Novos testes ampliam diagnóstico das ISTs, mas especialistas alertam: detectar mais nem sempre é cuidar melhor

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Em debate no Congresso Paulista de Infectologia, especialistas discutiram novas tecnologias para sífilis, a permanência da mpox e os limites do rastreamento; encontrar uma infecção, alertaram, é apenas o início de uma cadeia que precisa assegurar acolhimento, tratamento e prevenção

“Há mais informação e mais conveniência. Mas será que isso sempre representa mais benefício?” A pergunta lançada pelo infectologista Dr. Raul Macias Gil durante o Congresso Paulista de Infectologia ultrapassou os limites de sua apresentação sobre rastreamento. De diferentes maneiras, ela atravessou toda a mesa dedicada aos temas mais atuais no campo das infecções sexualmente transmissíveis.

A ciência dispõe de exames cada vez mais sensíveis, capazes de identificar agentes infecciosos mesmo em pessoas sem sintomas. Novas técnicas procuram ampliar a precisão do diagnóstico da sífilis. Painéis moleculares detectam microrganismos que antes passavam despercebidos. A autocoleta permite que amostras sejam obtidas com mais privacidade. Ao mesmo tempo, a experiência recente com a mpox mostrou que uma infecção pode perder espaço no debate público sem deixar de circular.

Mas o que acontece depois que o exame dá positivo? O microrganismo encontrado representa necessariamente uma doença? O tratamento trará benefício? A pessoa terá acesso aos medicamentos e ao acompanhamento? E quais impactos aquele resultado poderá produzir em sua vida sexual, afetiva e social?

Essas questões deram unidade ao debate “Hot topics em ISTs”, coordenado pelo infectologista e pesquisador Dr. Ricardo de Paula Vasconcelos, referência nacional em prevenção do HIV e de outras ISTs. A mesa teve a Dra. Roberta Schiavon como secretária e reuniu os infectologistas Dr. Juvencio José Duailibe Furtado, professor de Infectologia do Centro Universitário FMABC; Dr. Álvaro Furtado Costa, pesquisador da Casa da Pesquisa do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo e médico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; e Dr. Raul Macias Gil, professor assistente de Medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Mais do que apresentar novidades isoladas sobre sífilis, mpox e rastreamento, os especialistas colocaram em discussão um dos grandes dilemas contemporâneos da saúde sexual: a capacidade de detectar infecções está crescendo mais rapidamente do que a capacidade de interpretar alguns resultados e transformá-los em cuidado efetivo.

Encontrar não é o mesmo que compreender

Muitas ISTs podem permanecer assintomáticas durante longos períodos. A pessoa não apresenta sinais, não sabe que está infectada e pode transmitir o agente. Quando indicado adequadamente, o rastreamento permite iniciar o tratamento mais cedo, prevenir complicações, interromper cadeias de transmissão e oferecer outras estratégias, como vacinação, preservativos, PrEP e PEP para o HIV.

“Por que testar alguém que se sente bem? Porque sabemos que muitas ISTs podem ser assintomáticas. Mesmo sem sintomas, a pessoa pode carregar uma infecção e transmiti-la”, explicou o Dr. Raul, em tradução livre.

Esse benefício, entretanto, não torna qualquer exame necessário para todas as pessoas. “Cada teste positivo em uma pessoa assintomática inicia uma cascata. Precisamos estar muito atentos ao que acontece depois que o resultado chega”, alertou.

O primeiro desafio é saber o que aquele resultado significa. Exames altamente sensíveis podem identificar a presença de microrganismos que não estão causando sintomas e que talvez não precisem ser tratados. Há ainda a possibilidade de resultados falso-positivos, intervenções desnecessárias e exposição a medicamentos que podem provocar efeitos adversos.

No caso dos antibióticos, o uso sem indicação também favorece a resistência antimicrobiana, uma das maiores preocupações atuais da saúde pública. “Existem benefícios potenciais, como o tratamento mais precoce, a prevenção de complicações, a redução da transmissão e a oportunidade de oferecer outros serviços de prevenção. Mas também existem danos potenciais”, ponderou o pesquisador.

