No Dia do Sexo e no Setembro Amarelo, infectologista e psicóloga destacam a conexão entre prevenção combinada, saúde mental e prazer

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Dra. Maria Felipe Medeiros e Vanessa Sodré explicam como falar de sexo com cuidado e acolhimento ajuda a viver a sexualidade com liberdade, segurança e valorização da vida

No Dia do Sexo (6/9), em pleno Setembro Amarelo, especialistas lembram que falar de sexo não é só sobre saúde física. Estratégias de prevenção combinada oferecem segurança, reduzem medos e fortalecem a autoestima — um caminho para viver a sexualidade com mais tranquilidade.

A Agência Aids conversou com a pesquisadora de Infectologia e saúde da população Trans na Casa da Pesquisa – CRT DST/AIDS São Paulo Dra. Maria Felipe Medeiros, que defende que a mandala da prevenção representa a liberdade de escolha de cada pessoa.

Para ela, não há hierarquia entre os métodos, mas sim uma composição individual que deve respeitar o que é possível e aceitável em cada realidade.

“Quando a gente pensa nesse modelo de prevenção combinada, a gente precisa entender que são várias fatias. Eu sempre tento colocar como se fosse uma pizza. Cada fatia tem o seu sabor. Cada pessoa pega a fatia ou as fatias que precisar pra ficar saciado.”

A especialista explica que o sucesso da prevenção combinada não depende apenas da eficácia comprovada em pesquisas clínicas, mas sobretudo da adesão cotidiana. Para que a escolha seja consciente, é necessário que a pessoa tenha acesso a informações claras sobre benefícios e limitações de cada método.

A infectologista Maria Felipe Medeiros | Foto: Acervo pessoal

Adesão entre jovens: informação, pressão social e formato do método

A pesquisadora aponta que o Brasil enfrenta um cenário desafiador entre adolescentes e jovens adultos. A baixa cobertura da PrEP nesse público contrasta com o avanço da epidemia nessa faixa etária.

“Menos de 1% dos jovens usam PrEP no Brasil. E hoje a gente vê que a epidemia de HIV no país está concentrada entre jovens de 15 a 19 anos, homens pretos e pardos, normalmente que fazem sexo com outros homens.”

Segundo a infectologista, não se trata apenas de falta de interesse dos jovens, mas de barreiras estruturais e institucionais. A prevenção combinada ainda é pouco discutida fora da infectologia, e médicos de outras áreas — como pediatras e ginecologistas — raramente abordam o tema. Essa lacuna, somada à dificuldade de adesão ao comprimido diário, cria obstáculos reais.

Nesse contexto, novas tecnologias são vistas como oportunidades para aumentar o engajamento:

“Quando a pessoa consegue escolher, e escolhe o injetável, a adesão aumenta significativamente em relação ao oral. O projeto PrEP 15–19 vem mostrando isso.”

A médica compara a importância de oferecer opções à experiência de entrar em uma doceria com prateleiras cheias:

“Quanto mais alternativas, maior a chance da pessoa se sentir respeitada e motivada a aderir.”

Culpa, tabu e impacto emocional

O silêncio sobre sexualidade ainda pesa no Brasil. Para a infectologista, o estigma ligado às ISTs e ao sexo sem preservativo cria um terreno fértil para sentimentos de culpa, o que desestimula o autocuidado e prejudica a saúde mental:

“Quando você tem um diagnóstico de IST, você se sente uma pessoa suja, porque a sociedade te coloca nessa posição. Quanto mais cedo a gente conseguir falar sobre saúde sexual, mais a gente vai estar munindo esses jovens e adultos para terem menos tabu sobre o tema.”

Integrar saúde mental aos serviços de IST/HIV

Ao tratar da integração entre saúde mental e prevenção, a profissional alerta que o Sistema Único de Saúde (SUS), apesar de concebido como rede integrada, ainda funciona de maneira fragmentada. A falta de comunicação entre CAPS, UBS e serviços especializados de ISTs dificulta a vida de quem busca cuidados preventivos e apoio psicológico:

“O CAPS fica longe da unidade de IST, que fica longe da UBS e não se comunicam. Quando a gente coloca um profissional de saúde mental dentro do serviço de ISTs, a gente facilita o acesso.”

