Dr. Thiago Caetano, urologista, e Dra. Elaine Matsuda, infectologista, explicam que campanha tradicionalmente voltada ao câncer de próstata deve ampliar o olhar e convidar os homens a cuidarem da saúde como um todo — do corpo, da mente e da vida sexual.
Criada para chamar atenção à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer de próstata, a campanha Novembro Azul se transformou, ao longo dos anos, em um convite à reflexão sobre a saúde masculina de forma mais ampla. No Brasil, o movimento foi incorporado pelo Ministério da Saúde em 2008 e hoje é uma das principais portas de entrada para falar sobre prevenção, hábitos saudáveis e autocuidado.
Mas o debate precisa ir além do toque e do PSA (Antígeno Prostático Específico, uma proteína produzida pela próstata masculina que pode ser medida em um exame de sangue). Ainda há muito medo, vergonha e desinformação quando o assunto é saúde do homem, especialmente no que diz respeito à sexualidade, à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e à busca regular por atendimento médico.
Câncer de próstata: o mais comum entre o sexo masculino
O urologista e cirurgião Thiago Caetano, formado pela USP de Ribeirão Preto e especialista em cirurgia urológica e prevenção do câncer de próstata, explica que a doença é o tipo de câncer mais comum entre os homens, ficando atrás apenas do de pele não melanoma.
“Essa campanha existe justamente por causa da alta prevalência dessa doença. O câncer de próstata é uma realidade: uma em cada nove pessoas com próstata vai desenvolver a doença ao longo da vida”, explicou.

Ele lembra que o rastreamento deve começar aos 50 anos, mas que pessoas negras e aquelas com histórico familiar devem iniciar o acompanhamento aos 45.
“A gente fala em ‘pessoas com próstata’ porque também há mulheres trans que precisam desse acompanhamento, independentemente de terem feito cirurgia ou não. O rastreio é indicado para todos que têm a glândula”, reforçou.
O rastreamento é feito em consultório, por meio do exame físico (toque retal) e da dosagem do PSA, exame de sangue simples que mede uma substância produzida pela próstata.
“O PSA isolado não é suficiente. Às vezes ele aumenta por outros motivos, então é preciso avaliação médica. O toque faz parte do exame físico, é rápido e indolor”, detalhou.
O mito dos sintomas
Uma das principais mensagens da campanha é que o câncer de próstata não dá sintomas no início.
“Câncer de próstata em fase inicial tem zero sintomas. O homem sente algo apenas quando a doença está muito avançada. Por isso, o rastreamento é tão importante”, enfatizou o médico.
Ele também destacou que não há prevenção no sentido tradicional, como ocorre com o câncer de pulmão (onde se evita o tabagismo).
“No caso da próstata, não existe um fator único de risco evitável. Então o que a gente faz é diagnóstico precoce. Quanto antes descobrirmos, mais eficaz e menos agressivo será o tratamento.”
Quando diagnosticado cedo, o câncer é curável. “Se o tumor está localizado na próstata, o tratamento pode ser cirúrgico ou com radioterapia, e o paciente vive bem, com qualidade de vida”, explica.
Tabus, medo e machismo: as maiores barreiras
Mesmo com o avanço das campanhas, muitos homens ainda resistem a procurar o médico. O Dr. Thiago aponta que o problema vai além da vergonha.
“Tem o machismo, o medo do exame de toque, o medo de descobrir a doença. Tem também o medo de perder a qualidade de vida. Alguns conhecem alguém que ficou impotente ou incontinente após o tratamento e pensam: ‘prefiro não saber’. Então o homem acha que, se não sente nada, está tudo bem.”

O urologista considera que é preciso desmistificar o exame de toque e falar sobre ele de forma simples.
“O exame é rápido, não causa dor e é essencial para o diagnóstico. Não tem nada de constrangedor nisso. É uma questão de saúde. O preconceito só atrapalha.”
Segundo ele, a falta de sintomas reforça o problema: “Como não há dor nem desconforto, o homem posterga. Só que o câncer é silencioso, e quando aparece, pode ser tarde demais.”
Outros problemas da próstata que exigem atenção
Nem todo problema prostático é câncer. Há outras condições frequentes, que merecem atenção.
“A mais comum é a hiperplasia prostática benigna, que é o aumento do tamanho da próstata. Não é câncer, mas causa sintomas urinários: o jato fica fraco, o homem levanta várias vezes à noite para urinar, sente urgência e às vezes até perde urina”, explicou Thiago.
Esses sintomas, alerta ele, não devem ser ignorados:
“Se o homem tem dificuldade para urinar, acorda muito à noite ou sente que não esvazia a bexiga, precisa procurar um urologista. Esses sinais já justificam uma consulta, mesmo que não haja suspeita de câncer.”
Entre os sintomas de alerta que devem motivar uma ida ao médico, estão:
- Dificuldade ou dor ao urinar
- Jato urinário fraco
- Necessidade de urinar várias vezes à noite
- Urgência ou escapes de urina
- Disfunção erétil persistente
Saúde integral e prevenção contínua
O especialista reforça que o urologista deve ser visto como um aliado da saúde integral do homem.
“Muitos homens fazem da consulta urológica sua checagem anual, e isso é ótimo. É o momento de olhar o colesterol, hormônios, hábitos de vida, disfunção erétil e até de conversar sobre saúde mental.”
Ele lembra que o sedentarismo, a má alimentação e o estresse também interferem na saúde sexual e reprodutiva.
“Disfunções sexuais e baixa libido são queixas comuns e refletem o estilo de vida. A gente precisa aproveitar a consulta para olhar o homem como um todo.”
Thiago também aproveita para reforçar a importância de falar sobre ISTs durante o Novembro Azul.
“Quem tem vida sexual ativa, independentemente de orientação ou estado civil, deve fazer testagem para infecções sexualmente transmissíveis. É uma oportunidade de oferecer o rastreio durante a consulta.”
ISTs e testagem: prevenção também é cuidado
A fala do urologista encontra eco na da médica Elaine Matsuda, doutora em infectologia em saúde pública pela CCD/SP (Coordenadoria de Controle de Doenças de São Paulo), que defende que o Novembro Azul seja usado para promover a atenção integral à saúde do homem, especialmente no campo das ISTs.
“O homem é o público que menos procura o serviço de saúde. Quando ele aparece, é o momento de aproveitar: medir pressão, glicemia, fazer testagem e conversar sobre saúde reprodutiva. É o que a gente chama de atenção integral.”, destaca a médica.