Os danos não se restringem ao organismo. Um diagnóstico de IST pode gerar ansiedade, medo, estigma, desconfiança e conflitos nas relações. Testar alguém, portanto, não é apenas executar um procedimento laboratorial. É assumir responsabilidade pelo que virá depois.

Sífilis: o futuro do diagnóstico diante de uma doença antiga

A apresentação do Dr. Juvencio Furtado mostrou como esse dilema aparece na resposta à sífilis, infecção antiga que continua impondo grandes desafios ao diagnóstico e à saúde pública.

Os exames sorológicos disponíveis são fundamentais, mas nem sempre conseguem responder sozinhos a todas as questões clínicas. Em determinados casos, especialmente quando há suspeita de comprometimento do sistema nervoso ou manifestações que podem ser confundidas com outras doenças, a interpretação se torna mais complexa.

Novas ferramentas, como testes moleculares, sequenciamento genético e metagenômica, começam a ampliar as possibilidades de investigação. A metagenômica permite procurar, em uma mesma amostra, material genético de diferentes agentes infecciosos, sem que o profissional precise partir necessariamente de uma única suspeita.

A tecnologia pode ajudar a diferenciar doenças com manifestações semelhantes e identificar agentes presentes em pequenas quantidades. Mas também exige capacidade técnica para interpretar o que foi encontrado e distinguir uma informação laboratorial relevante de um achado sem impacto clínico.

Quando o assunto é tratamento, porém, o centro da resposta continua ocupado por um medicamento conhecido há décadas. “Tratamento é voltar ao passado. A gente aprendeu isso antes: penicilina”, afirmou o Dr. Juvencio.

A novidade não está na substituição da penicilina benzatina, mas na produção de evidências que ajudam a utilizá-la de forma mais precisa.

Um ensaio clínico publicado em 2025 comparou uma aplicação de 2,4 milhões de unidades de penicilina benzatina com três aplicações semanais em pessoas com sífilis recente. A dose única apresentou resposta sorológica não inferior ao esquema de três doses, inclusive entre pessoas vivendo com HIV.

A constatação tem efeitos que ultrapassam a discussão acadêmica. Nos serviços de saúde, cada retorno adicional pode representar uma oportunidade de perda do acompanhamento. “Quando são três doses, eu posso perder o paciente no seguimento”, observou o infectologista.

Evitar aplicações adicionais quando elas não são necessárias pode reduzir desconfortos, simplificar o cuidado e diminuir o risco de abandono. Isso não significa, porém, que todas as formas de sífilis possam ser tratadas da mesma maneira. O estágio da infecção, o comprometimento neurológico, a gestação e outras condições clínicas precisam ser considerados na definição do esquema.

A fala do Dr. Juvencio revelou, assim, um aparente paradoxo: enquanto o diagnóstico avança em direção ao sequenciamento genético e à metagenômica, o tratamento continua dependente da penicilina. A inovação não apaga o que já funciona; ela deve ajudar a empregar os recursos disponíveis de maneira mais adequada.

A vacina que ainda não chegou

A prevenção da sífilis também permanece como uma fronteira científica. Pesquisadores tentam identificar componentes do Treponema pallidum, bactéria causadora da infecção, capazes de estimular uma resposta imunológica protetora. “Há 20 anos já se pesquisava uma vacina, identificando esses genes. E vários estudos foram sendo feitos ao longo do tempo”, relatou o Dr. Juvencio.

Até o momento, porém, não existe vacina disponível contra a sífilis. A resposta continua baseada em prevenção, testagem, diagnóstico oportuno, tratamento adequado e cuidado com as parcerias sexuais.

Uma doença pode sair das manchetes sem desaparecer

Se, na sífilis, o desafio está em combinar tecnologias novas com uma resposta já conhecida, a mpox apresenta outro problema: como manter a vigilância sobre uma doença depois que ela deixa de ocupar o centro das atenções?

