09/01/2007 – 17h10
“Mesmo vivendo com HIV, eu não quero desistir da vida, eu não quero deixar de lutar.” Foi com essas palavras que se encerrou o capítulo desta segunda-feira (08/01) da novela “Páginas da Vida”, há cerca de sete meses no ar. No final de cada episódio, o folhetim transmitido pela TV Globo exibe depoimentos de pessoas comuns sobre os mais variados temas (soropositividade, sexualidade, violência, etc). Em seu testemunho, a carioca Heli da Silva Cordeiro, de 63 anos, declarou que “não imaginava que um dia pudesse ser uma pessoa soropositiva”. Infectada pelo marido há cerca de 11 anos, ela é um exemplo da feminização da pandemia.
Faz duas ou três semanas que Heli da Silva Cordeiro gravou o depoimento para a novela. Ela não lembra ao certo há quanto tempo foi a filmagem, mas recorda que a gravação durou cerca de 20 minutos. Editadas, suas palavras somaram 1min9s. A memória não a trai, entretanto, quando se trata de lembrar do tempo que ficou casada com o homem que a infectou ou mesmo do seu temperamento. “Foram 31 anos de casamento. Ele era muito machista. Não me deixava trabalhar”, recorda Cordeiro. “Ele começou a passar mal, foi internado e em cinco dias faleceu”, relata, ao lembrar da morte do marido em novembro de 1995.
Integrante do movimento “Cidadãs Posithivas”, ela garante que nunca teve problema com preconceito e sempre teve o apoio da família. “Os verdadeiros amigos ficam”, diz Heli. Ela avalia a iniciativa da Rede Globo de Televisão como positiva, assim como Maria Aparecida Lemos, outra integrante do “Cidadãs Posithivas”. Ela garante que repercussão dos depoimentos “tem sido muito legal”. Conhecida como Cida, a ativista avalia que é importante aproveitar “esse momento”. “Poderiam ter mais depoimentos agora que tá chegando o Carnaval”, pede.
Segundo Maria Aparecida Lemos, duas outras integrantes do movimento já gravaram depoimentos para a novela global. Seus nomes? Marilene Gomes e Valdeli dos Santos (conhecida como Val). Quando os depoimentos vão ao ar? “A gente não sabe. Eles [a TV Globo] só avisam no dia ou na véspera [da transmissão]”, explica a ativista. No 1º bloco do capítulo de ontem, em uma cena curta, o soropositivo Gabriel (Miguel Lunardi) pega na mão da freira Lavínia (Leticia Sabatella), que vai ao seu quarto brindar a chegada de 2007. Ela fica um pouco constrangida com o aparente flerte do paciente. Abaixo, o depoimento na íntegra, transmitido no quinto e último bloco da novela, da soropositiva Heli da Silva Cordeiro:
“Tive um casamento de 31 anos e não imaginava que um dia eu pudesse ser uma pessoa soropositiva… Porque eu achava que isso era só para os homossexuais, para as prostitutas, que era o quê rolava na época. E eu achava que eu estava protegida porque eu tinha ali meu casamento, só tinha meu marido, mas não foi isso que aconteceu. Ele ficou doente. Em cinco dias ele faleceu e depois eu vim a saber que eu era uma pessoa que vivia com HIV. Meus filhos nunca me viraram as costas, minha família, irmã, sobrinhos… O preconceito que eu senti foi de um médico, o primeiro que me atendeu. ‘Sua vida é promiscua?’ ‘Quantos homens você tem?’ Eu depois que descobri comecei a sair, eu comecei a fazer cursos, eu comecei a viver a vida, eu comecei a fazer coisas que eu nunca tinha feito antes. Mesmo vivendo com HIV, eu não quero desistir da vida, eu não quero deixar de lutar.”
Léo Nogueira



