Noruega x Inglaterra: duelo por vaga na semifinal coloca frente a frente dois países que avançam na resposta ao HIV

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Noruega e Inglaterra se enfrentam neste sábado (11), às 18h, pelo horário de Brasília, em busca de uma vaga na semifinal da Copa do Mundo de 2026. A partida será disputada em Miami, nos Estados Unidos, e, em caso de empate no tempo regulamentar, haverá prorrogação e, se necessário, disputa por pênaltis. A seleção classificada enfrentará Argentina ou Suíça na próxima fase.

Enquanto as duas equipes medem forças dentro de campo, fora dos gramados Noruega e Inglaterra também chamam atenção pelos avanços alcançados na resposta ao HIV. Os dois países estão entre os mais próximos de controlar a epidemia, embora ainda enfrentem desigualdades, barreiras de acesso à prevenção, estigma e desafios relacionados às populações mais vulneráveis.

De um lado, a Noruega mantém uma das menores prevalências de HIV da Europa e um dos maiores índices de conhecimento do diagnóstico. Do outro, a Inglaterra se aproxima da meta de eliminar novas transmissões do vírus como problema de saúde pública.

Noruega registra menos de 350 diagnósticos por ano

Com uma população de aproximadamente 5,6 milhões de habitantes, a Noruega tem cerca de 5.400 pessoas vivendo com HIV. Desse total, 96,5% conhecem o diagnóstico, índice considerado um dos mais elevados da Europa.

O dado oficial mais recente aponta 332 novos diagnósticos em 2023. Embora o número seja superior ao registrado em alguns países vizinhos, como Dinamarca e Suécia, a incidência permanece relativamente baixa em comparação com a população norueguesa. Homens que fazem sexo com homens representam cerca de 45% dos novos casos.

Os imigrantes, por sua vez, respondem por aproximadamente dois terços dos diagnósticos registrados na última década. Grande parte dessas pessoas veio de regiões afetadas por conflitos e por maior circulação do vírus, especialmente na África Central, África Oriental e no Sudeste Asiático.

A transmissão heterossexual ocorrida dentro do território norueguês continua sendo considerada relativamente rara. Os casos associados ao uso de drogas injetáveis também permanecem em níveis baixos.

Os números refletem uma política pública baseada em testagem, diagnóstico precoce, tratamento antirretroviral e acompanhamento contínuo das pessoas que vivem com HIV.

Oslo aderiu à meta de acabar com a aids como ameaça à saúde pública

Em 2022, Oslo tornou-se a segunda capital nórdica a integrar a iniciativa Fast-Track Cities, apoiada pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids.

Ao aderir à Declaração de Paris, a cidade passou a fazer parte de uma rede internacional formada por centenas de municípios comprometidos em acelerar ações locais para alcançar a meta de eliminar a aids como ameaça à saúde pública até 2030.

A estratégia envolve a ampliação da testagem, o fortalecimento do acesso à prevenção e ao tratamento, a redução dos diagnósticos tardios e o enfrentamento do estigma e da discriminação.

A participação de Oslo na iniciativa também reforça a importância das cidades no combate à epidemia. É nos territórios urbanos que se concentram os serviços de saúde, as populações mais vulneráveis e grande parte das novas infecções.

“Paciente de Oslo” entrou em remissão após transplante

No início de 2026, a Noruega ganhou destaque internacional após a divulgação do caso conhecido como “paciente de Oslo”.

Vivendo com HIV desde 2006, um homem de 63 anos entrou em remissão do vírus após receber um transplante de medula óssea para o tratamento de um câncer hematológico.

O procedimento utilizou células de um doador portador de uma mutação genética no receptor CCR5, que pode impedir determinadas variantes do HIV de entrar nas células do sistema imunológico.

O caso foi descrito em um estudo publicado na revista científica *Nature Microbiology* e passou a integrar o grupo extremamente reduzido de pessoas consideradas curadas ou potencialmente curadas do HIV.

Apesar do impacto científico, especialistas ressaltam que o transplante de medula óssea não pode ser utilizado como tratamento para a população geral que vive com HIV.

O procedimento envolve riscos elevados, é indicado apenas em situações específicas de doenças graves, como determinados tipos de câncer, e pode provocar complicações potencialmente fatais.

Ainda assim, esses casos ajudam os pesquisadores a compreender os mecanismos de persistência do vírus no organismo e podem contribuir para o desenvolvimento de futuras estratégias de cura.

Inglaterra está mais perto de controlar a epidemia

Se dentro de campo a seleção inglesa ainda carrega o peso da conquista da Copa do Mundo de 1966, fora dele o país comemora resultados que, há algumas décadas, pareciam impossíveis.