Segundo Elaine, os homens heterossexuais e idosos estão entre os que menos fazem testagem para HIV, sífilis e hepatites, o que leva a diagnósticos tardios e riscos maiores.
“Muitos ainda associam o HIV à população gay e acham que não estão em risco. Por isso o diagnóstico tardio é mais comum entre heterossexuais e, entre os idosos, é ainda pior”, explicou.
Ela alerta que o diagnóstico tardio prejudica tanto o indivíduo quanto a saúde pública.
“A pessoa fica doente sem saber, continua transmitindo o vírus e só descobre quando o corpo já está debilitado. O teste é simples, gratuito e salva vidas.”
As ISTs mais comuns e seus riscos
A infectologista detalha que as testagens rápidas disponíveis nas unidades básicas de saúde detectam HIV, sífilis e hepatites B e C.
“Essas doenças podem evoluir de forma silenciosa. O indivíduo pode passar anos sem sintomas. Por isso, é essencial testar mesmo quando se sente bem”, explicou.
Ela lembra que a sífilis pode causar complicações graves se não for tratada, como cegueira, problemas cardíacos e até demência na velhice.
“Muitos idosos tratados como se tivessem Alzheimer, na verdade, têm neurosífilis. E é algo totalmente prevenível.”
Onde fazer os exames
A testagem é gratuita e sigilosa no Sistema Único de Saúde (SUS).
Pode ser feita em:
Unidades Básicas de Saúde (UBS)
Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA)
Campanhas itinerantes de Novembro Azul
“Os testes rápidos são oferecidos em qualquer unidade básica. Não precisa de pedido médico. Enfermeiros e agentes comunitários podem fazer a testagem. É simples e rápido”, orienta Elaine.
Ela lembra que o homem não deve esperar sintomas:
“O sintoma é a exceção. A regra é testar regularmente. A testagem deve ser parte da rotina, assim como medir a pressão ou fazer um exame de sangue.”

Educação e combate ao medo
Para mudar o comportamento preventivo, a infectologista acredita que a educação sexual precisa começar cedo.
“Tudo passa pela educação, e tem que começar nas escolas. A gente precisa construir homens menos machistas, que entendam que procurar o médico não é sinal de fraqueza.”
Ela também critica o medo do diagnóstico:
“Tem gente que não faz o teste porque tem medo de descobrir. Mas o medo deveria ser o contrário: o de não descobrir a tempo. Hoje o HIV tem tratamento eficaz, e quem vive com o vírus tem expectativa de vida igual à de quem não tem.”
“Não adianta cuidar de um problema e deixar o outro escapar. Não adianta pensar só no câncer de próstata ou o contrário. A saúde tem que ser integral”, conclui.
Serviço ao leitor: o que você precisa saber
Quando procurar o médico: a partir dos 50 anos (ou 45, se houver histórico familiar ou for pessoa negra), mesmo sem sintomas.
Onde procurar: Unidades Básicas de Saúde e consultórios de urologistas e infectologistas.
Exames oferecidos: PSA e toque retal para próstata; testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites.
Gratuito: todos os testes de ISTs estão disponíveis no SUS, sem necessidade de pedido médico.
Importante lembrar: o câncer de próstata não dá sintomas iniciais; as ISTs podem evoluir sem sinais.
Cuidar da saúde é um ato de coragem — e não de fraqueza.
Mensagens finais
“O urologista precisa ser visitado uma vez ao ano. Vá quando estiver bem, não espere sentir algo. Essa é a principal mensagem do Novembro Azul”, reforça Thiago.
“A saúde do homem não pode ser fragmentada. É preciso olhar o corpo inteiro, olhar o indivíduo inteiro. E isso vale para médicos, governos e para cada um de nós”, finaliza Elaine.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Dr. Thiago Caetano
Instagram: drthiagohcaetano
Dra. Elaine Matsuda Monteiro
Instagram: draelaine.infecto