O Dr. Álvaro Furtado Costa iniciou sua apresentação com uma resposta direta à pergunta proposta pela programação — em 2026, ainda devemos nos preocupar com a mpox? “Não acabou”, afirmou.

Ele participou da produção de conhecimento sobre a doença durante o surto de 2022. Naquele momento, o rápido crescimento dos casos, o aparecimento de manifestações até então pouco reconhecidas e a concentração inicial em determinadas redes sexuais exigiram uma resposta emergencial.

O cenário de 2026 é diferente. A mpox já não apresenta a mesma dimensão observada no início do surto internacional, mas o vírus continua circulando. A redução da visibilidade pode criar a falsa impressão de que o problema foi superado e retirar a doença das hipóteses consideradas nos consultórios. “A maior importância é lembrar do diagnóstico de mpox dentro dos consultórios, pensando na abordagem e no diagnóstico específico”, alertou o Dr. Álvaro.

As lesões podem ser confundidas com herpes, sífilis e outras condições dermatológicas. Sem uma escuta cuidadosa e uma avaliação clínica adequada, o diagnóstico pode ser atrasado ou simplesmente não realizado. Nesse caso, não basta ter um teste disponível. É preciso que o profissional se lembre de solicitar o exame.

Vigilância sem estigma

A incorporação da mpox à rotina dos serviços também exige enfrentar o estigma construído em torno da doença. Homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens concentraram uma parcela expressiva dos casos registrados no surto de 2022, mas isso não transforma a mpox em uma infecção exclusiva dessa população. “Não podemos achar que é só um grupo que pode ter mpox”, advertiu o Dr. Álvaro.

A transmissão pode ocorrer pelo contato direto com lesões, fluidos corporais, secreções respiratórias e objetos contaminados, além do contato próximo durante as relações sexuais. Pessoas de diferentes idades, orientações sexuais e identidades de gênero podem adquirir a infecção.

Isso não significa ignorar que algumas redes sexuais apresentam maior circulação do vírus. Significa comunicar o risco sem converter informação epidemiológica em julgamento moral. “Muitas vezes, as pessoas chegam aos nossos serviços com medo de serem julgadas. Temos que trabalhar com saúde sexual”, defendeu o infectologista.

O estigma pode afastar pessoas dos serviços, dificultar a comunicação sobre práticas sexuais, atrasar o diagnóstico e comprometer a investigação dos contatos. Por isso, acolhimento e comunicação também fazem parte da resposta epidemiológica.

Mpox e HIV: atenção às formas graves

O Dr. Álvaro também chamou atenção para os casos graves observados entre pessoas imunossuprimidas, principalmente aquelas vivendo com HIV avançado, com baixa contagem de células CD4 ou sem tratamento antirretroviral adequado. “A gente teve pacientes internados em São Paulo e no Brasil, principalmente pessoas imunossuprimidas, com quadros gravíssimos e lesões extensas”, relatou.

Nesses pacientes, as lesões podem persistir, disseminar-se e apresentar evolução mais difícil. A confirmação de mpox deve abrir espaço para uma avaliação integral, incluindo a oferta de testagem para HIV e outras ISTs quando indicada e a investigação da condição imunológica da pessoa.

A vacinação permanece como uma ferramenta importante, mas ainda é direcionada a grupos definidos pelas autoridades sanitárias, especialmente pessoas com maior risco de desenvolver formas graves e contatos com exposição considerada relevante.

É preciso procurar no lugar certo

O debate sobre precisão voltou a aparecer quando o Dr. Raul abordou os diferentes locais anatômicos que podem abrigar uma infecção. “A anatomia importa. Você só encontra a infecção quando procura por ela no lugar onde ela está”, afirmou.

Exames realizados apenas na urina ou na região genital podem deixar de identificar infecções na garganta e no reto. A escolha das amostras precisa considerar as práticas sexuais e as regiões do corpo que estiveram expostas.

