Elas estão ali, no fluxo intenso de pessoas que entram e saem das estações do metrô de São Paulo. Discretas, tecnológicas e silenciosas, as máquinas automáticas de retirada de PrEP e PEP simbolizam uma mudança profunda na forma como a maior cidade do país pensa, organiza e oferece prevenção ao HIV. Em uma metrópole que completa 472 anos em 2026, esses equipamentos representam mais do que inovação: são parte de uma estratégia que desloca o cuidado para onde a vida acontece.
Esta é a terceira reportagem da série especial que investiga a resposta de São Paulo ao HIV e à aids. Depois de analisar os dados epidemiológicos e os impactos territoriais da epidemia, o olhar agora se volta para uma política pública que conecta tecnologia, acesso e prevenção combinada — e que já apresenta resultados concretos.
Prevenção no caminho de casa
Em dezembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo inaugurou, em parceria com o Metrô, a quinta máquina automática para retirada de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP). O equipamento foi instalado na estação Brás, da Linha 3-Vermelha — uma das mais movimentadas da cidade, ponto de conexão entre trens metropolitanos, metrô e ônibus.
A escolha do local não é aleatória. O Brás concentra diariamente milhares de pessoas vindas de diferentes regiões da cidade e da Grande São Paulo. Trabalhadores, estudantes, migrantes, pessoas em situação de vulnerabilidade social. Levar a prevenção ao HIV para esse território é uma decisão política que reconhece o papel do espaço urbano na produção — ou na redução — das desigualdades em saúde.
Com a nova unidade, São Paulo passou a contar com cinco máquinas automáticas espalhadas pelo sistema metroviário. Além da estação Brás, os equipamentos estão localizados nas estações Luz, Vila Sônia, Consolação e Santana do metrô de São Paulo, distribuídas em diferentes regiões da cidade para ampliar o alcance da estratégia. Todas funcionam de forma integrada ao SPrEP, serviço digital que permite a realização de teleconsulta pelo aplicativo e-saúdeSP, emissão de receituário e liberação do acesso ao medicamento.
Como funciona o acesso

O modelo combina tecnologia digital e logística urbana. Antes de iniciar o uso da PrEP, é obrigatório que o usuário realize o teste de HIV, garantindo que a profilaxia seja utilizada de forma segura e adequada. A partir da testagem e da avaliação clínica, a pessoa recebe a prescrição médica e segue para as etapas de acompanhamento previstas no SUS. A pessoa interessada em PrEP ou PEP realiza uma consulta por meio do SPrEP, recebe a prescrição médica e, a partir de um QR Code, pode retirar a medicação diretamente na máquina automática — localizada em estações estratégicas do metrô.
O processo dispensa filas, reduz barreiras burocráticas e amplia o acesso fora do horário tradicional das unidades de saúde. Em uma cidade onde o tempo é um recurso escasso, especialmente para quem vive longe dos serviços especializados, essa mudança é decisiva.
Desde o início da operação das máquinas, em junho de 2024, já foram registradas cerca de 7.500 retiradas de PrEP e PEP. O número indica adesão significativa da população e confirma que a descentralização do acesso responde a uma demanda real.
Tecnologia que acompanha os dados
A expansão das máquinas automáticas ocorre em paralelo a um cenário epidemiológico positivo. Segundo o mais recente Boletim Epidemiológico de HIV/aids da Coordenadoria de IST/Aids, São Paulo completou oito anos consecutivos de queda nas novas infecções por HIV. Desde 2016, a redução acumulada é de 53%.
Entre jovens de 15 a 24 anos, grupo historicamente mais impactado pela epidemia, a queda chegou a 59% apenas em 2024. Especialistas apontam que esse resultado não pode ser atribuído a uma única ação, mas à consolidação da prevenção combinada — que envolve testagem, tratamento como prevenção, PrEP, PEP, preservativos, educação em saúde e enfrentamento do estigma.
Nesse contexto, as máquinas no metrô não são um elemento isolado, mas parte de uma engrenagem maior que busca adaptar o SUS à dinâmica da vida urbana contemporânea.
Mais acesso as profilaxias
Os números mais recentes confirmam a expansão do acesso. Entre janeiro e outubro de 2025, a capital paulista registrou 18.500 novos cadastros para PrEP — um aumento de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior. Com isso, São Paulo ultrapassou a marca de 75 mil pessoas cadastradas para uso da profilaxia.
A PEP também apresentou crescimento expressivo. No mesmo período, foram registradas 24.424 dispensações, representando aumento de 17% em comparação a 2024. O dado reforça a importância de estratégias que garantam acesso rápido após situações de possível exposição ao HIV.
