O Globo: Governos precisam de estratégias para elevar índices de vacinação

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Dados da ONU mostram que Brasil avançou no ano passado, mas números ainda estão longe da meta

Criança recebe a vacina contra a pólio

Diante dos baixos índices de vacinação no Brasil, não deixa de ser boa notícia a elevação de quase 10 pontos percentuais na cobertura da vacina DTP (que previne contra difteria, tétano e coqueluche), um indicador global de imunização infantil. O crescimento, constatado pela ONU e pelo Unicef, acompanha tendência de outros países, onde a cobertura dá sinais de recuperação após os solavancos provocados pela pandemia.

O dado preocupante é que no Brasil, como no mundo, a recuperação não foi suficiente para atingir as metas. Apesar de significar um alento, o salto de 68% para 77% na cobertura ainda deixa o país longe dos 95%. Em termos globais, os índices subiram de 81% para 84%.

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Chama a atenção que o percentual do Brasil, além de estar abaixo dos índices mundiais, fica aquém da média dos 57 países de baixa renda apoiados pela Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (Gavi), um vexame. Nessas nações, a cobertura da DTP subiu de 78% para 81% entre 2021 e 2022.

Situação semelhante ocorre com outras vacinas. A cobertura contra a poliomielite cresceu 6 pontos percentuais no país, indo de 68% em 2021 para 74% em 2022. Mesmo assim, continua perigosamente baixa, representando risco de a moléstia ressurgir depois de controlada. No mundo, os índices também subiram (passaram de 81% para 84%), ficando mais perto das metas.

A baixa cobertura atual é um lamentável retrocesso. O Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado nos anos 1970, se tornou referência mundial por atingir altos índices de vacinação mesmo nas regiões mais remotas do país.

É verdade que, em quatro anos, o governo Bolsonaro não incentivou a vacinação — ao contrário, se empenhou para minar a confiança nas vacinas, disseminando desinformação capaz de influenciar negativamente os brasileiros. Mas é certo também que os índices já vinham caindo antes de Bolsonaro. No caso da poliomielite, a última vez que o Brasil atingiu 95% de cobertura foi em 2015, há quase uma década.

São muitas as causas para a queda nos índices. A pandemia e o movimento antivacina são apenas algumas. O controle das doenças, graças à vacinação em massa, costuma levar a um relaxamento que põe em risco a própria estabilidade. Uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde no ano passado mostrou que problemas logísticos também contribuem para a baixa cobertura: falhas na distribuição, dificuldade de acesso aos postos, horários incompatíveis com as rotinas dos moradores etc.

Ministério da Saúde, estados e municípios, cada um com suas responsabilidades no SUS, têm obrigação de criar estratégias para aumentar os índices de vacinação. Em geral, não há falta de doses — tanto que muitas chegaram a ir para o lixo por falta de utilização, um descalabro num país onde cidadãos ainda morrem de doenças evitáveis. O que falta é convencer os brasileiros a se vacinar. Espera-se que as autoridades realizem campanhas e mutirões para aumentar a cobertura — levar as vacinas às escolas costuma dar bons resultados. Recuperar os índices é plenamente possível. O Brasil já comprovou isso.

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