O Globo: ‘Tudo que estamos fazendo é para sonhar com autossuficiência brasileira’, diz diretor do Butantan

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Médico à frente do centro de referência em imunobiológicos fala sobre futuro de vacinas da dengue e chikungunya e de novos tratamentos para zika e febre amarela

Diretor do Instituto Butantan, o médico infectologista Esper Kallás, enumera uma lista de novos projetos quando o assunto são as prioridades da instituição nos próximos anos. Há parcerias internacionais para fabricação de imunizantes, desenvolvimento de tratamentos inovadores, fábricas para aumentar a produção nacional de medicamentos e um olhar às doenças negligenciadas. O volume de novidades ocorre junto ao aniversário de 125 anos do Butantan a ser comemorado no mês que vem. Ao GLOBO, o especialista falou sobre o apetite por novos projetos e detalha o que se pode esperar da instituição após a aguardada aprovação da vacina da dengue.

— Conseguimos coisas extraordinárias — diz.

Como foi a recepção das doses da vacina da dengue, a Butantan-DV na vacinação piloto?

A recepção foi maravilhosa. Temos uma vacina com número de doses ainda limitado, teremos um quantitativo grande no segundo semestre. Serão 25 milhões de doses importadas, mais um milhão do Butantan. Teremos mais que isso, possivelmente, mas não adianta ficar prometendo no limite. No Butantan, por exemplo, podemos dizer que teremos mais que esse milhão. Essa preparação é como fazer um bolo, na primeira vez fica bom. Mas na segunda vez é possível economizar mais um pouco de farinha, outros ingredientes. O que antes era um bolo, vira um bolo e meio. Claro, partimos sempre da qualidade ótima. Entregamos sempre a melhor vacina possível, mas o rendimento pode aumentar.

Por que uma vacina que levou 15 anos para ficar pronta ainda precisa de oferecimento internacional?

É um planejamento que deveria ter sido feito antes da gente estar aqui. A fábrica começou a ser construída na segunda metade dos anos 2010. A capacidade produtiva que fizeram à época hoje podemos ver que ficou aquém. Mas, em casos assim, é preciso pensar muito a longo prazo. Se você construir uma fábrica para atender a população brasileira, ela não produzirá 200 milhões de vacinas, em dose única, por ano. O objetivo daqui, quem sabe, 10 anos com a população vacinada é produzir a coorte de reposição. O que seria um montante de cerca de 6 milhões de doses por ano. Então, é preciso pensar na manutenção lá na frente. Do contrário, você constrói um elefante e ele vira um elefante branco. É um raciocínio muito difícil.

O investimento de capacidade produtiva é uma prioridade?

São dez projetos (que incluem novas fábricas) em andamento. Tudo que nós estamos fazendo agora, projetando o Butantan para uma diversificação maior de produtos, com investimento maior em pesquisa, desenvolvimento, inovação e capacidade produtiva, é para começar a sonhar com autossuficiência brasileira. Aliás, este ano que passou foi o primeiro que tivemos na história o soro antiofídico para atender o Brasil 100% e começar a pensar em outras localidades.

Como anda o avanço da vacina da dengue para quem tem mais de 60 anos?

Temos que incluir um pouco mais de 700 indivíduos [na análise]. Vamos determinar a imunogenicidade [capacidade de gerar anticorpos] em um mês, depois haverá mais uma avaliação de seis meses, como norma da Anvisa. E, então, fecharemos o pacote de avaliação regulatória e submeter à agência. Isso deve ocorrer até o fim do ano. Para, a partir do ano que vem, incluirmos essa faixa etária na vacinação.

Outro projeto registrado foi a vacina de chikungunya. Como está a chegada dessas doses?

Temos uma vacinação piloto em 10 municípios brasileiros já planejada com o Ministério da Saúde, que pretendemos começar no fim deste mês. São municípios selecionados, baseados em modelos matemáticos epidemiológicos. Imaginamos que como chikungunya é vírus único (na dengue são quatro sorotipos), a imunidade de rebanho (que será avaliada pelo estudo) deve ser calculada em torno de 40%.

Essa mesma vacina passou por investigações de agências internacionais por conta de efeitos adversos. Como isso nos afeta?

A vacina de chikungunya segue princípios semelhantes a outras vacinas de vírus atenuados. Febre amarela é um grande exemplo. É um vírus enfraquecido que vai fazer um ciclo de replicação, o sistema imune entende e defende. O uso da vacina nas Ilhas da Reunião, onde houve um surto terrível da doença, ocorreu após decisão do governo francês, que tem posse da área. A vacina, por ser vírus atenuado, tem a indicação de evitar pessoas com idade avançada, com comorbidades e imunossuprimidos. Três pessoas morreram, duas sem confirmação de que havia relação com a vacina, mas em uma delas sim. Era um senhor internado, com outros problemas de saúde, e com 82 anos de idade. Com esses casos, o governo francês colocou o pé no freio. A EMA (reguladora europeia), com alerta, suspendeu, pediu o pacote de dados da vacina mais uma vez. Eles constataram que nos casos das pessoas que morreram ocorreu uso que fugia às normas da vacina, como aplicação em pessoas de idade muito extrema, com outras comorbidades. O EMA revisou e novamente autorizou sua utilização.

Com o registro da Butantan-DV qual é o projeto mais aguardado agora no instituto?

Desde que chegamos, fomos atrás de diferentes transferências de tecnologia (são vacinas de Covid-19, raiva e anticorpos para câncer e doenças autoimunes). De desenvolvimento interno, a gente puxou a retomada da produção da vacina da raiva , que está em curso ainda. Nós desenvolvemos na influenza várias frentes. Estamos com um estudo de vacina de gripe adjuvada, que seria mais imunogênica (mais protetora) para pessoas acima de 60 anos. A gente também tem o desenvolvimento da vacina de gripe aviária, com estudos de fase 1 e 2 sendo um sucesso. Além disso, há diversos projetos de desenvolvimento interno. Temos CAR-T, que a fase 2 de estudo está em curso, indo muito bem. E agora a gente está trazendo um CAR-T para mieloma múltiplo. São muitas coisas e está tudo indo bem. Há ainda dois novos anticorpos monoclonais, com desenvolvimento do Butantan, para zika e febre amarela. O interesse é ter essas armas para nos proteger contra esses vírus. Febre amarela não tem tratamento até hoje, e os modelos de primatas mostraram 100% de cura.

O Butantan vai incorporar a Fundação para o Remédio Popular (FURP). O que isso representa para a instituição?

São duas premissas, a primeira delas, manter a força e a pujança que o Butantan tem na área de imunobiológicos. Isso não pode ser comprometido. E a segunda coisa, reforçar cada vez mais a FURP. Aumentar o número de produtos registrados,a capacidade produtiva, melhorar a presença comercial perante municípios, estados e governo, trazer novas tecnologias e investir em desenvolvimento e inovação.

Neste ano, teremos eleições para governador, o que pode afetar seu cargo. Caso seja convidado, tem interesse em seguir no Butantan?

A instituição é maior que o diretor. O que eu tenho procurado fazer durante esses anos é fortalecê-la cada vez mais para que possa ter capilaridade, estrutura e suas engrenagens de funcionamento sejam cada vez mais fortes. Se houver permanência do atual governo, ou mesmo se mudar, e houver o convite, é claro que irei considerar. Esses três anos aqui foram muito gratificantes. Adorei trabalhar no Butantan, conseguimos conquistas extraordinárias.

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