A emoção tomou conta do encerramento do X Encontro Estadual do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas (MNCP-SP), em São Paulo. A última dinâmica foi conduzida pela ativista Nair Brito, uma das fundadoras do movimento e a primeira mulher no Brasil a conquistar na Justiça o direito ao tratamento para HIV/aids no Sistema Único de Saúde antes da lei que garantiu o acesso universal aos medicamentos.
Com mais de quatro décadas de militância, Nair fez uma fala marcada por memória, indignação e esperança — e convocou as participantes a manter viva a luta por direitos. “Cada uma de nós aqui tem que ter o seu nome registrado na história, porque nós somos a resistência”, afirmou. “Vocês estão aqui construindo uma história que transforma a história que mata, que machuca e que exclui.”
Para ela, o encontro representava mais do que um espaço de debate: era a continuidade de uma trajetória coletiva construída por mulheres que enfrentaram o estigma, o abandono institucional e o medo da morte desde o início da epidemia.
“Vocês não são qualquer uma. Vocês sobreviveram ao preconceito, à discriminação e ao medo”, disse. “Estamos construindo a história das mulheres no movimento de aids.”
Ativismo em cena

Para provocar reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da luta contra o HIV, Nair propôs uma dinâmica de teatro espontâneo. As participantes foram divididas em três grupos para encenar diferentes momentos da experiência de viver com HIV: o diagnóstico, a vida após a descoberta e os desafios do ativismo hoje.
A primeira cena abordou o momento do diagnóstico e expôs situações de estigma e despreparo ainda presentes em serviços de saúde. Durante a encenação, surgiram relatos sobre perguntas invasivas, julgamentos morais e falhas no acolhimento inicial.
As próprias participantes interromperam a cena para comentar experiências semelhantes vividas na vida real, especialmente sobre o papel da recepção nos serviços.
“A porta de entrada decide se você vai continuar o tratamento ou desistir. Se você já é recebida com descaso, isso responde como vai ser o resto do atendimento”, disse Fabiana Oliveira.
Outra participante destacou que muitas vezes a capacitação dos profissionais de saúde não alcança todos os trabalhadores do serviço.
“Falam muito de educação continuada para médicos e assistentes sociais, mas esquecem da recepção. E é ali que muitas pessoas são desrespeitadas e acabam não voltando.”
Redes de apoio e mobilização
A segunda encenação mostrou a vida após o diagnóstico e a importância das redes de apoio entre mulheres vivendo com HIV. Na cena, participantes compartilharam informações sobre direitos, serviços de saúde, denúncias de maus atendimentos e apoio psicológico.
O momento também revelou uma preocupação recorrente entre as ativistas: a dificuldade de mobilizar novas mulheres para o movimento.
Segundo relatos, muitas procuram organizações apenas em momentos de necessidade imediata, como acesso a cestas básicas ou apoio emergencial, sem se envolver na luta coletiva.
“Escutamos muito que já temos nossos direitos garantidos e que não precisamos lutar mais”, comentou uma participante. “Mas se a gente parar, esses direitos podem desaparecer.”
O futuro da luta

Ao retomar a palavra, Nair fez um alerta sobre os riscos de enfraquecimento da resposta ao HIV no país e reforçou a necessidade de formar novas ativistas. “Estamos vivendo um desmonte”, disse. “Se a gente não gritar nas nossas bases, o que vai acontecer com as mulheres que estão se infectando hoje?”
Ela também lembrou conquistas históricas do movimento, como a luta judicial que ajudou a garantir o acesso aos medicamentos no Brasil na década de 1990. “Disseram que a gente ia morrer. Disseram que a gente não servia para nada. E nós estamos aqui, depois de 40 anos de luta.”
Para a ativista, a continuidade do movimento depende da capacidade de cada mulher levar adiante essa história. “Cada uma de vocês pode plantar uma semente quando voltar para casa.”
“Transformamos dor em resistência”
Encerrando o encontro, Nair deixou uma mensagem de fortalecimento coletivo às participantes. “A aids foi uma bomba que jogaram em cima da gente. Mas nós pegamos essa dor e transformamos em resistência, em amor e em política.”
Ela reforçou que a luta das mulheres vivendo com HIV é também uma luta por dignidade e reconhecimento. “Disseram que você não tinha valor. Mas você é um ser humano com direitos. E nós somos maiores que o HIV.”
Entre aplausos e lágrimas, ficou no ar a sensação de que a história do movimento segue sendo escrita coletivamente. Para Nair Brito, os 40 anos de resposta ao HIV no Brasil só foram possíveis porque pessoas vivendo com o vírus decidiram transformar dor em mobilização. Agora, segundo ela, o desafio é garantir que novas vozes assumam essa luta. “A gente chegou até aqui porque muita gente não desistiu. E a nossa responsabilidade agora é continuar — e trazer outras mulheres para caminhar junto.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
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