No dia dos pais, ativistas prestam homenagens e revelam ensinamentos e recordações

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A ideia de comemorar o Dia dos Pais surgiu nos Estados Unidos, no ano de 1909, quando Sonora Louise Smart Dood, filha de um ex-combatente da Guerra Civil Americana, resolveu homenagear seu pai. Assim como no caso do Dia das Mães, a data foi pensada com o intuito de fortalecer os laços familiares. Desde a última quinta-feira, a Agência Aids publicou reportagens trazendo diferentes aspectos da paternidade. Normalmente, os ativistas que concedem entrevistas para esclarecer, elucidar ou mesmo comentar um fato são convidados a falar sobre questões ligadas às ações que desenvolvem em seu cotidiano, ou sobre a repercussão de algum fato relevante. Para marcar a passagem no dia da efeméride, perguntamos: “O que você gostaria de dizer a seu pai que você não falou? Se quiser, descreva ele um pouco de sua relação com ele.” A intenção foi para que falassem sobre suas formas de relacionamento com seu pai. Lá no passado, quando nos relacionamos ainda crianças, nem sempre tivemos a oportunidade de dizer o que e como sentimos determinada situação ou mesmo falar sobre a relação com nosso pai. Você acompanha o que nossos convidados e convidadas responderam sobre a questão e sua contribuição para a reflexão e homenagens.

Javier Angonoa, diretor da ONG Motirô, Bahia: “Neste ano, após 8 meses do falecimento do meu pai, a data tem outro sentido”

“O Dia dos Pais, data diferente aqui do que no meu país de origem, nunca teve tanta relevância, para mim. O Dia das Mães esse sim tem um significado muito maior…Mas neste ano, após 8 meses do falecimento do meu pai, a data tem outro sentido. Nesta data sei que ele já não vai estar nunca mais e isso deixa um vazio existencial. Penso, como muitos, que a morte de nossos pais é um antecipo da própria morte, nesse sentido se sente mais ainda. Eu tive uma relação complexa com meu pai, mas sempre com respeito mútuo. Ele que teve que se fazer sozinho, ficou órfão aos 8 anos e aos 7 (sim 7 !) já trabalhava, sempre trabalhou, uma vida de trabalho duro. Épocas muito difíceis. Seu grande sonho era continuar os estudos, fez a primeira série (dá época) mas fazia contas como ninguém e tinha uma excelente gramática. Nos inculcou o amor pelo estudo, os livros, a independência, a apreender a “correr atrás”, a lutar por progredir. Isso ficou no meu DNA e sempre busco superar os obstáculos e se hoje me sinto bem com a vida, foi porque tive um pai presente. Hoje, quando passo num espelho, vejo o reflexo dele (sou muito parecido), muitas coisas que me enraivavam ontem, hoje eu também faço. A vida das voltas e como cantou Elis “Ainda somos os mesmos e vivemos. Como os nossos pais.”

Fernanda Peres Guidolin, diretora Financeira do Instituto Cultural Barong, São Paulo: “Sua força, seu carinho e sua presença sempre estarão guardados no meu coração”

“Pai, quero dizer o quanto te amo e sou grata por tudo que você representa na minha vida. Mesmo que o tempo que tivemos juntos tenha sido curto e enfrentamos muitas dificuldades, agradeço de coração por tudo que você me ensinou. Sua força, seu carinho e sua presença sempre estarão guardados no meu coração. Gostaria de ter tido mais paciência e compreensão durante o seu momento de luta com o AVC. Sinto sua falta todos os dias. Te amo para sempre!”

 

 

Américo Nunes Diretor político do Vida Nova

Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova, São Paulo: “Pai, eu quero dizer a você que o amei da minha forma de ser, calado e introspectivo”

“Eu me lembro do dia em que ele nos deixou, 1º de dezembro de 2020. Eu estava na manifestação do Dia Mundial de Luta contra a Aids, trabalhando por uma causa que é importante para mim. As pessoas ao meu redor não sabiam como me dar a notícia, mas eu precisava saber e assim me deram a triste notícia. Com toda dor de perder um ente querido, mesmo assim concluí meu ativismo e fui cuidar dos processos de sepultamento, velório e tudo mais fazendo o que precisava ser feito. Pai, eu quero dizer a você que o amei da minha forma de ser, calado e introspectivo. Eu gostaria de ter dito, mas não foi possível. Para as pessoas que tem seu pai em vida não se anule em dizer “eu te amo” todos os dias, sem timidez ou bloqueio de mostrar seus sentimentos. É uma mensagem simples, mas poderosa. Eu sei que não tínhamos um relacionamento perfeito, mas ele foi meu pai e eu vou sempre lembrar com amor e respeito. No fundo eu sabia do orgulho que o senhor nutria por mim ao me ver em diversas emissoras de TV falando da minha luta e minha vivência com HIV. Eu te amo, pai, viva a vida!”

