
Com profunda tristeza, a saúde pública brasileira se despede nesta segunda-feira (4) do Dr. Gerson Fernando Pereira, médico epidemiologista e sanitarista, que faleceu em decorrência de complicações de uma pneumonia. Atuante há décadas no enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis no país, Gerson foi diretor do então Departamento de IST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Mesmo em um dos períodos mais desafiadores para as políticas públicas de HIV/aids no Brasil, Dr. Gerson manteve o compromisso com o diálogo e com o trabalho técnico qualificado. Apoiou iniciativas da sociedade civil e buscou garantir que as ações estratégicas de prevenção e cuidado não fossem interrompidas.
Epidemiologista de formação, com sólida trajetória na saúde pública, atuou por muitos anos em diferentes áreas do Departamento que hoje integra a estrutura da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (Dathi). Foi nomeado oficialmente diretor em abril de 2020, num contexto de grave crise sanitária com o avanço da pandemia de Covid-19.
Durante sua gestão, trabalhou para manter o acesso à testagem, à prevenção e ao tratamento das ISTs, mesmo em meio a desafios políticos. Apesar das pressões e das limitações impostas por uma conjuntura adversa, Gerson Pereira era conhecido pelo profundo conhecimento técnico, postura respeitosa e capacidade de articulação.
Sua contribuição não se limitou aos cargos que ocupou. Foi um profissional comprometido com a saúde coletiva, defensor do Sistema Único de Saúde (SUS) e reconhecido por sua capacidade de escuta — uma qualidade especialmente valorizada por ativistas, pesquisadores e colegas de gestão.
A morte de Gerson representa uma perda para a memória técnica e afetiva da resposta brasileira ao HIV, às hepatites virais e às ISTs. Deixa um legado de coerência, dedicação e diálogo — fundamentos essenciais para qualquer política pública que pretenda ser, de fato, transformadora.
Até o momento, não há informações sobre a cerimônia de despedida.
Insituto Cultural Barong:

“O Dr. Gerson Pereira esteve à frente do DATHI (Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis) em um dos períodos mais sombrios de nossa história recente: o governo Bolsonaro e a pandemia de COVID-19.
Foi nesse contexto caótico, de incertezas e sobrecarga generalizada na área da saúde, que passamos a conhecê-lo mais de perto. Em meio a uma agenda extenuante, como todos nós vivíamos na linha de frente, Dr. Gerson não apenas abriu espaço para o diálogo, como dedicou atenção especial ao Projeto ArT em Casa, que começava a implementar a entrega domiciliar de medicamentos para pessoas vivendo com HIV/aids.
Sensível à urgência da pauta, ele promoveu reuniões com gestores de diversos estados para discutir a possibilidade de transformar o ArT em Casa em política pública. Esses encontros foram muito mais do que agendas técnicas — tornaram-se verdadeiros espaços de esperança, escuta e acolhimento.
Nós, do Instituto Cultural Barong, somos gratos pela escuta, pela confiança e pelo compromisso que o Dr. Gerson sempre demonstrou.
Nos solidarizamos com sua família, amigos e colegas de trabalho diante dessa perda repentina.”, lamentou a ONG.
Márcia Leão – Fórum ONGs Aids do Rio Grande do Sul:

“Com imensa tristeza me despeço do querido amigo Gerson Fernando Pereira, epidemiologista brilhante, servidor do Ministério da Saúde e ex-diretor do então DCCI, cuja trajetória foi marcada por um compromisso inabalável com a saúde pública. Gerson deixou um legado precioso ao movimento social de AIDS no Rio Grande do Sul, sendo um grande incentivador das políticas de enfrentamento e responsável, em sua tese de doutorado, por realizar o primeiro estudo que reconheceu a epidemia generalizada de AIDS no nosso Estado. Sua generosidade, inteligência e dedicação farão muita falta. Descanse em paz, meu amigo, e siga com a certeza que tu fez muita diferença na vida das pessoas.”
Rodrigo Pinheiro – Fórum ONGs Aids de São Paulo:

“O Gerson teve um papel fundamental na gestão passada. Ministério da Saúde estava envolvido pelo negacionismo e o Gerson conseguiu que a gente não tivesse tanto retrocesso nessas políticas, se mantendo no cargo e combatendo mais retrocessos que poderiam ser ocasionados pelo negacionismo que existia dentro do governo passado.”
A equipe da Agência Aids se solidariza com familiares, amigos e colegas de trabalho neste momento de luto, e presta homenagem a um profissional que fez da ciência e da escuta instrumentos de cuidado.
Redação da Agência de Notícias da Aids


