O Globo: Por que queremos vacina de HPV nas escolas? – por Gustavo Cardoso Guimarães

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Um assunto importante recebeu merecida atenção da imprensa nos últimos dias: a imunização contra o papilomavírus humano (HPV) nas escolas. O texto de um projeto de lei (PL) instituiria, em São Paulo, a política estadual de proteção e combate ao HPV, levando, entre suas medidas, campanhas de vacinação de jovens diretamente nas escolas públicas paulistas. O governador Tarcísio de Freitas vetou integralmente o texto, argumentando que há uma política pública sobre o HPV em execução pelo Ministério da Saúde e que a proposta apresentada não abrange toda a cobertura prevista na campanha nacional. Uma boa notícia, na mesma semana do veto ao projeto, foi a sinalização do governador de São Paulo, durante evento de multivacinação, de que poderia haver campanha em escolas e locais de grande movimentação, como estações de metrô, cabendo a cada município se organizar com o Estado.

É importante ressaltar que levar a vacina de HPV para as escolas não excluiria as demais campanhas de imunização contra o vírus; seria uma ação complementar, que já se mostrou bem sucedida em outras situações. Comparativamente, segundo dados levantados pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) na base de dados do DataSUS, do Ministério da Saúde, a quantidade de doses aplicadas foi exponencialmente maior nos anos em que a vacina esteve dentro das escolas. Como exemplo de comparação, na capital paulista, foram aplicadas 516 mil doses em 2014, enquanto foram menos de 150 mil doses em todos os anos, desde 2018.

No contexto nacional, a iniciativa de imunizar no SUS contra HPV foi pioneira em 2014, quando usou-se a estratégia de vacinação nas escolas para a primeira dose (D1), tendo como público alvo naquele momento as meninas de 11 a 13 anos, em todo o território nacional. A cobertura alcançada naquele ano, com a primeira dose, foi de 93,4%. Porém, o esforço esmoreceu, e nenhum estado atingiu a meta prevista pela OMS com a segunda dose. Após o veto, houve uma campanha estadual de multivacinação, justamente com o foco em ampliar a cobertura vacinal entre crianças e adolescentes.

Por mais que esteja contemplada no Plano Nacional de Imunizações (PNI), ou seja, disponível gratuitamente pelo SUS, levar a vacinação para dentro das escolas ampliaria a janela de oportunidades para as crianças e adolescentes terem acesso a essa proteção, essencial para a prevenção de câncer de colo do útero, pênis, ânus, vulva, vagina e tumores de cabeça e pescoço. Além disso, ampliaria a possibilidade de termos não somente mais meninas, mas também mais meninos protegidos. Apenas com a imunização de ambos os sexos, nas taxas acima de 80%, é que poderemos reduzir a carga global dos cânceres relacionados à infeção.

Para reforçar a urgência de ampliarmos a cobertura na população masculina, um estudo publicado em setembro na revista científica The Lancet Global Health com quase 50 mil homens de 35 países mostrou que a prevalência global de infecção pelo papilomavírus (HPV) em homens é de 31% para qualquer tipo do vírus e 21% para os HPVs de alto risco para desenvolvimento de câncer ou outras doenças genitais (HR-HPV). Portanto, um a cada três homens tem algum tipo de HPV e um a cada cinco tem HPV do subtipo de alto risco para causar câncer.

Infelizmente, a falta de percepção do risco por trás da relação íntima sem preservativo e a realização do sexo oral expõem a população. Como consequência, a baixa adesão à vacina. É necessário intensificarmos as campanhas de conscientização sobre a vacinação contra HPV, além de promover educação sobre o sexo seguro. Segundo a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) o uso correto de preservativos no sexo pode ajudar a prevenir a transmissão do HPV, embora ele possa ser transmitido mesmo com essa proteção. Vacina e camisinha são a melhor combinação.

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