
Mulher branca, cis, hetero e monogâmica. Por definição, preconceito, mera ignorância ou expectativa social, talvez você não associasse essas características a alguém vivendo com HIV. No entanto, a história de Renata Nunes, 30, desafia justamente os estereótipos e preconceitos relacionados ao HIV/aids.
Renata é influenciadora, formada em economia, atualmente empreendedora no campo do marketing digital, mentora, palestrante e escritora. Ela é autora do livro autobiográfico “Como o HIV+ mudou a minha vida para melhor e o que isso tem a ver com você”. Nascida em Jundiaí e criada na cidade vizinha, Várzea Paulista – conhecida como a cidade das orquídeas -, enfrentou de frente as dificuldades desde seu diagnóstico, em 2015, aos 22 anos de idade.
De lá para cá, vem compartilhando na web e fora dela sua jornada como mulher vivendo com HIV, inspirando e conscientizando outras pessoas, especialmente, outras mulheres.
Em entrevista à Agência Aids, Renata Nunes compartilhou como o HIV transformou a sua vida, lhe ensinou o poder da resiliência e como decidiu jogar sua história no mundo através do seu livro, lançado ano passado, no dia 1º de dezembro – Dia Mundial de Luta Contra a Aids.
Autoconhecimento
Segundo ela, seu diagnóstico foi um verdadeiro processo de autoconhecimento, e lhe permitiu enxergar o mundo com mais clareza, garra, empatia, sensibilidade e autenticidade. “Desde que eu descobri o meu diagnóstico de HIV, passei por um processo profundo de autoconhecimento, que ajudou a me transformar e transformar a minha vida para melhor. Por isso que eu falo no título do meu livro: ‘como a HIV mudou minha vida pra melhor e o que isso tem a ver com você; um título um pouco curioso, pois pode questionar como se pode dizer que pode ter sido algo bom, mas através da leitura, o leitor vai entender o que quero dizer com isso”, contou.

“A partir do momento que fui diagnosticada, eu tomei a decisão de transformar a minha vida pra melhor. Pensei, ‘poxa, eu preciso viver da melhor forma possível.’ Então, essa trajetória que completa nove anos, agora em 2024, me fez perceber que eu já queria falar sobre isso […]. Me formei em yoga e meditação, além disso já faço um trabalho de autoestima e mentalidade para mulheres. O que mais me pega em relação à HIV, que acredito que seja uma dor coletiva, tanto das mulheres quanto das pessoas em geral, independente do gênero, é a questão dos relacionamentos, porque a saúde a gente vive muito bem, hoje em dia há tratamento e sabemos que pessoas que vivem com HIV podem ter uma vida normal, uma vida saudável, desde que se tratem. A grande questão é a social, que ainda é um grande tabu. Ainda existe muito preconceito.”
A interiorana mencionou que foi um relacionamento amoroso o ponto de virada. Ela sentiu que estava pronta para falar abertamente sobre sua sorologia, pois não queria mais lidar com a dificuldade de sempre ter que planejar como contar para alguém que vive com o vírus. “Entendi que já estava madura o suficiente e que não queria mais passar por isso. Acredito que não só eu, mas muitas pessoas passam pelo sentimento de rejeição por conta do HIV. Então, foi com esse propósito de inspirar outras mulheres e mostrar que dá sim pra viver bem, que dá pra viver com autoestima, ser feliz, segura de si, mesmo com HIV […]. Um relacionamento que tive foi o impulso de algo que eu já vinha pensando e amadurecendo a ideia de compartilhar com o mundo. Assim, eu decidi escrever um livro.”
“Foi um término de relacionamento recente, em 2022, que me fez decidir não passar mais pelo constrangimento de ter que sempre contar para a pessoa com quem me relaciono e não ter certeza de como ela iria reagir. Então optei por falar abertamente para evitar esse conflito, já que me sinto madura o suficiente hoje e bem fortalecida emocionalmente para inspirar outras mulheres e conscientizar as pessoas sobre o tema.”
Renata Nunes tinha conhecimento zero sobre HIV antes de ser diagnosticada. Não estava envolvida com questões de prevenção, mesmo tendo visto informações em campanhas, TV e escola. Para ela, o HIV era algo distante e desconhecido. No auge da sua juventude, enfrentava uma depressão, ansiedade e baixa autoestima. Na época, estava cursando economia na universidade e trabalhando em uma importante multinacional na área financeira, mas não se sentia bem resolvida, com problemas que remontavam a sua infância.
Rede de apoio e participação feminina
“Quando eu descobri o diagnóstico, pra mim foi uma sentença de morte. É aquele processo de achar que vai morrer, só que eu fui buscar informação […]. Contei para a minha família, contei para os meus pais e eles me deram todo o apoio. Eu tinha convênio e fui muito bem atendida pelo meu médico infectologista e logo depois já iniciei o tratamento. Comecei a pesquisar sobre esse assunto , encontrar alguns influenciadores que falam sobre o tema e percebi que existe uma falta do público feminino falando sobre isso. A maioria dos influenciadores hoje são do público LGBTQIA+, falta pessoas héteros e cis falarem sobre, principalmente mulheres. Então, pensei que precisava começar a falar para quebrar esse tabu e estigma. Eu sei que essas mulheres existem e essas mulheres estão escondidas, por medo de ser quem elas são ou por medo da rejeição.”
“O HIV não escolhe raça, gênero, organização sexual, classe social, status financeiro, religioso ou político. Todas as pessoas, todos os seres humanos estão vulneráveis a se infectar pelo vírus. Então eu, por exemplo, como sendo uma mulher heterossexual, cisgênera, que não tive muitos privilégios financeiros, pois a minha família veio da roça, mas tive uma certa estabilidade financeira, uma base familiar, acesso à universidade, tinha um emprego comum como qualquer outro cidadão. Então eu venho pra mostrar que o HIV está aí, que a prevenção é importante e também lutar para reduzir um pouco desse estigma, mostrar que o HIV não tem um público específico. Inclusive, desde que eu comecei a falar sobre HIV na internet, recebo muitos relatos de mulheres, maioria delas mulheres casadas, que contraíram HIV dentro do casamento. [Precisamos desmistificar] essa crença, essa política de não usar o preservativo dentro do casamento, ou de não se conscientizar que existe hoje a PrEP. Ali, queria, de alguma forma, orientar essas mulheres que são casadas acerca da importância da prevenção. Infelizmente, os seres humanos são passíveis de erro e essas mulheres sofrem por conta disso. Muitas delas vivem em depressão, porque não conseguem assimilar a informação de ter sido traída e ter pegado o vírus”, continuou.
De acordo com a influenciadora, uma delas, por exemplo, contraiu o vírus da aids dentro do casamento monogâmica e tentou suicídio ao descobrir a infelicidade de seu parceiro. Hoje, se encontra ainda em recuperação, pois teve uma perna fraturada. Nesse contexto, Renata reforçou a importância do auto-cuidado. Renata também enfatizou que a união entre todas as mulheres, sem distinção, independentemente de sua origem ou identidade, faz toda a diferença. No seu olhar, todas merecem igualdade e respeito. O contato que mantém com, por exemplo, mulheres trans e negras, segundo ela, é enriquecedor para o seu crescimento. Entretanto, reconhece que mulheres transgêneros e racializadas enfrentam, todos os dias, maiores preconceitos.
“A mensagem que eu quero trazer para quem acabou de descobrir o diagnóstico é: ‘calma, respire, busque informação, a vida continua. Felizmente, hoje em dia, se vive bem com HIV desde que se faça o tratamento. Então, inicie o seu tratamento e busque fortalecer a sua autoestima. Porque, a partir de agora, você precisa tomar uma nova postura na sua vida. Uma postura de buscar entender o que essa dor tem para te ensinar, porque eu acredito que a dor é pedagógica. Então, em toda dor há uma oportunidade de mudança e crescimento e é sobre isso que eu falo no meu livro. Foi a partir disso que eu fiz a minha transformação. Eu olhei para uma dor, olhei para um desafio e pensei que eu tinha duas escolhas: entrar no papel da vítima e cair em lamentação, ou tentar entender o que eu poderia aprender com esta dor e me transformar”, falou.

