O adeus a Juan Carlos Raxach: uma vida dedicada ao cuidado, aos direitos e à luta contra o HIV/aids

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Nesta quarta-feira (4), a luta contra o HIV/aids no Brasil e no mundo perdeu uma de suas vozes mais firmes e generosas. Juan Carlos Raxach morreu vítima de um infarto fulminante, deixando um vazio difícil de dimensionar entre amigos, colegas, ativistas e todas as pessoas que, direta ou indiretamente, foram tocadas por sua trajetória.

Mais do que médico, terapeuta ou assessor de projetos, Juan foi presença. Presença ética, afetuosa e combativa em uma das mais importantes frentes de defesa da vida e dos direitos humanos no país. Sua caminhada se confunde com a própria história da resposta brasileira à epidemia.

Formado em Medicina pelo Instituto Superior de Ciências Médicas de Havana, em Cuba, trouxe na bagagem não apenas o conhecimento técnico, mas uma visão profundamente humanista da saúde. No Brasil, ampliou esse olhar ao se formar em Análise Psico-Orgânica pelo Centro Brasileiro de Análise Psico-Orgânica (CEBRAFAPO), integrando corpo, emoção e história de vida em sua prática clínica. Para Juan, não havia cuidado possível sem escuta, sem sensibilidade e sem respeito à singularidade de cada pessoa.

Desde 1998, atuava como assessor de projetos na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), espaço onde consolidou sua contribuição política e técnica. Ali, foi peça fundamental em debates sobre prevenção combinada, adesão ao tratamento antirretroviral, qualidade de vida e direitos das pessoas vivendo com HIV. Defendia, com firmeza, que nenhuma estratégia poderia se limitar ao campo biomédico: era preciso enfrentar o estigma, as desigualdades e as violações de direitos que sustentam a epidemia.

Juan falava com autoridade — não apenas acadêmica, mas existencial. Viveu com HIV desde os anos 1980, quando o diagnóstico ainda era cercado de medo e incerteza. Transformou essa experiência em compromisso público. Fez de sua própria história um instrumento de luta coletiva. Conhecia as dores do preconceito, os desafios da adesão ao tratamento, as fragilidades do sistema de saúde. E, ainda assim, escolheu permanecer — firme, atuante, esperançoso.

Ao longo dos anos, participou da elaboração de pesquisas, publicações e materiais educativos que ajudaram a qualificar o debate sobre práticas sexuais, prevenção, tratamento e políticas públicas. Foi voz ativa na defesa de uma resposta à aids baseada em direitos humanos, participação social e acesso universal à saúde. Nunca abriu mão da perspectiva de que pessoas vivendo com HIV são sujeitos de direitos, nunca objetos de controle ou julgamento.

Sua morte repentina interrompe projetos, conversas e sonhos ainda em curso. Mas não interrompe o legado. Juan ajudou a sustentar, por décadas, a ideia de que saúde pública se constrói com ciência e com afeto, com técnica e com compromisso político. Ajudou a fortalecer a sociedade civil como protagonista na resposta à epidemia. Ajudou a lembrar que viver com dignidade é um direito inegociável.

Nesta despedida, o que permanece é a memória de uma pessoa que escolheu transformar adversidade em ação, diagnóstico em militância, conhecimento em partilha.

Juan Carlos Raxach, sua trajetória continua iluminando caminhos. Que sua história siga inspirando a defesa intransigente da vida, da justiça e do cuidado.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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