No Dia Mundial da Luta Contra a Aids, AHF alerta para retrocessos na América Latina e afastamento da meta de 2030

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A aids ainda não acabou.

• Este 1º de dezembro marca o Dia Mundial da Aids

• Os novos diagnósticos de HIV caíram 40% em todo o mundo desde 2010, mas na

América Latina aumentaram 9%

• Sem informação, acesso à prevenção e tratamento oportuno, a meta de acabar com a

aids como ameaça à saúde pública até 2030 fica cada dia mais distante

Este 1º de dezembro marca o Dia Mundial da Aids, e os números mais recentes destacam um contraste que exige ação urgente: enquanto as novas transmissões de HIV caíram 40% em todo o mundo desde 2010, cresceram aumentaram 9% na América Latina no mesmo período, tornando a região uma das mais atrasadas na resposta global. Já se passaram 44 anos desde que os primeiros casos de aids foram relatados, mas a epidemia continua ativa, e as lacunas na prevenção, testagem e tratamento ainda são profundas.

De acordo com o último relatório do UNAIDS (Programa Conjunto da ONU sobre HIV e Aids), estima-se que 40,8 milhões de pessoas viviam com HIV em todo o mundo em 2024, das quais 1,3 milhão contraíram o vírus somente naquele ano. Embora as mortes relacionadas à aids tenham caído mais da metade na última década, cerca de 630 mil pessoas continuam perdendo a vida a cada ano por causas relacionadas ao HIV. Mais da metade de todas as pessoas que vivem com o vírus são mulheres e meninas, que também representam uma parcela significativa das novas infecções.

Na América Latina, o UNAIDS estima que 2,5 milhões de pessoas vivem com HIV, com aproximadamente 120 mil novas transmissões e 27 mil mortes relacionadas à aids em 2024. No Caribe, cerca de 340 mil pessoas vivem com o vírus, com 15 mil novas infecções e quase 4,8 mil mortes no mesmo período. Ao todo, cerca de 2,8 milhões de pessoas vivem com HIV na América Latina e no Caribe — uma das poucas regiões onde o progresso tem sido mais lento e as novas infecções não estão diminuindo no ritmo necessário para atingir a meta global de acabar com a aids até 2030.

Apesar do progresso alcançado nas últimas décadas, milhões de pessoas na região ainda enfrentam estigma, discriminação e desigualdade. Mulheres e meninas, pessoas LGBTQIAP+, profissionais do sexo, usuários de drogas e outras populações-chave enfrentam barreiras desproporcionais à prevenção, testagem e tratamento do HIV.

“O estigma continua sendo uma das maiores barreiras na resposta ao HIV na América Latina e no Caribe. Muitas pessoas ainda não sabem seu diagnóstico, e as desigualdades no acesso ao tratamento persistem”, disse a Dra. Patricia Campos, chefe do escritório da AHF para a América Latina e o Caribe. “Neste Dia Mundial da Aids, pedimos aos líderes que cumpram suas promessas: b. O HIV/AIDS não será erradicado até que todas as pessoas que vivem com HIV possam viver sem medo ou exclusão.”

No Brasil, a tendência observada nos últimos anos é de aumento nos casos de HIV, o que segundo o Ministério da Saúde demonstra uma melhora na capacidade de diagnóstico dos serviços de saúde. Além disso, o país teve em 2023 a menor taxa demortalidade por aids em dez anos (3,9 óbitos por 100 mil habitantes). Outro ponto positivo, de acordo com o governo federal, é a oferta gratuita, no Sistema Único de Saúde, de insumos de prevenção, como preservativos, lubrificantes, vacinas e, principalmente, a profilaxia pré-exposição (PrEP), que em 2024 viu o número de usuários dobrar, chegando a 109 mil.

Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil, comenta que o atual comportamento da epidemia de HIV/aids no Brasil mostra que o país precisa intensificar as políticas de prevenção, diagnóstico e tratamento entre os grupos mais vulneráveis, como homens homossexuais, bissexuais e que fazem sexo com outros homens, travestis e pessoas trans, profissionais do sexo, entre outros.

“Nos chama atenção especialmente os homens jovens, de 20 a 29 anos, pretos e pardos, e que fazem sexo com outros homens, pois são eles que concentram a maioria das novas infecções. É preciso garantir o financiamento das políticas públicas no SUS, melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/aids e combater o estigma e discriminação”, diz Beto de Jesus.

Alto custo de medicamentos é barreira

Os altos preços dos medicamentos continuam sendo uma grande barreira. Apesar das recentes inovações — como opções de prevenção e tratamento de longo prazo para o HIV, incluindo o Lenacapavir, que demonstrou altos níveis de proteção e pode prevenir a transmissão do HIV por até seis meses com uma única dose —, essas ferramentas ainda têm preços muito acima do alcance de muitos países de baixa e média renda, incluindo a maior parte da América Latina. Esta é uma das ferramentas de prevenção mais avançadas disponíveis atualmente, frequentemente descrita como a mais próxima que a saúde pública chegou de uma “vacina” contra o HIV, mas a inovação tem pouco impacto quando não é acessível a todos.

O Dia Mundial da Aids também destaca o papel essencial das comunidades: organizações de base, ativistas, pessoas que vivem com HIV e profissionais de saúde que sustentam a resposta ao HIV mesmo em meio a crises políticas, econômicas e sociais. Seu trabalho permitiu que milhões de pessoas recebessem informações precisas, ferramentas de prevenção, testes e tratamento oportuno.

Neste 1º de dezembro, a AHF realizará eventos comemorativos, campanhas de testes gratuitos de HIV e atividades culturais em mais de 45 países, unidos sob uma única mensagem: prevenir, viver e agir para fortalecer a resposta ao HIV. Neste Dia Mundial da Aids, a AHF lembra que só será possível falar em acabar com a epidemia quando todas as pessoas — independentemente de quem sejam ou onde vivam — tiverem acesso real à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e a uma vida livre de estigma.

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