
Brasil vive uma alta de dengue que já levou ao menos dois estados — Minas Gerais e Acre — e o Distrito Federal a decretarem situação de emergência pela doença. Segundo dados do Ministério da Saúde, até a manhã da última quarta-feira (31), foram 232.990 casos identificados no país nas quatro primeiras semanas epidemiológicas de 2024, período que foi até o último dia 27. O número é 252% superior ao mesmo do ano passado, quando foram registrados 65.366.
Para tentar minimizar o impacto da doença, o Ministério da Saúde anunciou que 521 cidades receberão unidades da vacina contra a dengue Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda.
Neste primeiro momento foram priorizados jovens de 10 a 14 anos residentes de municípios com mais de 100 mil habitantes e alta transmissão de dengue. A previsão é que a campanha comece em fevereiro.
Enquanto a vacina não está disponível em larga escala para a população, restam as medidas de proteção individual contra a doença, que basicamente envolvem evitar a picada do mosquito Aedes aegypti. As redes sociais estão inundadas de medidas supostamente eficazes para combater o mosquito, que vão desde uso de repelentes até cloro no ralo e vela de citronela.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO esclarecem quais dessas medidas realmente funcionam.
Usar repelentes

Os especialistas são categóricos em dizer que o uso de repelentes aplicados na pele são a medida individual mais eficaz para se proteger contra a dengue e outras doenças causada pelo mosquito Aedes aegypti. Esses produtos não matam o inseto transmissor, mas o repelem, impedindo a picada.
Atualmente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registra como eficazes as seguintes substâncias ativas sintéticas para o combate ao mosquito são: DEET (N-dimetil-meta-toluamida ou N,N-dietil-3-metilbenzamida), icaridina (Hydroxyethyl isobutyl piperidine carboxylate ou Picaridin) e IR3535 (Ethyl butylacetylaminopropionate ou EBAAP). Há ainda produtos registrados contendo como substância ativa o extrato vegetal ou o óleo de citronela.
No entanto, um estudo realizado por pesquisadores da Unesp Botucatu concluiu que os repelentes que contém icaridina na concentração de 25% são aos mais eficazes. Diversas marcas comercializam produtos com essa especificação, basta consultar o rótulo.
“Não significa que os outros não funcionem, mas funcionam por menos tempo e com menor efetividade”, explica o infectologista Alexandre Naime Barbosa, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Por exemplo, os repelentes à base de DEET podem ter até quatro horas de efeito. Já os de icaridina 25% protegem por um período de 10 a 12 horas, a depender da marca. Independentemente da escolha, para que o repelente funcione, é preciso estar atento às indicações de utilização disponíveis no rótulo, reaplicando após o fim do período de efeito ou após suar.
“Os repelentes individuais precisam ser passados com muita frequência e é importante checar no rótulo se há proteção contra o Aedes”, orienta Mauro Teixeira, professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
No que diz respeito ao uso infantil, é preciso estar atento, pois nem todas as composições são adequadas. Produtos à base IR3535 podem ser usados para crianças acima de 6 meses. Já aqueles com DEET, icaridina e óleo de citronela são indicados para crianças acima de 2 anos. Mas é preciso verificar a composição. Produtos com DEET, por exemplo, só podem ser utilizados em crianças a partir dos 2 anos, na concentração de até 10% do ativo.
A bióloga Denise Valle, especialista em Aedes aegypti, e pesquisadora do Laboratório de Medicina Experimental e Saúde do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), alerta para a ineficácia de repelentes caseiros. “Para o repelente ser eficiente, ele tem que atender três condições: o princípio ativo tem que ser eficaz, tem que ter persistência no corpo e tem que estar num veículo que não agrida a sua pele. Muitos dos repelentes caseiros podem até ter algum princípio ativo que funciona, mas não há comprovação ou garantia de que ele não vai agredir a pele nem da duração do efeito.”
Usar roupa branca
Segundo Barbosa, as roupas escuras tendem a atrair mais o mosquito do que as roupas claras. No entanto, isso não significa que ele não irá te picar. Outro ponto a favor de roupas claras, segundo Valle, é que elas facilitam a identificação do mosquito. Quanto a usar roupas que cobre áreas maiores do corpo, como calças e camisa de manga comprida, pode de fato servir como uma barreira física desde que o tecido seja grosso.
Jogar cloro nos ralos

Segundo Teixeira, o cloro é absolutamente letal para o mosquito. No entanto, essa medida só funciona se for feita todos os dias, porque ele evapora. Valle explica que a meia vida do cloro é de oito horas. Ou seja, após esse período, a concentração cai pela metade e assim sucessivamente. Outro ponto importante é a quantidade, que precisa ser adequada
para o tamanho do local.
“Na minha experiência, isso não funciona muito bem. Dependendo do tamanho da larva, da quantidade de cloro colocado e do local onde está, ela pode resistir e isso pode criar uma falsa sensação de segurança”, pondera a bióloga.
Acender vela de citronela
As velas de citronela têm um poder repelente, mas ele é limitado. Os especialistas também ressaltam que essa
não é uma medida que funciona isoladamente. Mas pode ser utilizada como algo adicional ao repelente.
Tomar vitaminas do complexo B

Todos os especialistas afirmaram que não há nenhuma base científica que justifique o consumo de vitaminas do complexo B para afastar mosquitos.
Jogar borra de café na terra das plantas

Circulam informações de que colocar borra de café na água das plantas e sobre a terra ajuda a combater o mosquito transmissor da dengue. Luciana Costa, diretora do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes – UFRJ, diz
que não há nenhuma comprovação desse efeito:
“O ideal é não ter a água. Nesse caso, recomenda-se colocar areia na bordas dos pratos das plantas para evitar ter água disponível para o mosquito por os ovos.”
Aplicar inseticida no quarto
Inseticidas são produtos em spray e aerossol indicados para matar os mosquitos adultos. Eles podem ser eficazes
para matar os insetos que estão em um determinado ambiente naquele momento, mas não impendem a entrada de outros mosquitos. Aqueles produtos colocados na tomada são classificados como repelentes, não inseticidas. Segundo Costa, esses
produtos funcionam, desde que usados em conjunto com outros medidas, pois sua eficácia é limitada.



