Migração de grávidas no terceiro trimestre sem histórico clínico reintroduz transmissão vertical na capital; fluxo de 12 mil novos moradores ao ano e demanda regional pressionam o SUS
A atratividade e a dinâmica metropolitana da Grande Florianópolis produzem reflexos diretos sobre indicadores de saúde pública que a capital já considerava controlados.
Mulheres grávidas que migram para o município já no terceiro trimestre de gestação, sem exames laboratoriais prévios ou histórico de acompanhamento nas cidades de origem, provocariam novos registros de transmissão vertical do HIV e casos de sífilis congênita no momento do parto.
Conteúdos em alta
O alerta foi feito pelo titular da Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis, o médico Dr. Almir Gentil, em entrevista ao Grupo ND.
Segundo o gestor, o protocolo da atenção básica local estabelece o mínimo de seis consultas de rotina por gestante, com repetição periódica de testes e sorologias para infecções sexualmente transmissíveis. O rastreio contínuo e precoce garante intervenções imediatas que evitam o contágio do feto ao longo da gravidez e durante o parto.
O desafio surge quando a gestante chega à rede municipal nas semanas finais que antecedem o nascimento.
“O indicador de sífilis no nascimento em mulheres que são de Florianópolis é praticamente zero, porque a gente faz todo o pré-natal e repete os exames. Mas você recebe uma pessoa de outra região, que chegou no sexto, sétimo ou oitavo mês, e ela vai ter a criança aqui sem esse histórico. Tivemos transmissão vertical de sífilis e de HIV que já tínhamos zerado na nossa rede regular”, comentou.
O prefeito Topázio Neto (Podemos) contextualizou que o reflexo nas maternidades públicas decorre de uma dinâmica populacional mais ampla, estimulada pela expansão urbana.
“Você começa a ter casos que refletem a realidade de outras regiões do Brasil. São mazelas sociais que impactam na saúde, na mobilidade e nos serviços municipais”, explicou.
Pressão demográfica expõe desafios no controle de recém-nascidos com HIV
O fenômeno acompanha o ritmo acelerado de crescimento demográfico da capital catarinense. De acordo com a Prefeitura de Florianópolis, a cidade recebe diariamente entre 30 e 33 novos moradores fixos, representando um incremento superior a 12 mil habitantes por ano.
O fluxo migratório não se distribui de maneira homogênea no mapa municipal. Enquanto bairros centrais e praias do Norte da Ilha registram forte cobertura da medicina, as famílias de menor poder aquisitivo concentram-se nas periferias e comunidades urbanas.
De acordo com o secretário, territórios como Monte Cristo, Chico Mendes, Vila Aparecida e Alto Caeira possuem dependência integral da rede pública do SUS (Sistema Único de Saúde).
Nessas áreas, a chegada constante de moradores sobrecarrega as equipes de Saúde da Família, que precisam absorver novos calendários vacinais, distribuição de remédios e consultas pré-natais em postos de atendimento já saturados.
Universalidade do SUS e fluxo metropolitano desafiam rede de saúde
Além da fixação de novos residentes, a rede municipal de saúde absorve rotineiramente a demanda de municípios limítrofes da Grande Florianópolis.
Sob o princípio constitucional da universalidade e da porta aberta do SUS, as unidades de pronto atendimento não podem recusar socorro médico com base no domicílio de origem do paciente.
Esse impacto regional concentra-se de forma expressiva na porção continental de Florianópolis. Conforme dados da Secretaria de Saúde, a UPA Continente destina entre 30% e 33% de todos os seus atendimentos mensais a moradores domiciliados em São José.
Para o secretário Almir Gentil, a sustentabilidade dos índices sanitários da capital depende de busca ativa permanente nas comunidades vulneráveis e de ampliação contínua de recursos orçamentários para atender pacientes que chegam de fora do sistema local.
MultiHospital e novas parcerias reduzem volume geral de solicitações em 39% nas filas no SUS em Florianópolis
Entre o ápice da demanda represada no pós-pandemia e meados de julho de 2026, a rede municipal de saúde aumentou a oferta e reduziu em 39% o total de pedidos pendentes, baixando de 324,8 mil para 197,6 mil procedimentos em espera.
O recuo foi alavancado pela operação do MultiHospital (com mais de 725 mil atendimentos desde 2024), pela atualização tecnológica da Policlínica da Mulher e da Criança e pelo credenciamento de serviços privados complementares.
O impacto consolidou-se nos exames complementares de diagnóstico:
Radiologia Adulto: caiu de 14.627 pedidos (julho de 2024) para 39 solicitações (julho de 2026), retração de 99,7%;
Endoscopia Digestiva Alta: reduziu de 10.350 pedidos (julho de 2024) para 178 solicitações (julho de 2026), queda de 98%;
Exames Laboratoriais: recuaram de 57.596 pedidos (fevereiro de 2024) para 1.122 solicitações (julho de 2026), baixa de 98%;
Tomografia Computadorizada: caiu de 11.242 pedidos (fevereiro de 2025) para 369 solicitações (julho de 2026), redução de 97%;
Ultrassonografia Geral: passou de 58.394 pedidos (agosto de 2025) para 1.548 solicitações (julho de 2026), retração de 97%;
Câncer de Mama: mamografia com compressão foi 100% zerada (de 589 para zero), diagnóstica caiu para 1 paciente (-99%) e de rastreamento caiu 90% (de 5.887 para 538 solicitações).
Critério técnico define o conceito de demanda atendida nas filas no SUS em Florianópolis
A gestão municipal esclarece que a definição de “fila zerada” empregada pela regulação técnica não equivale à inexistência de pessoas agendadas, mas à suficiência da capacidade instalada frente ao fluxo médio regular de solicitações.
“Zerar uma fila é: o estoque de exame que tenho para fazer, somado ao número de exames habitual do mês, é inferior à oferta de exames que tenho para aquele mês. Exemplo: se tenho 200 exames e entram habitualmente mais 1.000, e eu tenho uma oferta de 1.500, estou com a fila zerada”, explica o Dr. Almir Gentil.
O prefeito Topázio Neto reforça a distinção técnica entre atendimento programado e represamento histórico.
“A população às vezes diz: ‘Fui lá fazer uma mamografia só para daqui a três semanas’. Daqui a três semanas é fila zero! Se você for hoje na rede privada, você chega e faz amanhã? Não, né? Você tem uma fila. Então, esse conceito de fila zero é quando oferto mais do que tenho a fazer. Se for urgente, a gente fecha imediatamente.”



