Governo acerta ao incluir vacina no calendário anual, mas só isso não garante imunização satisfatória

Foi acertada a decisão do Ministério da Saúde de incluir a vacinação contra a Covid-19 no Programa Nacional de Imunizações (PNI) a partir do ano que vem. Isso significa que o país terá condições melhores de manter sob controle o vírus mais ameaçador que surgiu no planeta desde a gripe espanhola no início do século passado. Mas não basta incluir o imunizante no calendário anual de vacinas e oferecê-lo à população nos postos de saúde. O desafio é ampliar as taxas de vacinação, ainda insuficientes para a população imunizada deter a circulação do vírus.

Para as crianças, a vacinação estará no calendário obrigatório. A parcela restante da população precisará ser mobilizada para se imunizar. O Ministério da Saúde continua a orientar os maiores de 18 anos, mesmo os já vacinados, a tomar a vacina bivalente, que protege contra as variantes mais recentes do coronavírus. É preciso mais.
O ministério promete para breve uma nova campanha com a finalidade de destacar a importância da vacinação, da testagem e do tratamento contra a Covid-19. Precisará ir além, em busca de canais mais diretos de comunicação com grupos específicos. O monitoramento de postos e centros de saúde com busca ativa dos não vacinados também será imprescindível. Não se pode relaxar. A vacinação anual de crianças a partir de 6 meses, de idosos e de quem tem imunidade baixa, entre outros grupos, é a única maneira de evitar os principais danos de um vírus que continua em circulação e ainda mata todo dia em torno de 42 pessoas no Brasil.
Jamais se deve esquecer o dano causado no governo Jair Bolsonaro pela protelação na compra de vacinas e pela campanha negacionista contra os imunizantes. Sem tanto obscurantismo, dificilmente um país que concentra algo como 2% da população mundial teria somado 14% dos mortos da pandemia — atingindo a cifra macabra de mais de 700 mil.

Não há, sempre é bom lembrar, nenhuma questão técnica em aberto sobre a eficácia da vacina contra a Covid-19. Ainda em 2021, foi constatado que mortes pela doença se concentravam primordialmente entre os não vacinados — 96,3% do total, segundo pesquisa da USP e da Unesp. Num estudo que se tornou clássico para desmentir os negacionistas, o Instituto Butantan vacinou a população adulta de Serrana, no interior paulista, e acompanhou a evolução. Os casos sintomáticos caíram 80%, as internações retrocederam 86% e as mortes 95%. É este o objetivo de qualquer vacinação: evitar mortes e deixar vagas nos hospitais para atender quem de fato precisa. Deve-se ter consciência da importância da vacinação e não se deixar levar por discursos que ecoam a Idade Média.


