O futuro da prevenção combinada foi o eixo da fala do infectologista Ricardo Vasconcelos, do Hospital das Clínicas da USP, durante o XVII Seminário de Pesquisas em IST/Aids, promovido nesta sexta-feira pela Coordenadoria de IST/HIV da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo. Com a energia de quem acompanha de perto as transformações da ciência, ele trouxe um panorama das novas tecnologias que estão a caminho — e os desafios éticos, clínicos e comunitários que acompanham cada inovação.
Logo no início, Dr. Ricardo foi direto: “O que a gente tem hoje não é suficiente. A gente precisa de mais coisas.”
A fala ecoou após a apresentação da Dra. Beatriz Grinsztejn, que havia discutido as potenciais combinações preventivas. Ele reforçou: o Brasil sempre foi um país pioneiro em implementar novas estratégias graças ao compromisso histórico do Sistema Único de Saúde. Mas a epidemia muda, as necessidades mudam — e é preciso acompanhar o ritmo.
Primeira geração de PrEP injetável e a chegada de um novo comprimido de longa duração
O infectologista explicou que estamos diante da “primeira geração” de antirretrovirais injetáveis para prevenção. E, ao mesmo tempo, novos agentes orais de longa ação estão emergindo como promessas importantes.
Entre eles, destacou o MK-8527, um comprimido de longa ação cuja fase de ensaio clínico começa em dezembro. O nome ainda é provisório, mas a expectativa é grande. “É um agente antiviral. Se tudo der certo, teremos a possibilidade de uma modulação diferente da prevenção, com comprimidos de uso muito menos frequente”, explicou.
Ele ilustrou, imaginando um cenário ideal: “Começo a tomar no dia 24 de novembro e só volto a tomar no dia 24 de dezembro”. A plateia acompanhou com surpresa — e esperança.
ISTs bacterianas: o grande ponto cego da prevenção
A transição para o tema das Infecções Sexualmente Transmissíveis bacterianas foi marcada por uma constatação contundente: “A gente acreditou, por décadas, que só com preservativo resolveria. Mas não resolveu.”
Dr. Ricardo lembrou que o preservativo continua fundamental, “ótimo para quem usa, desde que seja consistente”, mas não dá conta sozinho da dinâmica atual das ISTs.
Dados apresentados mostraram que, entre mais de 100 mil brasileiros acima de 18 anos entrevistados, 59% das pessoas que tiveram IST bacteriana no último ano não utilizaram nenhuma forma de proteção. Um problema estrutural, não individual.
DoxyPrEP e DoxyPEP: da história militar ao presente da prevenção
A intervenção do médico retomou uma linha histórica que surpreende: o uso profilático de antibióticos para ISTs não é novo. Durante a Guerra do Vietnã, soldados americanos recebiam tetraciclina diariamente para evitar sífilis e gonorreia. Funcionou… até surgir resistência.
A partir dessa memória, novas estratégias reapareceram com a doxiciclina — antibiótico já usado há décadas, inclusive no Brasil, para doenças como leptospirose e infecções respiratórias.
Os estudos mais recentes demonstram reduções impressionantes, chegando perto de 90% de redução de sífilis em determinados grupos, como homens gays e mulheres trans. Mas há limites. “Para mulheres cis nos estudos africanos, não houve proteção. E por quê? Porque não tomavam a medicação. Adesão é chave.” O desafio, segundo o especialista, não é só clínico: é social, é comportamental.
Dr. Ricardo não fugiu do tema mais delicado: resistência antimicrobiana. “A gente passa a vida inteira ouvindo que antibiótico não é para tomar à toa — e isso é verdade.” Ele detalhou, de forma acessível, o que já se sabe:
* Gonorreia já apresenta resistência alta em vários lugares do mundo, inclusive ao que não tem relação com DoxyPEP.
* Clamídia não apresentou resistência associada à doxiciclina.
* Sífilis tem monitoramentos em curso, mas até agora não há mutações associadas ao uso dessa estratégia.
E questionou: “Será que se a gente usar para mais gente, por mais tempo, aquilo que ainda não apareceu pode aparecer?” Uma pergunta que segue sem resposta — e que precisa de ciência, não de especulação. Por isso, estudos são imprescindíveis.
O médico contou que Estados e municípios dos EUA já implementam DoxyPEP em larga escala. A cidade de São Francisco observou queda expressiva na incidência de ISTs bacterianas após um ano de uso. Ainda assim, Dr. Ricardo é cauteloso. “Eles começaram a usar e estão monitorando. Nós precisamos estudar.”
E é exatamente isso que o Brasil está prestes a fazer.

Projeto DoxiPEP-SP: uma virada na prevenção de ISTs bacterianas
O grande anúncio da manhã foi a apresentação do Projeto DoxiPEP-SP, que está “na base de lançamento”, prestes a começar no município de São Paulo. O estudo acompanhará principalmente homens cisgêneros e mulheres trans com histórico recente de IST, oferecendo doxiciclina pós-exposição como estratégia de prevenção.
O protocolo inclui:
* Testagem periódica para sífilis, HIV e outras ISTs.
* PCR orofaríngeo, retal, uretral e vaginal, conforme identidade de gênero.
* Questionários autoaplicados no celular.
* Análises genéticas para rastrear resistência bacteriana.
* Monitoramento de padrões de uso — quem usará mais, quem usará menos, e o que isso significa para a eficácia real.
“Quando temos dúvidas, fazemos estudos. É assim que a ciência avança.” O infectologista encerrou sob aplausos, reforçando o compromisso ético da pesquisa brasileira em responder perguntas difíceis sem abandonar inovações que podem salvar vidas.
No horizonte da prevenção combinada contra o HIV, aquilo que parecia distante já está chegando. E São Paulo — como tantas vezes na história — se prepara para estar na vanguarda.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Ricardo Vasconcelos
Instagram: @ricovasconcelos




