No Dia das Mães, Ariana Wruck celebra a vida após 30 anos vivendo com HIV: “O sonho não acabou”

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Mãe de cinco filhos, avó de 11 netos e agente de prevenção, Ariana transformou o diagnóstico, o luto e o preconceito em força para continuar vivendo, amando e sonhando

“Quando eu recebi o diagnóstico, achei que precisava aprender a sobreviver. Hoje eu vejo que aprendi foi a viver.”

A frase de Ariana Luiza Rosa Wruck não carrega apenas memória. Carrega travessia. Aos 64 anos, ela fala com a serenidade de quem já atravessou perdas profundas, noites de medo, julgamentos silenciosos e dias em que o futuro parecia pequeno demais para caber esperança. Mas também fala com a firmeza de quem decidiu continuar.

Neste Dia das Mães, Ariana celebra muito mais do que a própria maternidade. Celebra a permanência. Celebra os cinco filhos, os 11 netos, os amigos construídos pelo caminho, os almoços em família, o trabalho que ainda faz com orgulho e, principalmente, a possibilidade de continuar sonhando — algo que, durante muitos anos, disseram que pessoas vivendo com HIV não teriam direito.

Há quase três décadas, Ariana recebeu o diagnóstico durante a gravidez da filha caçula. Nos anos 1990, quando o HIV ainda era cercado por desinformação, medo e estigma, ouvir aquele resultado parecia, para muitas pessoas, ouvir uma sentença.

“Eu estava grávida, com uma barriga enorme, e de repente tive que lidar com aquilo. Meu marido morreu, eu tinha cinco filhos e pensei: ‘o que eu vou fazer agora?’”, relembra.

“Foi o acolhimento que me manteve viva”

Naquele período, Ariana precisou aprender a sobreviver emocionalmente enquanto tentava manter a casa, cuidar dos filhos e enfrentar o luto. Ela lembra que o acolhimento encontrado nas primeiras organizações voltadas à resposta ao HIV foi fundamental para que ela não desmoronasse.

“Na época, as pessoas eram muito solidárias. Eu pegava arroz, leite, fralda e voltava para casa com o carrinho cheio. Foi isso que me ajudou a continuar.”

É impossível ouvir Ariana sem perceber que sua história também é a história de muitas mulheres brasileiras que enfrentaram o HIV praticamente sozinhas. Mulheres que precisaram sobreviver ao vírus, ao preconceito, à pobreza, ao abandono e ao silêncio. Mulheres que seguiram em frente mesmo quando tudo ao redor parecia dizer que elas não conseguiriam.

Mas Ariana conseguiu. E talvez sua maior vitória tenha sido não permitir que o HIV apagasse sua identidade para além do diagnóstico. Ela continuou sendo mãe. Continuou sendo mulher. Continuou desejando amor, afeto, futuro e felicidade.

Hoje, Ariana atua como agente de prevenção no Instituto Vida Nova. Participa de ações em feiras livres, conversa com jovens, distribui preservativos, orienta sobre prevenção combinada, fala sobre PrEP, redução de danos e acolhimento. Mais do que informação, ela oferece presença.

“Eu gosto de estar na rua falando sobre prevenção. A gente fala de preservativo, de PrEP, de todas as ferramentas que existem hoje. Quero que as pessoas saibam que o sonho delas não acabou.”

Maternidade atravessada pelo preconceito

Ao falar sobre maternidade vivendo com HIV, Ariana não romantiza as dificuldades. Pelo contrário. Ela expõe as cicatrizes que ainda carrega. “É difícil criar filhos de qualquer jeito, mas com HIV vem também o medo, o preconceito e a culpa.”

Quando decidiu tornar o diagnóstico público, viveu situações que jamais esqueceu.

“Eu fiz uma coisa que não aconselho nenhuma mulher a fazer: abrir o diagnóstico para todo mundo. Na escola da minha filha, um dia ela caiu e se machucou. A escola quis que todas as crianças fizessem exame de HIV. Isso me marcou muito.”

O episódio permanece vivo na memória porque revela uma violência que vai além da desinformação: a desumanização.

Em outra ocasião, Ariana ouviu comentários preconceituosos dentro de um hospital. “Eu estava com meu marido numa cadeira de rodas e ouvi uma pessoa falando: ‘Tá vendo aquele casal? Eles têm HIV’. Aquilo ficou na minha cabeça por muitos anos.”

