Propósito não substitui medicamentos, cirurgias ou terapias. Mas influencia comportamentos, fortalece a resiliência, melhora a adesão ao tratamento e pode transformar profundamente a experiência da doença
Vivemos uma época de avanços extraordinários. Nunca tivemos tanta tecnologia, tantas possibilidades de comunicação e tantos recursos para facilitar a rotina. Ainda assim, aumentam os índices de ansiedade, depressão, solidão e desesperança. Como explicar esse paradoxo?
Há quase 80 anos, um médico austríaco já havia percebido esse fenômeno. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas, Viktor Frankl perdeu os pais, o irmão e a esposa durante o Holocausto. Poderia ter saído dali apenas com cicatrizes. Em vez disso, transformou sua experiência em uma das mais profundas reflexões sobre a existência humana: a logoterapia.
Enquanto muitos modelos psicológicos perguntam “o que aconteceu com você?”, Frankl acrescentou outra pergunta: “para que viver?”. Segundo ele, a principal força que move o ser humano não é a busca do prazer nem do poder, mas a busca de sentido. Essa ideia parece simples, mas muda profundamente nossa forma de enfrentar a vida.
Frankl observou que, nos campos de concentração, pessoas submetidas às mesmas condições reagiam de maneiras diferentes. Algumas sucumbiam rapidamente; outras encontravam forças para continuar. O que fazia a diferença não era a intensidade do sofrimento, mas a existência de um propósito maior que justificasse suportá-lo. Essa percepção permanece atual.
Nenhuma pessoa está imune à dor. Todos enfrentaremos perdas, doenças, frustrações e momentos de incerteza. A questão não é eliminar o sofrimento, algo impossível, mas descobrir um significado capaz de transformá-lo. Na medicina, essa lição aparece diariamente. Pacientes com a mesma doença, a mesma gravidade e o mesmo tratamento frequentemente percorrem caminhos emocionais completamente diferentes. Alguns perdem toda esperança. Outros encontram forças para aderir ao tratamento, reconstruir relações, realizar sonhos adiados ou simplesmente aproveitar cada novo dia.
O propósito não substitui medicamentos, cirurgias ou terapias. Mas influencia comportamentos, fortalece a resiliência, melhora a adesão ao tratamento e pode transformar profundamente a experiência da doença. A logoterapia também nos ajuda a compreender um fenômeno cada vez mais frequente: o vazio existencial. Muitas pessoas alcançam sucesso profissional, estabilidade financeira e reconhecimento social, mas continuam perguntando, em silêncio: “É só isso?”.
Frankl acreditava que esse vazio não se resolve com mais consumo, trabalho ou distrações. Ele é preenchido quando encontramos significado naquilo que fazemos. Esse significado pode nascer de diferentes fontes: construir uma família, cuidar de alguém, desenvolver um projeto, criar uma obra, ensinar, servir à sociedade ou simplesmente escolher uma atitude digna diante de uma situação que não podemos modificar. Seu livro “Em Busca de Sentido” nos lembra que, mesmo diante do sofrimento, o ser humano preserva a liberdade de escolher sua atitude e encontrar um propósito para continuar.
Talvez a frase mais conhecida de Frankl seja também a mais poderosa: “Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. A neurociência contemporânea reforça essa visão. Estudos mostram que pessoas que percebem propósito em suas vidas apresentam melhor saúde mental, menor risco de depressão, maior longevidade e até melhores indicadores cardiovasculares. O sentido da vida não é apenas uma questão filosófica; tornou-se também um determinante importante da saúde.
Como médica, vejo diariamente que a tecnologia salva vidas. Mas nenhuma inovação será capaz de responder à pergunta mais humana de todas: por que vale a pena viver? Essa resposta continua pertencendo a cada um de nós.
Talvez o maior legado de Viktor Frankl seja justamente este: não podemos escolher tudo o que nos acontece, mas sempre podemos escolher a atitude com que responderemos aos acontecimentos. E, muitas vezes, essa escolha é o primeiro passo para transformar sofrimento em crescimento, adversidade em aprendizado e existência em uma vida que realmente faça sentido. Na medicina, propósito e esperança influenciam recuperação, adesão ao tratamento e qualidade de vida, aproximando ainda mais a reflexão da nossa experiência clínica.



