
No final de 2018, a editora Fontanar me pediu para organizar um livro com inspirações do Papa Francisco para uma vida melhor. Minha missão era mergulhar em mais de mil textos de discursos e homilias proferidos pelo primeiro papa argentino entre os anos de 2016 e o primeiro semestre de 2018. O trabalho gerou a obra “Lições do Papa Francisco”, aprovada e liberada por auxiliares de Francisco para publicação.
Homilias, ou “conversa familiar”, são falas que o sacerdote faz durante a missa, logo depois da leitura da Bíblia, para explicar ou desenvolver aquela mensagem das escrituras. No caso de Francisco, esses textos quase sempre eram feitos de improviso e depois transcritos para todas as línguas faladas por católicos e publicados no site do Vaticano.
Para questões específicas de cada país que visitava, discussões sobre imigração, tratados de guerras e paz, entre outros, ele tinha assistentes, mas fazia questão de discutir e aprovar todas as suas falas. E a orientação era sempre que os discursos fossem acessíveis. Assim como dispensou os aposentos papais para viver em uma residência mais modesta, Francisco também evitava falas pomposas que evidenciassem sua erudição e vasto conhecimento. Ele queria se conectar diretamente com os fiéis, garantir que até as questões mais complexas fossem comunicadas de forma acessível.
Francisco gostava de destacar que sua grande missão era a do bom pastor, aquele que “busca sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída”, e defender os pobres, crianças e menos favorecidos. Em 2017, criou o Dia Mundial dos Pobres, que deve ser comemorado no 33º domingo do ano, que quase sempre cai no meio de novembro.
“Os pobres não são um problema: são um recurso de que se deve lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho”, disse o Papa naquela ocasião.
Aprendi muito mergulhando naquelas falas. Vou destacar algumas lições:
Chamar Deus de “Pai” é uma revolução. Em suas falas, Francisco gostava de apontar como a atitude cristã é contraintuitiva. O natural seria usar títulos mais elevados para esse ser transcendente.
“Em vez disso, invocá-lo como “Pai” nos coloca em uma relação de confidência com Ele, como uma criança que se dirige ao seu pai, sabendo ser amada e cuidada por ele. Essa é a grande revolução que o cristianismo imprime na psicologia religiosa do homem”, disse.
Cultivar o perdão. Francisco disse:
“Todos nós devemos pedir perdão, a começar por mim. Todos. Isso nos humaniza, sem essa atitude de pedir perdão, perdemos a consciência de ter errado e de que, de uma maneira ou de outra, estamos chamados a recomeçar.”
Ele dizia também que todos que querem ser perdoados precisam perdoar. Afinal, todos os humanos erram e têm de estar abertos ao perdão, por mais difícil que essa atitude seja:
“O perdão é realmente uma forma de libertação para restaurar a alegria e o sentido da vida”, disse Francisco.
Semear a esperança e a alegria. Para Francisco, uma das missões das pessoas sobre a Terra é tornar-se capaz de semear a esperança:
“Semeie esperança: semeie óleo de esperança, semeie perfume de esperança e não vinagre de amargura e desesperança.”
Isso nos tornará mais felizes e, disse ele:
“Uma alma alegre é como uma terra boa que faz crescer bem a vida, com bons frutos.”
Depois de ler aqueles textos, também incluí em minha rotina uma prática que Francisco costumava fazer. Ao final de cada dia, ele evitava olhar no espelho e:
“Procuro olhar para dentro de mim, no que senti durante o dia, e nesse momento julgar-me.”
A maioria dos cardeais do conclave que começa quarta-feira foi nomeada por Francisco. Acompanhando suas falas, também aprendi a confiar e a aceitar o mistério da fé. Que, de onde estiver, Francisco siga inspirando os votantes.


