Para o infectologista Maiky Prata, o preconceito pode afastar dos serviços de saúde quem precisa de orientação ou tem um sintoma a investigar.
Quando o Novembro Azul convida os homens a cuidar da saúde, quem mais se reconhece nesse chamado? Mulheres trans, travestis e pessoas não binárias que têm próstata também podem desenvolver câncer nesse órgão. Para o infectologista Maiky Prata, incluí-las na campanha passa tanto pela mensagem que chega ao público quanto pelo atendimento que encontram quando procuram ajuda.

Médico do Ambulatório de Atendimento Integral à Saúde da População de Travestis, Transexuais e Pessoas Não Binárias de Diadema (DIATRANS), Prata vê na própria cor da campanha uma oportunidade de discutir a quem ela se dirige.
“Quando se tem um mês voltado para lembrar da importância do cuidado de prevenção do câncer de próstata, tem o azul como tema, para que lembremos das masculinidades, já que, no geral, é a cor socialmente relacionada ao masculino. No entanto, o foco não pode perder de vista todas as pessoas que têm próstata”, afirma.
A dificuldade pode começar antes mesmo da consulta. O receio de sofrer discriminação pode levar uma pessoa a adiar a ida à unidade de saúde, inclusive quando percebe que algo mudou. “Impor barreiras de acesso de acordo com gênero, orientação sexual sempre será um marcador de exclusão e aumento da vulnerabilidade a agravos de saúde”, diz o médico.
O que muda com o uso de hormônios?
Segundo Prata, o risco de desenvolver câncer de próstata é menor entre quem usa estrogênio junto com medicamentos que bloqueiam a ação de hormônios como a testosterona. Uma dúvida que também merece espaço na campanha é se a pessoa ainda precisa de cuidados com a próstata depois da cirurgia de afirmação de gênero.
“Isso não significa risco zero, mesmo em mulheres que fizeram redesignação sexual, já que a próstata é mantida neste procedimento”, explica.
O uso de hormônios também é uma informação importante na hora de interpretar o PSA, exame de sangue que ajuda a investigar alterações na próstata. A hormonioterapia pode baixar o nível de PSA no sangue. Assim, um resultado considerado baixo para um homem cis pode merecer atenção em uma mulher trans que usa estrogênio. Ainda não se sabe qual valor indica, com maior precisão, a necessidade de investigar essa população.
Quando procurar atendimento
Perceber que o jato de urina ficou mais fraco, ter dificuldade para começar a urinar ou passar a se levantar várias vezes à noite para ir ao banheiro são mudanças que merecem ser relatadas em consulta. Elas podem ter várias causas, entre elas o aumento benigno da próstata. Prata também orienta a procurar avaliação se houver sangue na urina ou na ejaculação.
Quem percebe essas alterações pode procurar uma unidade de saúde sem esperar pela campanha de novembro. A orientação do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional de Câncer (INCA) é investigar os sinais suspeitos. Para pessoas sem sintomas, os órgãos não recomendam a oferta de exames de rotina a toda a população.
Para Prata, o compromisso do Novembro Azul com mulheres trans, travestis e pessoas não binárias se traduz no direito de chegar ao serviço, falar sobre o que sentem e receber o acompanhamento de que precisam. “Fazer política pública em saúde não pode perder os princípios básicos de equidade e universalidade: o acesso deve ser para todas as pessoas que têm demandas, garantindo a integralidade do cuidado em saúde”, afirma.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevistas:
Dr. Maiky Prata
Instagram: @dr.maikyprata