Ainda hoje, décadas depois do início da epidemia, histórias como a dela mostram que o estigma continua sendo uma das maiores feridas enfrentadas por pessoas vivendo com HIV — especialmente mulheres, mães e mulheres mais velhas.

“Muitas mulheres ainda têm medo de amar”

Ariana também fala sem medo sobre sexualidade, envelhecimento e autoestima. Temas frequentemente apagados quando se trata de mulheres vivendo com HIV.

“Fiquei três anos sem fazer sexo porque tinha medo de tirar a roupa, medo de transmitir o vírus. Muitas mulheres vivem isso até hoje.”

Há uma honestidade dolorosa nessa fala. Porque ela revela algo raramente discutido: o quanto o preconceito invade até a forma como muitas mulheres passam a enxergar o próprio corpo.

Ainda assim, Ariana se recusou a abandonar a própria vida afetiva. “Quem não quer se apaixonar? A gente também precisa de carinho.”

Ela ri ao dizer isso. E o riso talvez seja uma das partes mais bonitas da sua história. Porque não é um riso ingênuo. É um riso de quem já chorou muito. De quem aprendeu, na prática, que sobreviver não significa deixar de desejar felicidade.

Apesar das dores, Ariana sente orgulho da mãe que foi — e da mulher que conseguiu se tornar.

“Eu ensinei minhas filhas sobre prevenção, sobre independência, sobre não aceitar relacionamento abusivo. Eu podia ter colocado qualquer homem dentro da minha casa, mas sempre tive medo de alguém fazer mal para minhas meninas.”

Existe uma maternidade inteira dentro dessa frase. Uma maternidade construída não apenas pelo cuidado cotidiano, mas pela proteção silenciosa e pelas escolhas difíceis.

“O HIV nunca acabou com os meus sonhos”

Hoje, Ariana entende que muita coisa mudou desde o período em que recebeu o diagnóstico. Mulheres vivendo com HIV podem engravidar com segurança, acessar tratamento e impedir a transmissão vertical do vírus. A medicina avançou. As políticas públicas avançaram. Mas ela sabe que ainda existe muito caminho pela frente quando o assunto é preconceito.

“Naquela época, uma mulher grávida com HIV era julgada. Hoje a gente sabe que pode ter filhos, pode sonhar, pode viver.”

E é justamente sobre sonhos que Ariana mais gosta de falar. “Você pode viver com HIV, mas continua tendo sonhos. Isso é o que fortalece.”

Ela sonha em visitar a filha que mora em Portugal. Sonha em continuar trabalhando no Instituto Vida Nova. Sonha em seguir acolhendo outras pessoas que chegam assustadas após o diagnóstico. Sonha em viver novos afetos.

Sonhos simples. Mas profundamente revolucionários para quem um dia acreditou que não viveria o suficiente para envelhecer.

Um Dia das Mães cercado de afeto

Neste Dia das Mães, Ariana pretende reunir parte da família para um churrasco simples, daqueles em que o mais importante não é a mesa cheia, mas a presença.

Entre risadas, reclama das filhas que insistem em perguntar o que ela quer ganhar de presente. “Presente bom é aquele que a pessoa escolhe pensando em você”, brinca.

Cozinheira de profissão, ela diz encontrar felicidade nas pequenas rotinas que construiu ao longo da vida. “Eu adoro cozinhar. Gosto de receber meus filhos, meus netos. Minha vida é boa. Tenho meus amigos, tenho saúde, tenho sonhos.”

Talvez seja justamente aí que mora a grandeza da história de Ariana. Não apenas no fato de ter sobrevivido ao HIV durante quase 30 anos. Mas na capacidade de continuar acreditando na vida apesar de tudo o que tentou interrompê-la.

Depois de tantas perdas, do peso do preconceito, das dificuldades financeiras e das marcas deixadas pelo estigma, Ariana segue caminhando com a mesma convicção de quem aprendeu a transformar dor em acolhimento.

“Meu médico disse uma vez que o menor problema da minha vida era o HIV. E acho que ele tinha razão. O HIV nunca acabou comigo. Eu continuei vivendo.”

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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Ariana Wruck

Instagram: @arianawruck

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