“A gente não tem controle sobre o outro. Seja lá quem foi que transmitiu, seja lá como foi que isso aconteceu, [não importa mais] as causas que te levaram ao HIV, porque cada pessoa tem a sua história. Então, é importante olhar com amorosidade para a sua própria história e não buscar um culpado, mas sim buscar a solução. Não se sinta culpado (a), procure se olhar com compaixão, se perdoar e ter um olhar empático consigo mesma, focar na sua saúde física, mental e emocional, pois a partir de agora o mental e o emocional vão ser mais importantes ainda do que a saúde física. Com relação à saúde física, a gente sabe que tem medicação, mas a questão social é a questão que pega mais forte. Porém, se você tiver uma autoestima bem fortalecida, você vai tirar isso de letra, só depende de você. Já para quem não vive com HIV, que você entenda que o HIV é um assunto de todos, toda a sociedade precisa se conscientizar de que o vírus está, todos são passíveis, então todos precisam se conscientizar da prevenção, lutar contra o estigma, quebrando o tabu e passando a ter um olhar mais empático, menos discriminatório a qualquer pessoa. Pessoas que vivem com HIV podem ter relacionamentos afetivos, podem formar uma família, podem ter filhos, podem ser o que elas quiserem. O HIV não me define, não te define e não limita ninguém. Que a gente consiga conviver em harmonia e romper com o preconceito. Eu acredito que somente quando a gente falar naturalmente sobre HIV, vamos conseguir incentivar ainda mais a prevenção e erradicar as doenças.”
A autora espera que os leitores do seu livro, principalmente as pessoas vivendo com HIV, sintam-se inspiradas e encontrem na obra um manual para superar a dor e os desafios do diagnóstico. A escritora deseja ainda que seus relatos inspirem essas pessoas a lidarem melhor mental e emocionalmente com a situação, com esperança e motivação para seguir em frente. Além disso, espera que o livro também seja útil para pessoas que não vivem com HIV, proporcionando-lhes uma maior compreensão em relação à realidade das pessoas que vivem e convivem com o vírus.
Processo de escrita
“Eu escrevi esse livro para todos. A princípio, o foco foi os leitores que vivem com HIV, para que sirva como inspiração, para que elas tenham um norte de como superar essa dor do diagnóstico. Através dos meus relatos, eu trago inspirações para que essas pessoas lidem melhor mental e emocionalmente com o HIV e com a aids. E, em segundo lugar, espero também atingir e inspirar, de alguma forma, quem não vive com o vírus. Porque a minha história de vida, ela vai muito além do HIV. Ela fala sobre transformar dores e desafios em oportunidades de mudança e crescimento. Então, é para qualquer pessoa que esteja enfrentando uma dor, um desafio, ou que queira se fortalecer para um determinado momento, porque a gente sabe que qualquer pessoa, em qualquer momento da sua vida, vai passar por uma dor ou um desafio […]. O segredo é fortalecer a nossa mentalidade para lidar com os desafios da vida de uma forma mais leve”, finalizou.

O livro físico está disponível para compra, com entrega para todo o Brasil. A versão ebook, através do link: https://chk.eduzz.com
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Email: contato@renatanunesm.com.br
Instagram: @renatanunesm
Tiktok: @arenatanunesm
YouTube: Renata Nunes