Em maio deste ano, o governo britânico divulgou um novo balanço de sua estratégia nacional de enfrentamento ao HIV. Os números colocam a Inglaterra entre os países mais avançados do mundo na resposta à epidemia.

Atualmente, 95% das pessoas que vivem com HIV conhecem o diagnóstico. Entre elas, 95% recebem tratamento antirretroviral e 98% alcançaram supressão viral.

A supressão viral ocorre quando a quantidade de vírus no sangue é reduzida a níveis indetectáveis pelos exames. Nessa condição, a pessoa não transmite o HIV por via sexual, princípio conhecido pela expressão Indetectável=Intransmissível, ou I=I.

Os resultados colocam a Inglaterra dentro das metas globais estabelecidas pelo Unaids e mostram uma mudança profunda no cenário da epidemia.

O primeiro caso de HIV foi registrado no território inglês em 1981, em um período marcado pelo medo, pela desinformação, pela ausência de tratamento e pelo preconceito contra as populações mais afetadas.

Mais de quatro décadas depois, os novos diagnósticos caíram pela metade em relação a 2010. As mortes relacionadas à aids diminuíram quase 60%.

Agora, o governo trabalha com uma meta ainda mais ambiciosa: reduzir em 80% tanto as novas infecções quanto os óbitos relacionados ao HIV até o final da década.

Desigualdades ainda dificultam o fim da epidemia

Os avanços ingleses, entretanto, não significam que a epidemia esteja superada. O balanço do governo mostra que as desigualdades sociais, raciais e territoriais continuam sendo um dos principais obstáculos para o fim das novas transmissões.

Enquanto os diagnósticos diminuíram entre homens gays e bissexuais brancos, os casos cresceram 15% entre homens gays e bissexuais negros.

As diferenças também aparecem no acesso à profilaxia pré-exposição, a PrEP, estratégia que utiliza medicamentos antirretrovirais para prevenir a infecção pelo HIV.

A adesão à PrEP entre homens gays e bissexuais brancos se aproxima de 80%. Entre mulheres negras, a cobertura é inferior à metade desse percentual. Entre homens heterossexuais negros, o acesso também permanece significativamente menor.

Além disso, duas em cada cinco pessoas ainda recebem o diagnóstico em estágio tardio, quando o sistema imunológico já pode estar comprometido.

O diagnóstico tardio aumenta o risco de adoecimento, dificulta a recuperação da imunidade e amplia a possibilidade de transmissão antes do início do tratamento.

Os dados mostram que a Inglaterra deixou de enfrentar apenas um problema de disponibilidade de medicamentos. O principal desafio agora é garantir que os benefícios da prevenção, da testagem e do tratamento cheguem de maneira igualitária a todas as populações.

Investimento bilionário para eliminar novas transmissões

Determinado a alcançar o objetivo de eliminar a transmissão sustentada do HIV, o governo britânico anunciou um investimento adicional de 170 milhões de libras, valor superior a R$ 1,2 bilhão.

Os recursos serão destinados à ampliação da testagem em serviços de emergência e prontos-socorros, ao aumento da oferta de PrEP, à realização de campanhas nacionais de prevenção e ao combate ao estigma.

O plano também prevê ações para localizar e reconectar aos serviços de saúde pessoas que interromperam o acompanhamento ou deixaram de utilizar os medicamentos antirretrovirais.

A ampliação da testagem em unidades de emergência é considerada uma das principais estratégias do programa. A medida permite identificar pessoas que procuram os hospitais por outros motivos, mas que nunca realizaram um teste de HIV ou vivem com o vírus sem saber.

A expectativa é transformar a Inglaterra em um dos primeiros países do mundo a eliminar a transmissão sustentada do HIV como problema de saúde pública.

Dois países, uma meta comum

Quando a bola rolar em Miami, apenas uma das seleções seguirá para a semifinal da Copa do Mundo. Na resposta ao HIV, porém, não há espaço para um único vencedor. O controle da epidemia depende de políticas públicas contínuas, investimento em ciência, acesso universal à prevenção e ao tratamento, combate ao estigma e defesa dos direitos humanos.

Os avanços de Noruega e Inglaterra mostram que o fim da aids como ameaça à saúde pública deixou de ser apenas uma promessa distante. Mas também revelam que atingir essa meta exigirá alcançar justamente as pessoas que ainda permanecem à margem dos serviços, das tecnologias de prevenção e dos benefícios produzidos pela ciência.

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