O Globo: Mulher trans pode amamentar? Conheça Mika, que realizou o sonho de dar o peito ao bebê

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Mulher trans pode amamentar? Conheça Mika, que realizou sonho de dar o peito ao bebê
Mika Minio-Paluello nasceu com o sexo biológico masculino, mas agora se identifica como uma mulher, tendo realizado o processo de transição de gênero. Ela virou alvo de muitos comentários nas redes sociais após uma publicação na qual aparece amamentando seu bebê em um ônibus, acompanhada da mensagem “mulheres trans podem amamentar”. Mas, afinal, a afirmativa é cientificamente verdadeira?

Mika publicou o registro após ter sido alvo de uma série de “tweets cheios de ódio, crueldade e tentativas de ridicularização”, segundo ela. Na publicação, Mika também conta que amamentou o filho por algumas semanas, antes de ser obrigada a suspender o processo por conta do início de uma quimioterapia, resultado de uma luta dela contra um câncer.

A história dela foi contada pela jornalista e escritora especializada em feminismo Milli Hill, no jornal britânico Daily Mail. Segundo Milli, “a resposta complexa é sim e não” (sobre a possibilidade de uma mulher amamentar). Originalmente desenvolvido em 2000 para mães adotivas, o protocolo Newman-Goldfarb diz que o corpo pode ser induzido a gerar leite materno, mesmo que seja do sexo masculino.

“Ele funciona imitando as alterações hormonais que ocorrem naturalmente no corpo de uma mulher que acabou de dar à luz e envolve várias semanas de uso regular de uma bomba para estimular a mama, tomando uma combinação de hormônios contraceptivos e o medicamento anti-náusea domperidona, o que aumenta os níveis do hormônio produtor de leite prolactina”, diz o texto de Milli.

Há, porém, uma série de problemas ao longo do processo. A domperidona pode causar ou acentuar problemas cardíacos — sendo inclusive proibida nos Estados Unidos. Segundo o artigo de Milli, “não está claro o que mais há no ‘leite’ de uma mulher trans” e “como as mulheres trans provavelmente estão tomando outros medicamentos prescritos como parte de sua transição, como antiandrógenos para diminuir a produção de testosterona, estrogênio e progesterona para ajudá-las a criar uma aparência menos ‘masculina’, os críticos dizem que o leite é potencialmente inseguro para um recém-nascido, ou pelo menos deveria ser rigorosamente testado”, o que ainda não ocorre.

Milli destaca que há muito pouco estudo sobre o assunto, com os números sobre a incidência da prática sendo “difíceis de obter”, mas estimativas que apontam “uma dúzia de casos registrados de lactação induzida em homens nascidos, com números que parecem estar aumentando nos últimos dois anos”.

“Em 2020, 34% dos profissionais de saúde que participaram de um evento sobre saúde transgênero disseram ter conhecido mulheres trans que manifestaram interesse em induzir a lactação, e 91% deles acharam que havia necessidade de protocolos médicos especializados para mulheres trans que desejam amamentar”, cita a jornalista.

O que o homem é capaz de produzir?

Segundo o artigo de Milli, um estudo apontou que a composição do fluido produzido pelos seios masculinos após o protocolo Newman-Goldfarb “era aproximadamente semelhante à do leite feminino”, embora aponte que seja “improvável que os homens sejam capazes de produzir o suficiente para alimentar exclusivamente um bebê” — houve um caso documentado de uma mulher trans alimentando um bebê exclusivamente desde o nascimento, necessitando, no entanto, de suplementação com fórmula a partir da sexta semana de vida da criança.

“Simplesmente não temos os estudos”, afirma a professora Jenny Gamble, especialista em obstetrícia da Coventry University, na Inglaterra. “Em última análise, precisamos mudar o foco da questão e perguntar por que essa prática está acontecendo em primeiro lugar. Quais são os benefícios para o bebê ou para a mãe biológica?”

Milli defende que o assunto é difícil de ser aprofundado por meio de pesquisas e debates uma vez que, segundo ela, “as pessoas que levantam dúvidas sobre a indução da lactação por mulheres trans são imediatamente acusadas de transfobia”, tornando “quase impossível encontrar especialistas dispostos a comentar o assunto”.

Há correntes, no entanto, que estão otimistas em relação a essa novidade. Um artigo no The Journal of Human Lactation, do início deste ano, apontou que, “para mulheres transgênero, na terapia hormonal de afirmação de gênero baseada em estrogênio, a capacidade de nutrir seus bebês por meio da produção de seu próprio leite pode ser uma experiência profunda de afirmação de gênero”.

‘Substância viva’

Especialista, porém, alertam que o leite materno feminino tem “propriedades que o equivalente masculino simplesmente não pode replicar”. Definido como uma “substância viva”, ele “se adapta às necessidades do bebê com notável precisão”. Como exemplo é citado o colostro, composto presente no leite materno rico em anticorpos que tem papel fundamental na imunidade e no desenvolvimento do bebê.

Produzido nos primeiros dias de amamentação, ele é “embalado com anticorpos, antioxidantes, vitaminas e nutrientes em quantidades muito maiores do que no leite materno”, aponta Milli, com sua “produção nunca tendo sido observada em machos”.

Milli aponta também que, cerca de três dias após o nascimento, o leite da mulher começa a “descer”, mas “muda constantemente por cerca de duas semanas, até se estabelecer como leite materno maduro”, mas, posteriormente, ainda “continua a mudar, muitas vezes de forma muito sutil, de acordo com as necessidades do bebê”.

“Se o bebê mamar por pouco tempo, ele obtém um leite mais aguado e mata a sede. Se continuarem a mamar, receberão leite posterior, que é mais rico e calórico. O leite materno também muda à medida que o bebê cresce, adaptando-se perfeitamente à sua idade e desenvolvimento, com o leite de bebês prematuros sendo especificamente mais rico em gordura, calorias e proteínas, enquanto o leite para bebês mais velhos é mais rico em qualidades de reforço imunológico”, explica Milli.

Ainda segundo o artigo, “quando uma mãe beija seu bebê, por exemplo, ela coleta amostras de patógenos em seu rosto, que então viajam para seu sistema linfático e causam a criação de anticorpos, que o bebê recebe através de seu leite”. Há também indícios de que “haja um ciclo de feedback complexo entre a saliva do bebê e o mamilo da mãe, que ‘informa’ a mama sobre as necessidades de saúde do bebê, novamente causando o aumento de anticorpos se eles tiverem um vírus, por exemplo”.

“O leite produzido pelas fêmeas é uma fábrica do sistema imunológico em tempo real. Não há evidências de que a lactação induzida em machos possa fazer qualquer uma dessas coisas”, conclui Milli.

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