Para isso, o profissional deve conversar de maneira aberta e sem julgamentos sobre a vida sexual do paciente. Essa conversa, porém, ainda encontra barreiras dos dois lados.

“Nem todo profissional se sente confortável para conversar sobre saúde sexual. Às vezes, assumimos quais práticas o paciente tem porque não queremos falar sobre isso, por causa do estigma ou do desconforto”, observou o Dr. Raul.

Quando o profissional presume comportamentos ou deixa de fazer perguntas, pode solicitar o exame errado ou coletar amostras nos locais inadequados. O resultado negativo, nesse contexto, não significa necessariamente ausência de infecção — pode significar apenas que ela foi procurada no lugar errado.

Autocoleta amplia acesso, mas não elimina a necessidade de cuidado

A autocoleta de amostras foi apresentada como uma estratégia capaz de ampliar privacidade, autonomia e conforto. Em vez de depender de um profissional para realizar todo o procedimento, a própria pessoa recebe orientação, coleta o material e o encaminha ao laboratório.

A medida pode reduzir constrangimentos e alcançar pessoas que evitam serviços tradicionais por medo de discriminação. Mas é diferente do autoteste realizado integralmente em casa, no qual a própria pessoa coleta, processa e interpreta o resultado.

Nos testes domiciliares, podem surgir dificuldades para compreender o resultado, acessar o tratamento e comunicar o diagnóstico aos sistemas de vigilância. Também existe o risco de exames comercializados diretamente ao consumidor incluírem agentes para os quais não há indicação de rastreamento em pessoas assintomáticas. “Há mais informação e mais conveniência. Mas será que isso sempre representa mais benefício?”, questionou o pesquisador.

Quando o exame cria uma pergunta que a medicina ainda não sabe responder

O Mycoplasma genitalium foi usado pelo Dr. Raul como exemplo desse impasse. A bactéria pode causar uretrite, cervicite e outras complicações, mas também pode ser detectada em pessoas assintomáticas. Seu tratamento é complexo, e a resistência aos antibióticos representa uma preocupação crescente.

“Se eu fizer o teste e ele vier positivo, o que farei com esse resultado? Há benefício em tratar? O tratamento é realmente necessário?”, provocou.

As recomendações atuais não indicam o rastreamento rotineiro de Mycoplasma genitalium em pessoas sem sintomas. A investigação é reservada principalmente a situações clínicas específicas, como uretrites e cervicites recorrentes.

O exemplo evidencia uma mudança importante no raciocínio médico: nem tudo o que pode ser procurado precisa ser procurado; nem tudo o que é encontrado precisa ser tratado.

Testar indiscriminadamente pode expor pessoas a sucessivos esquemas de antibióticos, provocar efeitos adversos e ampliar a resistência antimicrobiana sem oferecer benefício comprovado.

O exame positivo é o começo, não o fim

Ao final, as três apresentações retornaram ao mesmo ponto: nenhum avanço diagnóstico funciona isoladamente. O rastreamento pode identificar uma infecção assintomática, mas o resultado precisa levar a acolhimento, orientação e cuidado. “Um rastreamento efetivo só funciona quando existe acompanhamento depois do resultado”, afirmou o Dr. Raul.

Esse acompanhamento inclui comunicar o diagnóstico adequadamente, garantir acesso ao tratamento, orientar e testar parcerias quando indicado, realizar controle de cura e oferecer estratégias de prevenção. Sem essa continuidade, a testagem produz informação, mas não necessariamente saúde.

Ao encerrar sua apresentação, o infectologista deixou uma sequência de perguntas que sintetizou o debate: “Quem devemos testar? Para qual infecção? Em qual local anatômico? A que custo? E depois: o que acontece quando o resultado é positivo?”

As respostas não dependem apenas da sensibilidade dos exames. Passam pela capacidade dos serviços, pelas desigualdades de acesso, pela formação dos profissionais e pela disposição de conversar sobre sexualidade sem julgamento.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Apoios