande figura, uma grande perda e quem conviveu com Paulo pôde aproveitar de sua sabedoria e enfim da força dele né e quem não conviveu e de alguma maneira trabalha vive ou é afetado pela epidemia de HIV AIDS com certeza tem a influência dele na sua vida sabendo ou não sabendo né direto ou indiretamente então Paulinho foi uma pessoa muito querida e muito importante que ele fique em paz.
Dr. Pedro Chequer, ex-diretor do Unaids, ex-diretor do Depto.Aids do Ministério da Saúde, consultor : “ Agiu como um cientista visionário capaz de antever o curso adverso dessa nova doença.”

Paulo encerrou sua jornada presencial entre nós, mas seu exemplo e compromisso com a causa pública, particularmente no campo do HIV, permanecem como símbolo para aqueles que buscam a equidade e acesso a direitos de cidadania. Seu pioneirismo é emblemático na luta contra a aids no Brasil! Enquanto no nível federal, de modo interminável, se discutia ser a ocorrência de casos de aids problema de saúde pública ou não, tomando em consideração os parâmetros usuais da magnitude, transcendência e vulnerabilidade, Paulo Teixeira já mobilizava a sociedade civil e pressionava o governo do estado de São Paulo para imediata adoção de medidas para o enfrentamento do que viria a ser uma das maiores e mais transcendentes pandemias do século passado. Agiu como um cientista visionário capaz de antever o curso adverso dessa nova doença. E por sua tenacidade, persistência e capacidade de mobilização de atores essenciais, fez de São Paulo a primeira unidade da federação a estabelecer um conjunto de medidas visando a atenção aos pacientes e atividades de prevenção, ainda que na ocasião, não se tivesse claro o perfil e características desse novo agravo à saúde, fazendo do programa que dirigia uma referência para as demais unidades da federação e também como guia para o nível federal. Conheci o Paulo quando fazia especialização em dermatologia sanitária no Hospital Lauro de Souza Lima SES/SP, parceria com a ENSP/ FIOCRUZ, quando em sala de aula, discorreu sobre patologias na área da dermatologia sanitária: De modo didático e mobilizador, buscou sensibilizar os participantes do curso com vistas a seu engajamento frente a esse novo agravo à saúde.Tive o privilegio de indicá-lo ao ministro José Serra como meu substituto à frente do Programa Nacional de Aids, na convicção de que não apenas seriam mantidas as atividade em curso, mas também na certeza de que medidas inovadoras e mais abrangentes seriam adotadas. Durante sua breve gestão, pude constatar, ainda que à distancia, que havia tomado a decisão apropriada. Como registra Eclesiastes, “há tempo para cada coisa sobre a face da terra”. Combateu um bom combate e soube com altivez preservar sua crença naquilo que considerava um direito inalienável de cada cada paciente e de cada cidadão.
Maria Cristina Abbate, Coordenadora da Coordenadoria de IST/ aids de SP: “Tive a sorte de aprender e compartilhar momentos especiais”

Hoje me entristeço com a partida de uma pessoa muito importante na minha trajetória profissional, alguém que deixou uma marca profunda não apenas na minha carreira, mas também na minha vida. Tive a sorte de aprender e compartilhar momentos especiais, principalmente, em nossos agradáveis almoços, sempre generoso, acolhedor e afetivo! Ele sempre esteve e estará em meu coração como uma referência e com profunda gratidão. Siga na paz, meu amigo.
Marta Macbritton, presidenta do Instituto Cultural Barong : “ A coragem do Dr. Paulo no enfrentamento do HIV é algo que nos faz muita falta hoje”

É inquestionável o papel do Dr. Paulo Teixeira para que o Brasil tenha sido reconhecido, um dia, como referência mundial na resposta à Aids. Seu trabalho salvou e continua salvando milhares de vidas. As novas gerações de pessoas vivendo com HIV talvez não saibam que, se hoje temos medicamentos disponíveis para todos pelo SUS, isso também se deve a pessoas como o Dr. Paulo Teixeira, que tiveram a coragem de colocar suas próprias carreiras em risco na defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV.A coragem do Dr. Paulo no enfrentamento é algo que nos faz muita falta hoje. Mas havia também nele uma característica que considero fundamental: a atenção, o olhar para cada situação e a disposição de agir concretamente quando era necessário.
Nós, do Barong, somos eternamente gratos a ele. Guardo uma lembrança que traduz muito bem quem era o Dr. Paulo Teixeira. Há cerca de 30 anos, quando queríamos levar nosso trailer para trabalhar com prevenção na Festa do Peão de Barretos, ele foi pessoalmente a Barretos para ajudar a tornar possível a presença do Barong naquele espaço. É importante lembrar que estamos falando de uma época em que a ideia de realizar prevenção ao HIV e outras IST em um contexto de festa era praticamente impensável. Levar a prevenção para onde as pessoas estavam, falando de sexualidade de maneira direta, sem julgamento e em pleno ambiente de uma grande festa popular, significava romper barreiras e enfrentar muitos preconceitos.Pode parecer apenas uma história, diante de tudo o que ele realizou no Brasil e no mundo. Para mim, porém, ela diz muito sobre Paulo Teixeira: ele compreendia, já naquela época, que uma política pública só tem sentido quando consegue chegar às pessoas.Hoje perdemos um dos grandes construtores da resposta brasileira à Aids. Mas o que ele construiu permanece em cada pessoa que teve seu direito ao tratamento garantido, em cada política de prevenção que ousou chegar aonde era necessário e em todos nós que aprendemos com ele que enfrentar a Aids é, antes de tudo, defender vidas, dignidade e direitos.



