Neste 1º de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a AIDS, um progresso frágil está sob ameaça.
Iniciarei esta mensagem contando sobre Noncedo Khumalo, uma mentora comunitária de 24 anos, de Essuatíni. Ela apoiava mulheres e meninas de sua comunidade mais expostas ao HIV, especialmente aquelas vulneráveis a homens mais velhos que as aliciavam para relações sexuais em troca de dinheiro ou benefícios. Mas agora, o programa que financiava seu trabalho foi encerrado, e Noncedo perdeu seu emprego. Ela está preocupada com o futuro.
Muitas das jovens e adolescentes com quem ela trabalhava não têm informações precisas ou adequadas sobre HIV. Perder uma mentora — alguém que é da própria comunidade e em quem elas podiam confiar — aumenta o risco de infecção pelo HIV. E Noncedo não é a única.
Mais de 60% de todas as organizações de HIV lideradas por mulheres perderam financiamento ou foram obrigadas a suspender suas atividades. Outros serviços de prevenção ao HIV também foram fortemente afetados. O número de pessoas que utilizam a profilaxia pré-exposição (PrEP), que é um medicamente utilizado para prevenção ao HIV, caiu 64% no Burundi, 31% em Uganda e 21% no Vietnã.
Tudo isso ocorre em meio a um retrocesso em direitos humanos. O número de países que criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo aumentou este ano, com Burkina Faso, Níger, Mali e Trinidad e Tobago introduzindo criminalização. E isso ocorre dentro de uma onda mais ampla de legislações regressivas.
Somente nos últimos 12 meses, 316 milhões de mulheres passaram por situações de violência física ou sexual por seus cônjuges. Leis que protegem a autonomia corporal e os direitos sexuais e reprodutivos de adolescentes e mulheres estão sob ameaça. Alguns países chegaram perto de revogar leis que proíbem a mutilação genital feminina.
Na África Subsaariana, mulheres que sofreram violência por seus cônjuges no último ano têm 3,2 vezes mais chances de adquirir HIV. E não se enganem: há uma campanha determinada, organizada e bem financiada contra os direitos humanos, sobretudo os direitos de grupos minorizados como mulheres, meninas e a comunidade LGBTQIA+. Essa campanha está afastando ainda mais as pessoas dos serviços de HIV que salvam vidas.
Ainda assim, mesmo diante das circunstâncias mais difíceis, tenho esperança de que podemos superar as interrupções e transformar a resposta à AIDS.
Sinto enorme inspiração nas comunidades, lideranças e organizações da sociedade civil que se uniram para apoiar umas às outras e dar continuidade e sustentação a resposta à AIDS.
Muitos governos tomaram medidas para aumentar o financiamento doméstico para saúde e HIV. Isso permitiu que alguns países mantivessem — ou até aumentassem — o número de pessoas em tratamento para o HIV.
O Roteiro da União Africana para 2030, adotado pelos Estados-Membros em 2025, coloca o foco na sustentabilidade da resposta ao HIV e no fortalecimento dos sistemas de saúde. O recém-lançado Accra Reset coloca o financiamento da saúde e a soberania no centro de um ecossistema de desenvolvimento transformado.
O UNAIDS apoia países a ampliar o financiamento nacional para o HIV. Até este momento, 25 países desenvolveram seus próprios roteiros de sustentabilidade, visando um futuro em que a resposta seja mais autônoma, mais bem integrada aos sistemas de saúde e sempre com as comunidades no centro.
No entanto, com a arrecadação de receitas na África em apenas 16% do Produto Interno Bruno (PIB) — muito abaixo da média global — há limites para o que os governos podem fazer. Impostos sobre produtos nocivos à saúde e outras medidas inovadoras podem ajudar no curto prazo. Mas, para um financiamento doméstico robusto do HIV, países de baixa e média rendas precisam de crescimento econômico contínuo, políticas que evitem a evasão fiscal e tributação progressiva sobre renda, riqueza e lucros corporativos.
Um grande obstáculo é que os países com maiores índices de infecções por HIV também estão entre os que possuem as maiores dívidas do mundo. As taxas de juros cresceram, com pagamentos de dívida ultrapassando orçamentos de saúde em muitos países de baixa e média rendas.
A Conferência de Financiamento para o Desenvolvimento e a Cúpula do G20 de 2025 destacaram o problema e a necessidade de uma ação urgente. Mas, em 2026, os governos precisam tornar a renegociação da dívida uma realidade, permitindo que os países aumentem seus gastos domésticos em HIV e saúde.
A boa notícia é que alguns países estão avançando na proteção dos direitos humanos. Em Ruanda, por exemplo, adolescentes agora podem acessar serviços de saúde sexual e reprodutiva sem consentimento de responsáveis a partir dos 15 anos, o que faz com que jovens sejam protagonistas de sua própria proteção e segurança.
As primeiras doses de lenacapavir — novo medicamento injetável de longa duração aplicado a cada seis meses — já chegaram à África. A implementação, porém, ainda é lenta: poucos fabricantes receberam licença para produzir versões genéricas, e muitos países em desenvolvimento — como o Brasil —foram excluídos do acesso ao genérico. Isso é uma questão fundamental de justiça.
E, mesmo em um cenário financeiro desafiador, governos doadores não estão desistindo. A estratégia America First para a Saúde Global continua investindo significativamente na resposta ao HIV. E a oitava recomposição do Fundo Global contra AIDS, Tuberculose e Malária já garantiu mais de US$ 11,34 bilhões (cerca de R$ 60,44 bilhões) em compromissos e outras promessas importantes estão previstas.
Países em desenvolvimento estão iniciando uma transição gradual para respostas ao HIV mais sustentáveis, inclusivas e de propriedade nacional. É assim que podemos superar interrupções e acabar com a AIDS como uma ameaça à saúde pública.
Não existe solução única. Nenhuma medida isolada nos levará ao alcance da meta. Mas, se governos, comunidades e organizações internacionais se unirem para desbloquear o financiamento doméstico, proteger os direitos humanos, a igualdade de gênero e tornar as novas inovações acessíveis e disponíveis para todas as pessoas poderemos aproveitar este momento.
O mundo pode acabar com a AIDS.




