O Globo: Bill Gates, nós e o SUS

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Brasileiros vem sofrendo com as notícias sobre dificuldades envolvidas na saúde da população nos últimos anos, sejam elas no âmbito da saúde pública, sejam na saúde suplementar. As notícias envolvem a dificuldade em manter todo o sistema de saúde sustentável a longo prazo, a sinistralidade, as taxas de reajuste dos planos, os custos hospitalares e dos materiais e medicamentos, as fraudes, as dificuldades de acesso, entre tantas outras.

Ao mesmo tempo Bill Gates escreve um texto no dia 12/12/23 intitulado “Lessons in lifesaving from Brazil” (“Lições do Brasil em salvar vidas”) elogiando o Sistema Único de Saúde (SUS) com a frase “São investimentos de longo prazo que o Brasil fez no seu sistema de saúde primário com os quais outros países podem aprender e imitar”! Não podemos deixar de reconhecer a capacidade de Bill Gates de avaliação, crítica e visão.

Daí vem uma pergunta: por quê uma impressão tão diferente de um único sistema?

Acho que à primeira vista, podemos imaginar que são duas visões por ângulos diversos, uma do usuário que enfrenta as dificuldades do dia a dia procurando a solução pontual e momentânea a sua necessidade e, outra, do empresário que enxerga o resultado macro a longo prazo.

Ambas as visões justificáveis e corretas. Mas, se o SUS é assim, elogiável para um e sofrido para outros, como podemos melhorar?

O SUS nasceu da Constituinte Cidadã de 1988 e, desde então, em constante desenvolvimento e aprimoramento como uma política pública fundamental para uma sociedade como a nossa, com desigualdades evidentes e injustiça social explícita. Seus princípios doutrinários devem sempre ser relembrados como a universalidade, a equidade e a integralidade, além de várias outras responsabilidades: vigilância sanitária, saneamento, segurança do trabalho e da saúde do trabalhador, desenvolvimento científico e tecnológico, regular e fiscalizar alimentos, estabelecimentos de saúde, equipamentos, medicações, bem como definir padrões para garantir a proteção à saúde.

Destaco aqui ações de sucesso do SUS que se transformaram em exemplos mundiais: o enfrentamento ao HIV desde o início da aids, o Sistema Nacional de Transplantes, o Programa Nacional de Imunização, o Programas de Saúde da Família (destacado no artigo do Bill Gates) e o enfrentamento da pandemia.

Embora tenhamos bons exemplos e resultados, como os mencionados por Bill Gates (em 30 anos de SUS, obtivemos a redução da mortalidade materna em quase 60%, da mortalidade infantil de menores de 5 anos em 75% e aumento da expectativa de vida em uma década), ainda lidamos com falhas básicas do sistema que deixam milhões de brasileiros desassistidos para adequados diagnósticos, exames, terapêuticas clínicas, procedimentos cirúrgicos, internações, sem falar na falta de programas eficientes de prevenção de doenças crônicas que acabam por sugar os recursos após se instalarem com suas graves consequências tardias.

Em seu artigo, Bill Gates enfatiza a importância dos agentes comunitários de saúde como aqueles que “atuam como porta de entrada para o maior sistema de saúde público gratuito e universal do mundo, e seu impacto tem sido transformador”. Esses 286 mil agentes, conforme o artigo, dão orientações de saúde, higiene e prevenção para 100 a 150 famílias, mensalmente.

Esta é uma medida realmente transformadora, pois promove o cuidar da saúde primariamente, a aproximação entre o profissional e a família e, principalmente, a continuidade do cuidado, não olhando para a doença grave, complexa e já instalada por falta de prevenção.

Na Inglaterra, desde o início do National Health Service, onde o SUS se baseou para existir, houve algumas iniciativas. Uma delas a existência do General Practioner (GP), médico generalista, responsável por uma região geográfica e famílias, sem avaliação do qual não se marcava qualquer consulta com especialistas; a outra, a obrigatoriedade da então chamada letter que nada mais era do que um resumo clínico do atendimento de qualquer médico enviado para o GP do paciente e para ele próprio, pelo correio. Uma maneira simples e eficaz de se promover a continuidade do cuidado.

Talvez, este seja um dos pontos mais importantes:- como promover a continuidade do cuidado no SUS, evitando desperdícios, realização de exames desnecessários, insatisfação do cliente e custos além dos esperados. Chamo essa falta de continuidade de “pulverização nociva do atendimento”.

Hoje contamos com a tecnologia, boa parte dela inventada por Bill Gates. Coincidência ou não, Bill Gates fã declarado do Brasil e, nós todos, gratos pelas iniciativas tecnológicas da Microsoft. A tecnologia é capaz de transformar a jornada do paciente e seu cuidado com a saúde.

Então, aproveito e pergunto: Caro Bill Gates, como podemos contar com a tecnologia, sua visão, empreendedorismo, experiência e admiração pelo SUS para conseguirmos promover mais universalidade, equidade, integralidade e interoperabilidade no sistema? Cuidaríamos de forma mais eficiente da nossa sociedade e esperaríamos ler no seu próximo artigo que estamos mais próximos da perfeição!

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