
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a próxima pandemia não é uma questão de “se” vai acontecer, mas sim “quando”. Isso porque, se antes patógenos já adquiriam a capacidade de se disseminar em escala mundial, como ocorreu com doenças como varíola e gripe espanhola, hoje o mundo globalizado e as mudanças climáticas tornam essa possibilidade algo cada vez menos distante.
Diante deste cenário, nessa quarta-feira (25), os jornais O GLOBO e Valor Econômico e a rádio CBN transmitiram o encontro “Prevenir pandemias, universalizar o acesso: os desafios da saúde no Brasil e no mundo”, às 10h, pelas redes sociais. A conversa fez parte do G20 no Brasil, projeto especial de cobertura dos eventos que marcam a presidência brasileira do grupo de grandes economias do planeta.
A discussão reuniu Alessandra Nilo, sherpa do C20 no Brasil, grupo de engajamento do G20 que representa a sociedade civil organizada, e cofundadora da ONG Gestos, e Patrícia Torres Bozza, coordenadora da força-tarefa Desafios da Saúde: qualidade, equidade e acesso do Science20, grupo de engajamento do G20 para a área de ciência e tecnologia. A mediação foi de Adriana Dias Lopes, editora de Saúde do Globo.
Na conversa, Alessandra Nilo explicou que, embora a ciência tenha avançado a passos largos nas últimas décadas, o acesso às inovações que salvam vidas ainda é desigual, cenário que se tornou evidente com as vacinas contra o coronavírus, que dependeram de esforços conjuntos e levaram meses para chegar a países de média e baixa renda – quando nações mais ricas já tinham parte significativa de sua população protegida.
“Muitas das pesquisas acontecem no âmbito das universidades, e a parte embrionária tem muito de financiamento público, mas o desenvolvimento acaba acontecendo no mercado privado, que tem essencialmente como objetivo o lucro. A grande discussão no mundo hoje é até que ponto esse lucro pode se sobrepor ao direito à saúde. Então uma das preocupações do C20 para o G20 tem sido garantir que as questões de propriedade intelectual não impactem o acesso às vacinas”, disse.
Neste contexto, Patrícia Torres Bozza lembra que as vacinas da Covid-19 só ficaram prontas em tempo recorde porque já havia muita pesquisa em desenvolvimento para outros coronavírus, que foi aproveitada para o Sars-CoV-2. Por isso, reforça a importância de haver investimentos de longo prazo:
“Isso é fundamental para que tenhamos a capacidade de ter esse ecossistema de ciência e tecnologia funcionando e de fazer esse salto quando há uma grande necessidade urgente como aconteceu com a Covid.”
Mas diante da concentração do desenvolvimento de vacinas hoje em um número pequeno de países, a especialista destacou ser preciso pensar em criar capacidades locais que possam contrapor o cenário de dependência estrangeira vivido na pandemia:
“No documento do S20, a primeira das recomendações é voltada para esse tema, para garantir o acesso global a vacinas, medicamentos e diagnósticos que sejam essenciais para todos. Mas nesse aspecto, vemos como essencial também promover estratégias de produção local e regional que sejam sustentáveis. Porque além de questões de interesses econômicos, há toda uma questão logística de distribuição. É essencial que se invista na capacitação local tanto para produção, quanto para o próprio desenvolvimento de pesquisa em primeiro lugar.”
As especialistas também lembraram que tudo isso não basta enquanto não houver esforços significativos para combater a desinformação em saúde que tem contribuído com as quedas na cobertura vacinal pelo mundo.
A OMS divulgou em julho números referentes a 2023 que revelam uma estagnação do número de crianças protegidas em relação ao ano anterior, e que o planeta não conseguiu recuperar os indicadores pré-pandemia. Os dados já se traduzem em realidade: no ano passado, foram mais de 300 mil casos de sarampo no planeta, crescimento de quase três vezes em relação a 2022.
Outro tópico abordado ao longo da conversa foi o impacto das mudanças climáticas, algo considerado urgente pelas especialistas presentes. Patrícia defendeu ser importante enxergar a saúde de um ponto de vista global, que entenda a saúde de humanos, animais e do meio ambiente de forma interligada:
“O aumento das temperaturas globais e dos padrões climáticos imprevisíveis criam condições que favorecem a disseminação de doenças zoonóticas (que podem ser transmitidas entre animais e humanos) e das arboviroses, por exemplo. Hoje vemos o aedes aegypti, que transmite os vírus da dengue, zika e chikungunya, muito mais espalhado e atingindo outras regiões do mundo por causa das mudanças climáticas. E um impacto na sazonalidade, vimos nessa última epidemia de dengue o que era muito concentrado em três meses do verão expandido ao longo do ano.”
Ela lembrou ainda dos efeitos das grandes queimadas para a saúde, com a disseminação de partículas que comprometem a qualidade do ar e elevam de forma significativa as doenças respiratórias. Além disso, há efeitos de saúde mental, como os decorrentes das enchentes no Rio Grande do Sul, que deixaram milhares de pessoas desalojadas e com incertezas em relação ao futuro.
Alessandra também demonstrou preocupação e fez um alerta: “Hoje estamos numa situação climática no mundo que nos últimos quatro meses todos os dias foram mais quentes em relação ao anterior. Já cruzamos a linha do aquecimento de 1,5ºC que estava prevista. Então um dos desafios é que ou tratamos isso de forma urgente ou não haverá tempo para resolvermos essas questões que estamos enfrentando.”
Ela contou que há uma expectativa para o G20 no Brasil de uma declaração dos ministros de Saúde justamente sobre o tema de clima e saúde: “Estamos participando dessas negociações e queremos que seja um documento mais ambicioso, especialmente nesse aspecto de como aumentar o orçamento para o clima.”
Essa é também uma das recomendações do Science20, disse Patrícia, que pede não apenas uma mobilização maior do financiamento para apoiar esforços climáticos e de saúde, mas que eles sejam especialmente voltados para países de baixa e média renda, com um fundo central de clima e saúde para alinhar recursos e atender populações em situação de vulnerabilidade.
Além de pandemias e mudanças climáticas, o encontro abordou ainda outros aspectos importantes que atravessam as discussões de saúde hoje, como o bem-estar mental e o papel de tecnologias como as de Inteligência Artificial (IA).
“Um dos grandes problemas de saúde hoje colocados pela OMS são as questões de saúde mental, que são uma pandemia. A resposta tem sido muito difícil porque o que vemos hoje no mundo é algo ainda muito medicalizado”, afirmou Alessandra, destacando que estudos têm apontado fatores como excesso de redes sociais, baixa qualidade da educação, violências e a falta do direito à casa, à saúde e ao emprego como agravantes.
Já sobre as tecnologias, Patrícia explicou que elas já fazem parte da realidade da saúde, porém frisou ser preciso cuidado para que elas não reforcem as desigualdades já existentes:
“As transformações digitais e tecnológicas de saúde estão aí, e é fundamental que sejam usadas de um ponto de vista democrático e ético para apoiar sistemas de saúde. Elas são muito importantes para subsidiar decisões em saúde pública, são ferramentas poderosas para integrar informações de grande volumes de dados e olhar para diferentes populações. Mas há riscos, é preciso garantir que esse uso seja feito da forma adequada e que não amplie as desigualdades.”
O projeto G20 no Brasil tem o Governo do Estado do Rio de Janeiro como estado anfitrião, Rio capital do G20 como cidade anfitriã, patrocínio de JBS, apoio do BNDES e realização dos jornais O GLOBO e Valor Econômico e rádio CBN.