Harley Henriques, Coordenador geral do Fundo Positivo, Bahia: “Tenho as memórias de ter recebido cuidados e atenção por parte dele”

“Meu pai morreu muito precocemente aos 48 anos quando eu ainda era uma criança. Eu tinha 10 anos de idade.Tenho as memórias de ter recebido cuidados e atenção por parte dele. Assim muitas coisas não foram ditas e talvez hoje ele veja a trajetória da vida do filho dele , com certo orgulho , que aos 19 anos de idade iniciou seu trabalho social no enfrentamento aos efeitos da epidemia da Aids num tempo tão sombrio no país. O homem de hoje com seus 57 anos e que segue trabalhando com o mesmo projeto de vida , de alguma forma se inspira na figura do pai que sempre se esforçou pela garantia da qualidade de vida dos seus.”

 

 

Fabiana Oliveira, Secretária de Comunicação Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, São Paulo: “Apesar dos poucos momentos que tivemos, você é, para mim, uma fonte de inspiração”

“Meu querido e saudoso pai, radialista Gilberto de Oliveira, “foi um grande homem e comunicador”. Essa é a frase que mais ouço quando alguns parentes e conhecidos falam dele. Meus pais se separaram quando eu ainda era muito criança e, a partir de então, ele resolveu cair no mundo. Anos mais tarde voltou para a pequena cidade de Agulha, no interior de São Paulo. Tenho vagas lembranças das poucas vezes que nos falamos, dezoito anos depois, mas se tivesse a oportunidade de sentar frente a frente hoje eu te diria “Pai, nem tudo acontece como planejamos, imprevistos e situações fogem ao nosso controle e eu respeito a decisão sua e de minha também saudosa mãe. Apesar dos poucos momentos que tivemos, você é, para mim, uma fonte de inspiração. Suas últimas palavras escritas rapidamente num pedaço de papel estão guardadas, também, no meu coração. Ah, não posso esquecer de dizer que, segundo minha mãe, sou muito você. Me orgulho disso. Gratidão Pai!”

Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTQIA+, Paraná: “Reconheço que herdei de você o perfeccionismo e agradeço pelo exemplo de amor que deixou pelo modo como cuidou da mamãe”

“Oi pai, hoje quero falar sobre você, Miguelino, esse gaúcho que fincou raízes no interior do Paraná. Segundo a mamãe, você vestia bombacha e encarnava a tradição gaúcha com orgulho. Infelizmente, não tenho memórias diretas suas, já que você partiu quando eu ainda era um bebê. Mas, através das histórias que a mamãe me contou, sinto que conheço bem você. Você era caprichoso, charmoso, e um conquistador nato, tanto que conquistou o coração da mamãe a ponto de formarem uma grande família com sete filhos. Gostaria de ter tido a chance de estar ao seu lado, apoiá-lo nos momentos difíceis, e te mostrar que aqui estaria seu filho, admirando e aprendendo com sua perfeição.Reconheço que herdei de você o perfeccionismo e agradeço pelo exemplo de amor que deixou pelo modo como cuidou da mamãe. Sinto falta da oportunidade de chamar de amor de pai, mas a mamãe foi incrível ao suprir essa ausência.Hoje, sou uma pessoa feliz e tenho sempre ao lado da minha cama a foto de nossa família unida: você, mamãe, e meus irmãos. Você foi e sempre será fundamental na

Beto Volpe, ativista independente, São Vicente – São Paulo: “Na verdade sou eu quem se orgulha do pai que tive”

“Minha relação com meu pai sempre foi conturbada, desde criança quando eu já deixava claro que eu seria menine. Na juventude eu militava em movimentos estudantis de esquerda enquanto meu pai era político pela ARENA, partido que apoiava a ditadura militar, e foi assim daí em diante, com alguns embates bastante exaltados. O tempo passou e em seus últimos dias de vida, já acamado, ele me pediu que o sentasse na cama e, frente a frente comigo, segurou minha mão e disse: ‘A gente sempre teve problemas no nosso relacionamento, mas eu quero que você saiba que eu tenho muito orgulho do homem que você se tornou.’ Claro que eu me desfiz em lágrimas, como que expirando um carma para que pudéssemos seguir nossas jornadas em paz. Na verdade sou eu quem se orgulha do pai que tive, após quarenta anos na vida pública ele nos deixou um bangalô todo trincadinho no centro de São Vicente, um carro popular na garagem e uma poupança que nos deixava preocupados com relação a manter a qualidade de vida de meu pai. Viva Geraldo Volpe!”

Redação da Agência de Notícias da Aids

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