Geralmente usado para tratar infecções no trato urinário, o antibiótico gepotidacina pode ser um tratamento para a gonorreia, segundo estudo publicado na revista científica The Lancet no último dia 14 de abril.
Sexualmente transmissível, a gonorreia pode causar infertilidade, dor nas relações sexuais e gravidez fora do útero se não for tratada. Desde a década de 1990, não havia novos antibióticos para esse tipo de infecção, causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que a prevalência de gonorreia na população de 15 a 49 anos seja de aproximadamente 1,4%, e que haja 500 mil novos casos por ano. Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que em 2020 mais de 1 milhão de pessoas tenham sido contaminadas no mundo por infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) passíveis de tratamento, como clamídia, gonorreia e sífilis. Só o número de casos de infecção pela bactéria Neisseria gonorrhoeae chegou a 82,4 milhões.
A OMS considera ainda a resistência antimicrobiana (RAM) como uma das dez maiores ameaças à saúde global. Esse fenômeno pode tornar as infecções incuráveis e reflete a necessidade de buscar alternativas. No caso da gonorreia, sua forma resistente a antibióticos é chamada de “supergonorreia”.
Novo tratamento
Com 622 pacientes, o novo estudo comparou a gepotidacina em forma de pílula à injeção de ceftriaxona, comumente usada para tratar a IST, e com outra pílula, a azitromicina.
Os resultados mostraram que, além de ser tão eficaz quanto o tratamento padrão, a gepotidacina mostrou eficácia contra cepas da bactéria da gonorreia que são resistentes aos antibióticos atuais.
A maioria do grupo de estudo era composta por homens brancos, e a pesquisa analisou efeitos na gonorreia urogenital, o que pode interferir nos resultados. Segundo os autores, são necessárias mais pesquisas para verificar o efeito do medicamento para infecções do reto e da garganta em mulheres, adolescentes e em pessoas de etnias diversas.
Contudo, os resultados iniciais mostraram que a gepotidacina pode não só combater o aumento de cepas de gonorreia, como também reduzir o custo com recursos de saúde ao substituir a injeção pela pílula.
“O que estamos vendo com a N. gonorrhoeae é um desafio que pode se estender facilmente a outras bactérias com o agravamento do cenário de resistência antimicrobiana”, escreveram os pesquisadores. “O investimento em pesquisa de novos antimicrobianos e métodos de prevenção eficazes é fundamental para evitar que a gonorreia fique fora de controle nos próximos anos.”


