NOVAS NORMAS DE TRATAMENTO DO HIV NA RÚSSIA PODEM PRIVAR PACIENTES DE MEDICAMENTOS

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17/1/2007 – 12h30

O ministro da Saúde Pública da Rússia pode estar envolvido em um novo escândalo de corrupção. Desta vez, a questão está relacionada à ordem do ministro com respeito à nova norma nacional de tratamento do HIV/Aids. O Centro Federal de Aids disse que a ordem pode “interromper o programa de tratamento de pacientes soropositivos” porque muda drasticamente a lista de medicamentos anti-retrovirais. Médicos acreditam que o nova norma, que surgiu na véspera do contrato para fornecimento das drogas, foi escrita “especialmente para certas companhias”: a internacional Janssen Cilag e sua parceira russa Makiz-Farma.

O vice-ministro da Saúde Pública e Desenvolvimento Social Vladimir Starodubov assinou uma ordem contendo uma nova lista de medicamentos anit-HIV/Aids aprovados em novembro. A nova medida não inclui alguns remédios vitais que estavam antes na lista, tais como o Combivir, um medicamento de primeira linha amplamente utilizado na Rússia; e os medicamentos de segunda linha Trizivir, Reyataz e Fuzeon, administrados a pacientes que desenvolveram resistência ao Combivir. Em vez disso, a lista agora inclui o Darunavir, que é sugerido por ser muito utilizado, e o Ritonavir, que é sempre usado conjuntamente com o Darunavir.

A Comunidade de Pessoas Vivendo com o HIV foi a primeira a responder à medida do Ministério. O diretor da organização, Mikhail Rukavishnikov, declarou que “as mudanças levarão à morte em massa dos pacientes, porque a nova norma viola todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tratamento de doenças relacionadas ao HIV. A norma tambem surpreendeu os principais especialistas em HIV.

Vadim Pokrovsky, diretor do Centro Federal de Aids, disse: “A nova norma é quase uma cópia de outra norma ultrapassada de 2003. Por exemplo, ela inclui o Amprenavir, uma droga que saiu de produção há muito tempo.”

Pokrovsky está convencido que se trata de substituir medicamentos baratos por outros mais caros. O especialista estima que o Darunavir consumirá $ 30 milhões, que é a sexta parte do orçamento destinado para o tratamento do HIV em 2007. “É o medicamento mais caro e deveria ser utilizado depois dos outros.” Além disso, os médicos acreditam que tal regime terapêutico podem simplesmente prejudicar os pacientes com HIV. “O Darunavir é um medicamento novo, caro e sub-analisado. Ele foi registrado bem recentemente na Rússia, em 2006,” contou Pokrovsky. “Se o Estado comprar esse remédio, pelo menos um quarto dos pacientes registrados ficará privado da terapia anti-retroviral, porque simplesmente não sobrará dinheiro suficiente para comprar outras drogas.

A medida surgiu, de alguma maneira, antes do cronograma. Em agosto de 2006, o Ministério já tinha adotado novas medidas para o tratamento do HIV/Aids, que passaram por supervisão médica. Um contrato para fornecimento de medicamentos anti-HIV/Aids já estava agendado para o início de dezembro. É por isso que os médicos acreditam que uma nova medida fora do cronograma mudando a lista de medicamentos foi agendada para o contrato a ser assinado com os fornecedores. Eles suspeitam que a medida foi escrita “especialmente para algumas companhias”.

O único produtor e criador do Darunavir no mundo é a empresa suiço-belga Janssen Cilag. O Ritoanvir é produzido pela empresa Indiana Hetero. A única parceira dessas duas empresas na Rússia é a grande farmacêutica Makiz-Farma. Integrantes do mercado acreditam que o seu proprietário é Igor Rudinsky, diretor geral e co-proprietário da SIA International, da maior companhia distribuidora da Rússia.

RosZdravNadzor, inspetor da Saúde Pública da Rússia, absteve-se de fazer comentários sobre a nova medida e sua possível conexão ao contrato. Entretanto, o State Duma [casa subordinada à Assembléia Federal] já está interessado na situação. “Eu tenho todos os motivos para acreditar que a medida foi escrita para beneficiar empresas específicas,” declarou Mikhail Glushankov, diretor da comissão anti-corrupção da instituição. “Eu vou procurar pessoalmente os altos funcionários da equipe presidencial que supervisionam os projetos nacionais,” prometeu o parlamentar.

Fonte: www.actions-traitements.org

Tradução: Maurício Barreira

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