O Globo: O que é terapia gênica? Veja como esse tipo de medicina de ponta e revolucionário avança no Brasil

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Pesquisadores ligados ao Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, apresentaram recentemente resultados de uma fase inicial do desenvolvimento de remédios e tratamentos de uma terapia gênica — nome que se dá para tratamentos que modificam genes nas células para tratar ou barrar efeitos de doenças. Nesse caso foi para um tipo específico de epidermólise bolhosa, uma doença genética rara e que causa fragilidade da pele e mucosas.

Como o nome sugere, uma parte marcante da epidermólise é o aparecimento de bolhas em diversas partes do corpo. Essas lesões podem demorar longos períodos para cicatrizar, pois os pacientes que são diagnosticados com essa doença (entre outras alterações) têm comprometimento na produção do colágeno, uma proteína fundamental para a saúde da pele. É nesse mecanismo de cicatrização que o projeto inovador dos pesquisadores funciona.

“O que nós fizemos foi escolher uma ferramenta (de edição genética) e otimizá-la. Conseguimos usar essa ferramenta e editar com extrema eficiência e com pouquíssima perda de saúde das células para que elas deixem de ter a mutação (ligada à epidermólise) e voltem a expressar o colágeno tipo 7”, explica Ricardo Weinlich, pesquisador e coordenador do grupo “Iniciativa Einstein em Terapia Gênica”, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa.

O grupo de pesquisadores ainda precisa decidir, diz Weinlich, como a inovação seria utilizada pelo paciente. Poderia ocorrer, por exemplo, um tipo de enxerto com pele com células editadas na lesão do paciente, ou então realizar microinjeções na área. O desdobramento está em discussão e, tão logo os pesquisadores decidam a abordagem, terá de passar por aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para seguir as fases de ensaios em voluntários humanos.

Esse tipo de desenvolvimento, embora não seja único, ainda avança lentamente no país. Pesquisadores na área de terapias gênicas dizem que o desenvolvimento da técnica tem alto custo e esbarra, por exemplo, em financiamento público ou privado para avançar.

Soluções nacionais

Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) outra pesquisa busca soluções para quadros de mucopolissacaridose, também uma doença rara que pode causar comprometimento do desenvolvimento físico e intelectual. A pesquisa, explica o professor e pesquisador Guilherme Baldo, ainda está em fase pré-clínica e teve estudos em camundongos. Os testes tentam fazer esses roedores produzirem as enzimas capazes de decompor e armazenar moléculas de açúcar complexas, o que está no foco da doença.

“Fizemos uma parceria para avaliar a segurança em primatas não-humanos. Comprovando a segurança e tendo um dado de eficácia, nossa ideia é pedir para Anvisa para poder realizar fase 1 (com voluntários humanos)”, afirma Baldo. “É um processo bastante caro. Ao chegarmos na fase clínica (com pacientes humanos) será preciso um grande investimento de governo ou alguma parceria privada.”

O desenvolvimento de soluções nacionais, por outro lado, pode baratear o custo das terapias gênicas para o uso na população, explicam os médicos. Em geral, quando tratamentos do tipo chegam ao país e foram desenvolvidos internacionalmente, seu custo ultrapassa a casa dos milhares de reais para cada uso. O que figura como um desafio Sistema Único de Saúde (SUS).

No Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, por exemplo, há uma outra pesquisa em parceria com a Universidade da Califórnia em Berkeley, para que um método de edição genética com menor custo seja utilizado num tratamento para anemia falciforme. Neste momento, diz Bruno Solano, médico e pesquisador do IDOR Ciência Pioneira, os pesquisadores envolvidos estão coletando dados da pesquisa pré-clínica para, no ano que vem, apresentar um dossiê à Anvisa com intenção de iniciar testes com voluntários humanos.

“Estudamos melhorias no processo de edição gênica, que o tornam mais simples e mais facilmente aplicável em países em desenvolvimento. No futuro, queremos adaptar essa tecnologia até para que ela possa ser feita no hospital”, diz Bruno.

O avanço da técnica no país, inclusive, irradiou para a criação do Instituto Nacional de Terapia Gênica (Intergen), que inclui um grupo com cerca de 15 laboratórios brasileiros, divididos entre seis estados e mais o Distrito Federal, trabalhando justamente com novas soluções em terapia gênica, de olho nos desafios brasileiros.

“O grupo vem para captar financiamento, mostrar que existe a demanda, existe pesquisa original acontecendo no país. Essas tecnologias não precisam vir somente do exterior, que tem pessoas daqui mesmo trabalhando para desenvolver as novas terapias”, diz Bryan Strauss, um dos representantes do grupo, que foi fundado após um edital do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Diversidade

Embora os percalços sejam grandes e conhecidos, pesquisadores e especialistas na área acreditam que o Brasil pode figurar como um ambiente favorável para desenvolver esse tipo de técnica, inclusive quando se considera a realização de testes clínicos, com voluntários, de fármacos desenvolvidos por empresas multinacionais. Pedro Galante, pesquisador sênior do Hospital Sírio-Libanês afirma que a diversidade populacional é um trunfo nesse sentido.

“A população brasileira é a mais miscigenada no mundo. Ela acaba sendo muito atrativa para as farmacêuticas em testes clínicos. Porque, desse modo, essas empresas não precisam testar o medicamento num caucasiano, num africano, num asiático, e talvez alguém ali do Mediterrâneo. No Brasil a gente tem tudo isso e às vezes na mesma pessoa”, diz o pesquisador.

O início do uso da terapia gênica, lembra Salmo Raskin, diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica, remonta à década de 1990. Nos últimos cinco anos, porém, esse tipo de técnica passou por uma aceleração importante, chegando a tornar-se alvo de interesse de diversas farmacêuticas e até disponível no SUS.

“A terapia gênica está chegando ao mercado. Ainda são, porém, procedimentos caríssimos”, afirma Raskin.

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