Prevenção que enfrenta o estigma
Outro aspecto central das máquinas automáticas é a redução do estigma. Retirar PrEP ou PEP em uma estação de metrô, de forma rápida e discreta, pode representar menos exposição do que buscar o medicamento em um serviço especializado — especialmente para populações que historicamente enfrentam discriminação.
Homens que fazem sexo com homens, pessoas negras, jovens, trabalhadores informais, pessoas trans e migrantes estão entre os grupos que mais se beneficiam de modelos que respeitam o anonimato, a autonomia e o tempo de cada um.
Ao mesmo tempo, a presença das máquinas em espaços públicos ajuda a normalizar a prevenção ao HIV, tirando-a do campo do tabu e aproximando-a do cotidiano.
O metrô como território de saúde
Transformar estações de metrô em pontos de acesso à prevenção é reconhecer que saúde pública também se faz fora das paredes dos serviços tradicionais. O metrô, que diariamente conecta milhões de pessoas, passa a funcionar como um território estratégico de cuidado.
Essa lógica dialoga com outras iniciativas da cidade, como ações extramuros, unidades itinerantes, testagem em grandes eventos e serviços digitais. Todas partem do mesmo princípio: é o sistema de saúde que deve se adaptar à vida das pessoas — e não o contrário.
Uma iniciativa inédita no mundo

As máquinas automáticas de PrEP e PEP instaladas no metrô existem hoje apenas na cidade de São Paulo. A iniciativa é pioneira no Brasil e, até o momento, não há experiências semelhantes implementadas de forma sistemática em outros municípios, estados ou países.
Esse caráter inovador tem transformado a capital paulista em um verdadeiro laboratório urbano de prevenção ao HIV. Como essa estratégia existe exclusivamente em São Paulo, pessoas de diferentes estados e municípios brasileiros — e também de outros países — têm vindo à cidade para conhecer de perto o funcionamento das máquinas, entender o modelo de integração com o sistema de saúde e estudar possibilidades de adaptação da iniciativa a outros contextos, já que não há experiências semelhantes em funcionamento fora da capital paulista.
O interesse extrapola a gestão local. Pesquisadoras e lideranças da resposta ao HIV também visitaram as máquinas e acompanharam a iniciativa em setembro de 2024, conhecendo de perto o funcionamento da estratégia no metrô paulistano.
Entre elas estão a dra. Valdiléa Veloso, pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), referência em HIV e prevenção combinada, e a dra. Beatriz Grinsztejn, presidenta da International Aids Society (IAS), uma das principais organizações globais no enfrentamento da epidemia.
Em entrevista à Agência Aids, ambas destacaram o caráter inovador da estratégia paulistana, o potencial de ampliação do acesso à PrEP e à PEP em grandes centros urbanos e a importância de soluções que dialoguem com o cotidiano das pessoas.
Para a infectologista Beatriz Grinsztejn, São Paulo oferece hoje um exemplo concreto de como a inovação pode ampliar o acesso à prevenção. “A gente tem muito o que aprender com São Paulo. As ações de dispensação de PrEP são espetaculares, são criativas”, afirmou. Segundo ela, o impacto da iniciativa vai além da tecnologia em si. “Não é a máquina sozinha — a máquina é sensacional — mas é o conjunto das ações, ações sistêmicas que realmente têm impacto, trabalhando estigma e discriminação, porque cada uma delas visa aumentar o acesso e tirar barreiras”, avaliou.
A pesquisadora Valdiléa Veloso, também ressaltou o alcance da política paulistana. “É fantástico o trabalho de cidadania da Coordenadoria de Aids, com atendimento muito diverso às necessidades diferentes das populações vulnerabilizadas. Estou bastante impressionada com a estrutura, com a dedicação da equipe, com o entusiasmo e com a efetividade das ações”, afirmou. Para ela, os resultados observados colocam São Paulo em um patamar avançado no enfrentamento da epidemia, com impacto direto na redução das novas infecções por HIV.
Para especialistas, o fato de a prevenção estar inserida em um espaço de circulação massiva, como o metrô, reforça a ideia de que o enfrentamento do HIV precisa ocupar a cidade — e não permanecer restrito aos serviços de saúde.
Nos trilhos do metrô, entre uma estação e outra, a prevenção ao HIV ganha novo sentido. Mais acessível, mais próxima e mais conectada à vida real de quem faz a cidade acontecer todos os dias.
Redação da Agência de Notícias da Aids




