O profissional explica como o envelhecimento, a inflamação crônica e interações medicamentosas tornam essencial o cuidado metabólico contínuo na rotina de quem vive com HIV.
O Dia Mundial d e combate ao Diabetes, criado em 14 de novembro, reforça a urgência de discutir uma condição que cresce junto com o próprio país. De acordo com o Censo 2022, o Brasil tem mais de 203 milhões de habitantes e, seguindo a estimativa do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), que aponta uma prevalência média de 10,2% nas capitais brasileiras, isso representa cerca de 20 milhões de pessoas vivendo com diabetes. A Federação Internacional de Diabetes (IDF) apresenta números semelhantes e estima prevalência de 10,5%, colocando o Brasil como o sexto país com mais pessoas com diabetes no mundo e o terceiro em casos de diabetes tipo 1.
A maior parte dos diagnósticos corresponde ao diabetes tipo 2, associado à obesidade, alimentação inadequada e sedentarismo. Já o tipo 1, que afeta aproximadamente 600 mil pessoas, está ligado à predisposição genética e exige uso contínuo de insulina. Essa realidade, que atravessa idades, contextos sociais e desigualdades, também se relaciona diretamente com a vida de quem vive com HIV/aids — um grupo que, graças aos avanços da terapia antirretroviral, envelhece mais e melhor, mas enfrenta desafios específicos no cuidado metabólico.
Envelhecimento e estilo de vida

Segundo o Dr. Hilton Alves Filho, médico infectologista pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e pós-graduado em sexologia com foco em saúde LGBTQIAPN+, HIV/aids e ISTs, o primeiro ponto para entender a relação entre HIV e diabetes é simples: pessoas vivendo com HIV hoje estão vivendo mais, muitas chegando à terceira idade com qualidade de vida. E isso muda tudo: “As pessoas que vivem com HIV estão envelhecendo. E o envelhecimento é um dos principais fatores de risco para a diabetes mellitus.”
Ele reforça, porém, que esse envelhecimento é resultado direto dos avanços da terapia: “A gente ultrapassou aquela questão do HIV ser uma sentença, da aids ser uma sentença de morte. As pessoas estão vivendo.”
E que, por isso, os cuidados precisam acompanhar essa nova realidade: “Então, por viver, a gente precisa cuidar da nossa saúde quando vai envelhecendo. Cuidar dos hábitos, alimentação, atividade física, tudo isso.”
O especialista também ressalta o impacto dos hábitos cotidianos: “O estilo de vida sedentária, a alimentação desequilibrada, a obesidade, a hipertensão e o aumento do colesterol, triglicerídeos, também estão associados ao aumento do risco de diabetes.”
Inflamação crônica, medicamentos e maior risco metabólico
O HIV indetectável representa controle, mas não remove completamente o impacto inflamatório da infecção crônica.
“Mesmo indetectável, ela ainda persiste como uma questão de aumentar o risco cardiovascular. Por quê? Ela causa inflamação no corpo.”, explica.
O médico também detalha que tratamentos mais antigos têm efeito metabólico conhecido: “As medicações mais antigas, como o AZT e os inibidores da protease também aumentam o risco de doenças metabólicas, como o diabetes. Então, a gente também tem que ter uma especial atenção a essas pessoas que se infectaram com HIV lá atrás, continuam vivas, bem, tomando seus remédios, mas tiveram exposição a drogas mais antigas.”
E acrescenta que, mesmo entre medicamentos modernos, alguns estudos já observam impacto semelhante: “Os inibidores da integrase também têm mostrado, nos últimos estudos, um aumento do risco de diabetes.”
Ao mesmo tempo, ele contextualiza: “Existe uma melhora da qualidade de vida associada também ao uso dessas medicações mais modernas. Então, pode facilitar também que as pessoas vivam mais, envelheçam e aumente o risco de ter diabetes.”
Diagnóstico: por que é mais complexo para quem vive com HIV

Dr. Hilton explica que exames usados para diagnosticar diabetes nem sempre são precisos em pessoas vivendo com HIV.
“A hemoglobina glicada é também alterada pela própria infecção do HIV e também pelo início da terapia antirretroviral. Por isso é importante os médicos que cuidam das pessoas que vivem com HIV/Aids serem sempre atualizados nas diretrizes e nos diagnósticos da diabetes nesses pacientes.”
Quando o diabetes aparece: tratamento e interações
Sobre tratamento, o infectologista destaca que a principal atenção recai sobre interações medicamentosas: “A metformina [medicamento utilizado para o tratamento do diabetes tipo 2] tem interação com o dolutegravir, que faz parte do esquema básico de tratamento do HIV no Brasil. Então, a gente tem que usar uma dose menor do que nas outras pessoas.”
Ele também esclarece que, na maior parte dos casos, não é necessário alterar a terapia antirretroviral: “Geralmente a gente não muda o tratamento antirretroviral. A gente usa doses menores dos medicamentos parta diabetes ou associa outras medicações para tratamento.”
E reforça novamente a importância do cuidado integral: “Não adianta só tratar diabetes se a gente não pensar no controle da alimentação, no controle dos outros problemas que pode ter, como colesterol, triglicerídeos, a pressão, o peso…”
Sinais e sintomas: o que precisa acender o alerta
O médico lembra que a diabetes tipo 2 pode ser silenciosa, mas alguns sinais merecem atenção:
“Aumento do volume urinário, sede significativamente mais frequente, ou se a urina no vaso está ‘chamando’ formiga, ficando mais adocicada. Esses são alguns sinais mais perceptíveis.”
Ele também menciona mudanças físicas: “Se você está perdendo peso de uma forma repentina, sem querer, então é importante pensar que isso pode ser uma diabetes.”
E retoma a diferença entre os tipos: “Quanto mais jovem a pessoa diagnostica diabetes, mais provavelmente ela tem a diabetes mellitus do tipo 1. E quanto mais tarde se tem esse diagnóstico, mais provável é que seja diabetes mellitus do tipo 2.”
Prevenção e saúde integral

O infectologista chama a atenção também para os exames que devem ser feitos anualmente:
“Glicose de jejum, hemograma, exames de rim como a creatinina, os exames de colesterol total, HDL, LDL, fazer os triglicerídeos, e cuidar do fígado — fazer a triagem do TGO (Transaminase Glutâmica Oxalacética) e TGP (Transaminase Glutâmica Pirúvica ou ALT) [enzimas produzidas dentro das células do corpo, principalmente no fígado].”
Entre os fatores de risco modificáveis, o especialista finaliza sua fala reforçando hábitos essenciais:
“Evitar o consumo excessivo de bebida alcoólica, evitar o tabagismo, ter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente… São cuidados que diminuem não só o risco de diabetes, mas de diversos problemas de saúde.
As pessoas que vivem com HIV estão vivendo mais. Agora é preciso viver melhor.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Dr. Hilton Alves
Instagram: @drhiltonsaudelgbt