Preservativo interno: autonomia e menos ansiedade

A médica chama atenção ainda para o preservativo interno, ainda pouco divulgado no Brasil, mas que pode desempenhar papel relevante tanto na prevenção quanto no conforto emocional de quem o utiliza:

“O preservativo interno é um preservativo que hoje a gente entende que ele não é só para a vagina; ele também pode ser usado no ânus. A gente precisa difundir mais esse assunto.”

Preservativo interno | Foto: Freepik

Saúde mental: prazer, autocuidado e acolhimento

A discussão sobre saúde sexual e saúde mental se aprofunda com a perspectiva da psicologia, que costura prazer, prevenção e acolhimento no espírito do Setembro Amarelo.

A psicóloga Vanessa Sodré, do Instituto Vida Nova, consultada pela Agência Aids, conecta prazer, prevenção e acolhimento à valorização da vida:

“Quando falamos em Setembro Amarelo e valorização da vida, a sexualidade precisa estar nessa conversa. Viver a sexualidade de forma plena, saudável e protegida favorece a saúde física e mental; é um componente de bem-estar que ajuda a afastar pensamentos de autoextermínio.”

Na avaliação da especialista, prazer e autocuidado se retroalimentam:

“O prazer está totalmente ligado ao autocuidado. Em geral, quando a pessoa está bem consigo, ela consegue viver uma vida sexual ativa de forma positiva; quando a sexualidade vira um lugar de autodestruição, é sinal de sofrimento que precisa de cuidado.”

Vanessa ressalta que o sexo pode aliviar a ansiedade — e alerta para quando a cobrança por desempenho vira gatilho:

“A atividade sexual pode reduzir a ansiedade porque, além de ser um exercício físico, o ato sexual libera hormônios do prazer e promove bem-estar. Por outro lado, quando há disfunções — como ejaculação precoce ou dificuldade de chegar ao orgasmo — a experiência pode aumentar a ansiedade.”

A psicóloga Vanessa Sodré | Foto: Acervo pessoal

A sensação de segurança aumenta quando há método definido na prevenção combinada:

“Quando o encontro é protegido — com preservativos interno e externo, PrEP ou PEP — a pessoa vai mais segura, vive a sexualidade com mais liberdade e menos preocupação.”

Para chegar lá, o caminho passa por diálogo qualificado e orientação individualizada:

“O primeiro passo é o diálogo aberto e uma orientação ajustada ao perfil de cada paciente. Falamos sobre I=0 (indetectável=intransmissível), sobre a mandala de prevenção e sobre os diferentes caminhos possíveis — PrEP contínua ou sob demanda, PEP e preservativos. Em casais sorodiferentes, por exemplo, ser indetectável elimina a transmissão do HIV, mas seguimos lembrando que há outras IST: a pessoa sabe o que passa, mas não sabe o que vem de lá pra cá.”

A psicóloga também chama atenção para acesso a insumos e serviços na rede pública:

“Na cidade de São Paulo, há facilidades importantes: máquinas de prevenção — como o ponto do Jorge Beloqui na estação República —, além dos SAEs. A informação precisa chegar para que as pessoas acessem PrEP, PEP e preservativos. Novas formas de prevenção ofertadas pelo SUS também ampliam as possibilidades.”

Por fim, o acolhimento sem julgamento é decisivo na testagem; ela registra uma preocupação com o autoteste feito em casa:

“Infelizmente, o estigma ainda afasta da testagem. O acolhimento precisa chegar a todos os lugares — sem julgamento. Tenho uma preocupação com o autoteste feito em casa: e se der positivo? Nem sempre a pessoa tem suporte emocional imediato para lidar com o resultado e procurar o serviço de saúde.”

Prazer, cuidado e vida

Assim, tanto na visão da infectologia quanto da psicologia, o recado é claro: falar de sexo no Dia do Sexo e em pleno Setembro Amarelo é falar de vida, de cuidado e de liberdade. Prazer e prevenção caminham juntos quando o bem-estar físico e mental são colocados no centro.

Redação da Agênica de Notícias da Aids

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