No Dia Mundial de Luta contra a Aids, CineSesc reúne arte, memória e ativismo em sessão especial

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O Dia Mundial de Luta contra a Aids foi celebrado com casa cheia no CineSesc, em São Paulo, na noite de 1º de dezembro. Como parte do Projeto Contato — iniciativa do Sesc São Paulo que conecta arte, saúde sexual e enfrentamento ao estigma — o público assistiu ao curta Longevidade Posithiva, do diretor Victor Bebiano, seguido do longa francês As Testemunhas (2007), de André Téchiné. A proposta foi refletir, por meio do cinema, sobre quatro décadas de narrativas relacionadas ao HIV, das primeiras imagens produzidas nos anos 1980 às histórias atuais sobre envelhecimento e resistência.

O evento reuniu representantes de ONGs, pessoas vivendo com HIV, ativistas e público geral. Integrantes do Instituto Vida Nova, do extremo leste da capital, e do Projeto Bem-Me-Quer, de Perus, lotaram a sala. Antes da sessão, houve uma fala de abertura com a diretora da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli, o ativista Américo Nunes, presidente do Vida Nova, Dayana Dias Carneiro, coordenadora do Bem-Me-Quer e Victor Bebiano, que destacaram a importância da arte, da prevenção e da memória como ferramentas de transformação social.

Cinema como ferramenta de ativismo

O diálogo entre passado e presente guiou toda a programação. Situado em 1984, As Testemunhas retrata o início da epidemia de aids na França, período marcado pela desinformação, pelo medo e pela ausência de políticas de cuidado. Já Longevidade Posithiva desloca o olhar para 2024: pessoas idosas vivendo com HIV, muitas delas invisibilizadas pelo imaginário social, reivindicam espaço, autonomia e novas narrativas.

Para o diretor Victor Bebiano, trabalhar com audiovisual é uma forma direta de disputar sentidos sobre o HIV. “O audiovisual é a maior arma contra o estigma e o preconceito. É através dele que a gente chega em milhares de pessoas. O cinema é a minha forma de ativismo”, afirmou.

Bebiano lembrou ainda da pesquisa que deu origem ao curta: quando perguntadas sobre a idade das pessoas que vivem com HIV, a maioria das pessoas entrevistadas dizia não imaginar que ultrapassassem os 50 anos. “A pessoa idosa vivendo com HIV não existe no imaginário da maior parte da população. E elas existem, vivem, produzem e merecem todo o acolhimento e atenção”,completou.

Memória, luta e reconhecimento

A diretora da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli, emocionou o público ao recordar a trajetória do Projeto Contato e os mais de 30 anos de ações culturais desenvolvidas em parceria com o Sesc. Ela rememorou o impacto da epidemia nos anos 1990, a perda de seu irmão e a criação de espaços de acolhimento e expressão artística.

Roseli destacou que o festival tem sido essencial para “transformar dor em trabalho e trabalho em resistência”. Ela também relembrou iniciativas históricas realizadas ao longo das décadas, como exposições, festivais de memória e o desfile protagonizado por quatro mulheres vivendo com HIV, usando roupas confeccionadas com preservativos pela artista Adriana Bertini. “Mostrar os corpos dessas mulheres no espaço público é um gesto político. A arte transforma vidas”, disse.

Roseli ressaltou ainda o papel das equipes do Sesc, das ONGs parceiras e dos trabalhadores que atuam cotidianamente na prevenção e no enfrentamento ao estigma. “Vocês resistem enfrentando preconceito, cara feia, discriminação. Existe amor no trabalho que cada um faz”, afirmou.

A força das periferias e o compromisso comunitário

Representando o Projeto Bem-Me-Quer, Dayana Dias Carneiro destacou o papel da organização, que há quase três décadas atua com prevenção e cuidado no extremo noroeste da cidade. Ela lembrou a origem do trabalho, iniciado em 1996 pela irmã Helena, período em que não havia tratamento eficaz e muitas pessoas eram abandonadas em casa.

“A missão que recebi foi simples e profunda: passar informação sobre aids. E seguimos fazendo isso todos os dias, lidando com pessoas em situação de vulnerabilidade social, que enfrentam uma soma de preconceitos e exclusões”, afirmou.

Dayana celebrou ainda a parceria com a Agência de Notícias da Aids e com o Sesc. “Trazer cultura para as periferias é fundamental. Estamos muito felizes por ocupar essa sala de cinema neste dia tão significativo”,disse.

Vida Nova: prevenção, ativismo e mobilização

O presidente do Instituto Vida Nova, Américo Nunes Neto, também celebrou o encontro. Ele lembrou da intensa mobilização feita pelo grupo no mesmo dia, com seis horas de caminhada por cinco bairros da zona leste, atingindo cerca de 5 a 6 mil pessoas com ações de prevenção. “Não fazemos nada sozinhos. Este trabalho só existe porque existe rede, parceria e compromisso”, disse.

Américo reforçou o papel central do SUS, das ONGs e das iniciativas culturais para garantir acesso à prevenção, tratamento e cidadania. “Viver com HIV é possível e deve ser digno, sem preconceito e com rede de apoio”, afirmou.

Uma noite para olhar o passado e afirmar o futuro

A gerente do CineSesc, Simone Yunes, abriu o evento agradecendo a presença do público e reforçando o compromisso do Sesc São Paulo com a promoção da saúde, da cultura e da luta contra a aids.

Ela destacou que o Projeto Contato chega aos 30 anos renovando o diálogo entre arte, prevenção e direitos, e convidou a plateia a assistir uma mensagem gravada pelo diretor regional do Sesc São Paulo, Luiz Galina, que ressaltou a importância da programação para ampliar debates sobre o HIV no estado.

O público também acompanhou um vídeo do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que parabenizou os 30 anos do Projeto Contato e reconheceu a atuação histórica do Sesc e da Agência de Notícias da Aids na mobilização social. Padilha reforçou o compromisso do Ministério da Saúde com o enfrentamento ao estigma e com a ampliação do acesso à prevenção e ao tratamento em todo o país.

Segundo o Sesc, a proposta da noite foi revisitar o passado sem perder de vista as urgências contemporâneas: o envelhecimento com HIV, as novas ferramentas de prevenção, o acesso ao tratamento e o combate ao estigma em todas as idades.

O encontro reforçou que o cinema segue sendo uma das linguagens mais potentes para contar histórias, provocar reflexão e aproximar o público das realidades das pessoas vivendo com HIV. Uma celebração de memória, mas também — e sobretudo — um chamado à continuidade da luta.

Redação da Agência de Notícias da Aids

 

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