Fragilidades evidenciadas na pandemia são produto de questões históricas e da dependência estrangeira

A pandemia de Covid-19 expôs como nunca as fragilidades dos sistemas de saúde no mundo. No Brasil, o impacto foi ainda mais profundo ao evidenciar desafios estruturais e logísticos, como a falta de vacinas. Mas essa escassez não é novidade. A limitação no fornecimento, agravada pelo período, reflete um problema de décadas na gestão da saúde pública e na dependência de insumos internacionais.
O Brasil, historicamente, sempre foi visto como um exemplo positivo em termos de vacinação. Desde a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), em 1973, o país se destacou por campanhas de vacinação em massa, que contribuíram para a erradicação de doenças como a poliomielite e o sarampo, colocando a saúde pública brasileira em um patamar elevado no contexto global. Contudo, a falta de investimento continuado e as dificuldades para manter contratos de fornecimento de insumos e tecnologia enfraqueceram a capacidade de resposta do PNI. O surgimento de novas pandemias, como a de Covid-19, agravou o cenário, expondo a fragilidade de um sistema que depende em grande parte da importação de matérias-primas e da colaboração com farmacêuticas internacionais.
De acordo com um levantamento recente da Confederação Nacional dos Municípios, cerca de 64,7% dos municípios brasileiros relatam escassez de imunizantes, especialmente aqueles voltados a crianças. As vacinas mais afetadas incluem a tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), hepatite A, meningocócica C, DTP (difteria, tétano e coqueluche), Covid-19, entre outras. O Ministério da Saúde reconheceu o problema, atribuindo a escassez a questões de logística, fabricação e alta demanda, e está implementando medidas para mitigar a situação. A previsão é de que algumas vacinas, como a tríplice viral e a hepatite A, tenham seu fornecimento normalizado até o final de outubro, enquanto outras, como a vacina contra meningocócica C, só estarão disponíveis de forma plena em 2025.
A escassez de vacinas é, em grande parte, reflexo de problemas logísticos. A dificuldade em obter insumos para a produção de imunizantes, como o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), foi um dos principais gargalos durante a pandemia. O Brasil depende, em grande medida, de países como China e Índia para o fornecimento de IFAs, o que torna o sistema vulnerável a crises internacionais. Também existem desafios políticos. A falta de uma política nacional clara de priorização na compra e distribuição de vacinas resultou em desigualdades regionais. No curto prazo, a falta de imunizantes aumenta a vulnerabilidade da população a surtos de doenças já controladas, o sarampo em alguns estados brasileiros. No longo prazo, a falha em manter uma cobertura vacinal adequada pode comprometer a erradicação de doenças e enfraquecer a confiança pública nos sistemas de saúde. Além disso, a falta de imunização impacta diretamente a economia. Durante a pandemia, vimos como a demora na vacinação retardou a reabertura segura da economia, afetando negativamente o crescimento e a recuperação do mercado de trabalho.
É essencial investir na capacidade de produção de vacinas no Brasil, especialmente em instituições como o Instituto Butantan e a Fiocruz. Isso inclui também o desenvolvimento de novas tecnologias e a fabricação de IFAs no país. O Brasil possui potencial científico, mas carece de investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Fortalecer as universidades e institutos de pesquisa permitirá desenvolver vacinas inovadoras, diminuindo a dependência de tecnologias estrangeiras. Para evitar crises futuras, é fundamental que o governo brasileiro estabeleça parcerias estratégicas com a indústria farmacêutica e com países produtores.
É hora de aprender com os erros e construir um futuro em que a saúde pública seja prioridade. Vacinas salvam vidas, e garantir seu acesso é uma responsabilidade que o Brasil precisa assumir de maneira firme e definitiva.


