Documento inédito propõe abordagem que vai além da supressão viral e reforça a necessidade de atenção integral à saúde física, mental e social da população que envelhece com HIV
O avanço da terapia antirretroviral (TARV) transformou o HIV de uma doença fatal em uma condição crônica controlável, permitindo que milhões de pessoas vivam por décadas após o diagnóstico. Com isso, um novo desafio ganha espaço entre especialistas: garantir não apenas mais anos de vida, mas também um envelhecimento saudável para as pessoas que vivem com o vírus.
Essa é a proposta das primeiras diretrizes clínicas voltadas especificamente ao cuidado de idosos vivendo com HIV na África do Sul, publicadas recentemente pela Sociedade de Clínicos de HIV da África Austral no periódico Southern African Journal of HIV Medicine. Embora recomendações sobre o atendimento dessa população já aparecessem em outros documentos internacionais, esta é a primeira diretriz desenvolvida especificamente para um contexto africano.
A publicação marca uma mudança importante de paradigma. Em vez de concentrar o cuidado exclusivamente na supressão da carga viral, as recomendações defendem uma assistência integral, que leve em consideração as condições físicas, cognitivas, emocionais e sociais do paciente.
População idosa com HIV cresce rapidamente
Graças à eficácia da terapia antirretroviral, a expectativa de vida das pessoas vivendo com HIV aumentou significativamente nas últimas décadas. Como consequência, cresce também o número de idosos que convivem com o vírus, especialmente na África.
Na África do Sul, pessoas com mais de 50 anos representam atualmente o segundo maior grupo populacional vivendo com HIV. Em 2010, essa mesma faixa etária era a menor entre as pessoas diagnosticadas com a infecção, segundo análise de dados realizada pelo portal especializado em saúde Bhekisisa.
Esse cenário faz com que os profissionais de saúde precisem lidar com desafios diferentes daqueles enfrentados nas primeiras décadas da epidemia.
Envelhecimento pode ocorrer de forma acelerada
As novas diretrizes alertam que pessoas vivendo com HIV apresentam maior risco de desenvolver complicações relacionadas ao envelhecimento.
Segundo os especialistas, o HIV pode favorecer um processo de envelhecimento “acelerado” ou “prematuro”. Isso significa que doenças não transmissíveis, síndromes geriátricas e até o isolamento social podem surgir mais cedo quando comparados à população sem HIV.
Os pesquisadores atribuem esse fenômeno à combinação entre fatores tradicionais do envelhecimento, a inflamação crônica provocada pela infecção e os efeitos cumulativos da terapia antirretroviral ao longo dos anos.
Outro desafio frequente é a polifarmácia — caracterizada pelo uso problemático de cinco ou mais medicamentos simultaneamente — situação comum entre idosos que convivem, além do HIV, com doenças como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares.
Saúde vai além da carga viral
Um dos principais diferenciais das novas recomendações é a adoção da estrutura de Cuidados Integrados para Idosos (ICOPE), desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A proposta é que as consultas avaliem regularmente aspectos que influenciam diretamente a qualidade de vida, como: capacidade de locomoção; vitalidade; visão; audição; cognição; bem-estar psicológico.
A ideia é ampliar o conceito de sucesso do tratamento, substituindo a preocupação exclusiva com a carga viral por uma avaliação mais abrangente da saúde e da autonomia do paciente.
Tratamento antirretroviral continua sendo prioridade
Apesar da mudança de enfoque, o manejo adequado do HIV permanece como um dos pilares das diretrizes. O documento recomenda que o esquema antirretroviral seja individualizado, considerando doenças associadas ao envelhecimento e fatores de risco específicos de cada paciente.
Um exemplo citado pelos autores é o fumarato de tenofovir disoproxil (TDF), medicamento contraindicado para pessoas com elevado risco de fraturas, osteoporose ou insuficiência renal. Nesses casos, a recomendação é priorizar esquemas contendo tenofovir alafenamida (TAF), considerado mais seguro para esses pacientes.
As diretrizes também orientam o monitoramento contínuo de possíveis efeitos adversos dos antirretrovirais e de interações medicamentosas, incluindo avaliação periódica do peso, da função renal e da saúde mental.
Atenção às desigualdades sociais
Elaborado por 12 especialistas de instituições como a Universidade da Cidade do Cabo e a Universidade de Witwatersrand, o documento foi pensado principalmente para países de baixa e média renda.
Os autores destacam que, nesses contextos, fatores como pobreza, dificuldades de deslocamento e limitações de acesso aos serviços de saúde influenciam diretamente a qualidade do cuidado prestado às pessoas idosas vivendo com HIV.
Por isso, defendem uma abordagem centrada no paciente e adaptada à realidade local.
Cuidado multidisciplinar
As recomendações incentivam profissionais de saúde a conversarem abertamente sobre envelhecimento com seus pacientes, ajudando-os a identificar prioridades de cuidado, limitações funcionais e necessidades futuras.
Além disso, orientam médicos e equipes multiprofissionais a conhecerem ferramentas de triagem geriátrica e os serviços disponíveis para idosos em suas regiões.
Outra estratégia defendida é simplificar o acesso aos serviços de saúde, reduzindo o número de encaminhamentos e, sempre que possível, alinhando diferentes consultas em uma única visita. Segundo os autores, essa organização pode melhorar tanto a adesão ao tratamento quanto a satisfação dos pacientes.
O documento também destaca a importância da redistribuição de tarefas entre diferentes categorias profissionais, especialmente em locais com poucos recursos.
Um exemplo citado é o modelo “Banco da Amizade”, iniciativa comunitária de apoio em saúde mental conduzida por pares. Da mesma forma, atividades como triagem, elaboração de planos de cuidado e acompanhamento podem ser compartilhadas entre médicos, enfermeiros e outros profissionais.
Nutricionistas, assistentes sociais e equipes multiprofissionais também são apontados como peças fundamentais para oferecer um cuidado mais completo e otimizar os recursos disponíveis.
Triagem periódica e prevenção de doenças
As diretrizes estabelecem um cronograma mínimo de acompanhamento para pessoas idosas vivendo com HIV.
Em todas as consultas, recomenda-se avaliar medicações em uso, cognição, visão, audição, fragilidade e possíveis riscos relacionados à polifarmácia.
As consultas semestrais devem incluir avaliações da função renal, qualidade do sono e rastreamento para infecções sexualmente transmissíveis.
Já os acompanhamentos anuais devem contemplar suporte social, fragilidade, perfil lipídico e outros fatores associados ao envelhecimento.
O documento também reforça medidas para prevenção e controle de doenças não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares. Entre as recomendações está o cálculo periódico do risco cardiovascular e intervenções semelhantes às adotadas para a população em geral.
Os autores observam, entretanto, que as diretrizes não recomendam o uso precoce de estatinas em pessoas vivendo com HIV, estratégia já adotada em diversos países de alta renda.
As novas diretrizes africanas propõem uma abordagem mais abrangente, baseada na promoção da saúde, na funcionalidade, na qualidade de vida e na realidade dos países de baixa e média renda.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações



