A resposta global ao HIV enfrenta hoje um dos cenários mais complexos de sua história recente. Estima-se que cerca de 40,8 milhões de pessoas vivam com o vírus no mundo, em um momento no qual o avanço histórico contra a epidemia se vê severamente ameaçado. Lacunas profundas de financiamento, reduções drásticas na assistência internacional externa e uma visível fragmentação na arquitetura da saúde global têm enfraquecido os sistemas de coordenação, aquisição de insumos e suporte técnico a nível global. Mudanças abruptas nas políticas de grandes doadores internacionais — particularmente as alterações na assistência externa dos EUA e a incerteza em torno do futuro do PEPFAR — geram desabastecimentos críticos de testes de HIV, profilaxia pré-exposição (PrEP), preservativos e antirretrovirais, sobrecarregando sistemas de saúde que já lidam com falta de pessoal e interrupções contínuas de serviços.
É diante deste panorama desafiador que a Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF) se posiciona de forma contundente na Conferência Internacional de AIDS. Em vez de uma abordagem meramente técnica, a organização traz ao debate uma perspectiva profundamente política e estrutural.
A IPPF defende que a eficácia do combate ao HIV é indissociável da garantia dos Direitos e da Saúde Sexual e Reprodutiva (DSSR) e da inclusão democrática das populações afetadas. Historicamente, as comunidades mais vulnerabilizadas têm sido sistematicamente excluídas dos espaços de tomada de decisão e da própria entrega de serviços.
“A IPPF vai à Conferência para pautar que a equidade e o impacto real na saúde pública só serão alcançados quando os modelos de atenção forem flexíveis, centrados nas pessoas e verdadeiramente liderados pelas comunidades, aponta Maria Antonieta Alcalde, Diretora-Geral da Federação.

Para vocalizar esse compromisso, a IPPF mobiliza uma delegação expressiva de mais de 100 lideranças e especialistas oriundos de 35 países. Maria Antonieta analisa que o coletivo plural reflete a capilaridade da federação e a diversidade das realidades locais da epidemia no Sul Global.
Delegação plural e ativista
Mexicana, defensora histórica dos direitos humanos e ativista feminista de longa data, Alcalde possui uma trajetória marcada pela liderança estratégica em organizações sociais e por uma atuação firme na ONU e em fóruns internacionais, sempre pautando a justiça social, o acesso à saúde universal e a igualdade de gênero. Sob sua direção, a delegação se constituirá como uma voz feminista combativa e indispensável dentro da resposta global de AIDS, posicionando as dinâmicas de gênero, o combate ao estigma e a autonomia dos corpos no centro das discussões sobre o vírus.
“O aporte que a IPPF apresenta na Conferência baseia-se na consolidação da estratégia de serviços integrados e baseados em direitos. Argumentamos contra o isolamento dos programas de saúde, demonstrando que a oferta conjunta de serviços de HIV com contracepção, exames de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs/RTIs), aborto seguro, atenção à saúde materna e suporte contra a violência baseada em gênero (através do modelo IPES+) são a chave para acolher o indivíduo em sua totalidade e reduzir significativamente o estigma que afasta as pessoas dos serviços de saúde”.
Política com resultados
Em 2025, os números globais da federação demonstraram a escala desse impacto prático, com a entrega de 29 milhões de serviços de HIV, incluindo mais de 135 mil atendimentos em terapia antirretroviral (TARV) e mais de 20 mil em PrEP, além de 31,5 milhões de atendimentos voltados a ISTs/RTIs e mais de 143 mil vacinações contra o HPV.
Mais do que apresentar dados globais, a IPPF leva à mesa experiências territoriais concretas de resistência e inovação frente aos cortes abruptos de programas de HIV em continentes como a África e a Ásia. Um dos destaques é o Consórcio Global para Avançar o Acesso a Novos Produtos de Prevenção do HIV (CAAP), liderado pela Associação de Planejamento Familiar da Índia. Este consórcio tem sido fundamental para introduzir e expandir a escala de prevenção biomédica — incluindo a PrEP oral, a PrEP injetável de ação prolongada (CAB-LA) e o anel vaginal de dapivirina (DVR) — em países como Lesoto, Eswatini, Malawi, Malásia, Nepal e Tailândia. Somente em 2025, o consórcio viabilizou mais de 13.500 iniciações de PrEP oral e mais de 1.000 iniciações para CAB-LA e DVR cada. Para salvaguardar esses avanços em um momento tão crítico, a federação aportou um adicional de 1 milhão de dólares por meio de seu fundo de contingência (FightBack Fund).
A delegação também apresentará defesas metodológicas baseadas no protagonismo comunitário, como o modelo implementado nas Filipinas pela organização membro FPOP, que estabeleceu o Centro Comunitário RAJAH em Iloilo City. Trata-se de um polo gerido pela própria comunidade e livre de estigma, que articula testagem, PrEP, preservativos, telemedicina e busca ativa móvel em parceria com o Departamento de Saúde local, alcançando mais de 290 mil serviços relacionados ao HIV em nível nacional em 2025. De forma similar, o modelo liderado por pares em Moçambique, por meio da associação AMODEFA na Província de Manica, demonstra o poder político da descentralização: o programa conta com profissionais de saúde treinados para oferecer serviços de PrEP inclusivos e o apoio fundamental de educadoras de pares que são trabalhadoras sexuais, construindo pontes de confiança que já integraram mais de 700 trabalhadoras sexuais à PrEP oral, superando barreiras históricas de acesso.
Para o público leitor brasileiro, que acompanha um país historicamente pioneiro na resposta à AIDS, mas que também enfrenta debates intensos sobre a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e o avanço do conservadorismo político, as reflexões trazidas pela IPPF e por Maria Antonieta Alcalderessoam com extrema urgência.
O debate proposto lembra que a saúde pública não se faz apenas em laboratórios, mas na arena política, garantindo que o financiamento internacional seja preservado, que a autonomia das comunidades seja respeitada e que as respostas ao HIV permaneçam firmemente ancoradas nos direitos humanos fundamentais.
Germana Accioly especial para a Agência Aids




