
Pode haver quem duvide do poder da juventude, mas Sheryss Saide, de 21 anos, é a prova de que a energia juvenil, determinação e a ação podem mudar o mundo. Nascida em Moçambique, ela é uma jovem ativista comprometida com a defesa de direitos, especialmente das juventudes vivendo com HIV/aids em seu país. Criada em uma pequena província de Moçambique, sua infância foi marcada por muitas festividades tradicionais. Atualmente, vive na capital Maputo.
“O carnaval é uma das experiências mais marcantes da minha vida. Na nossa cidade, a festa é tão intensa que a chamamos de ‘pequeno Brasil’, inspirados nas festividades brasileiras, sendo considerado o melhor carnaval do país.”

Sheryss viveu momentos de alegria, apesar dos desafios que enfrentou desde a perda precoce de sua mãe. Ela aprendeu a lidar com a dor e a necessidade de se fortalecer ainda mais. “Minha mãe faleceu cedo, mas tive uma infância muito feliz. Nossa cidade era acolhedora, e o carnaval sempre foi um dos momentos mais esperados por todos”, conta.

Sheryss compartilha que, desde pequena, foi uma criança alegre, comunicativa e curiosa. Aos 12 anos, começou a se aprofundar na comunicação, e isso se intensificou quando passou a trabalhar em programas voltados para crianças e jovens na Rádio Moçambique. “Foi lá que descobri minha paixão pela comunicação. Eu escrevia roteiros, fazia locução, e isso me marcou profundamente. Aos 18, decidi que era hora de passar o bastão e buscar novos desafios”, relembra.
Durante esse período de transição, ela encontrou uma nova forma de usar sua voz: o ativismo. Motivada a entender os problemas do seu país e contribuir para mudanças, especialmente aquelas que beneficiassem os mais jovens, Sheryss se envolveu em um projeto de uma ONG voltada para questões relacionadas à saúde sexual e à prevenção do HIV. Desde então, não parou. Após concluir o ciclo de formação, começou a atuar mais ativamente. Ela destaca que muitas comunidades, especialmente em áreas rurais, ainda carecem de informação adequada sobre HIV, principalmente para adolescentes e jovens.

“O HIV ainda é visto como tabu por muitos. Apesar dos avanços, em Moçambique ainda existem líderes religiosos que dizem, por exemplo, que as pessoas não precisam de tratamento porque Deus as curará”, observa. “A desinformação é um dos maiores obstáculos que enfrentamos”, complementa.
Sheryss considera uma missão cuidar, acolher e apoiar a população vivendo com HIV, dedicando-se intensamente a essa causa. Para ela, é um caminho de muita esperança.

Um dos maiores avanços que celebra foi a ampliação do acesso à PrEP em Moçambique, a profilaxia pré-exposição ao HIV. Sheryss explica que, embora a PrEP tenha sido inicialmente restrita a grupos específicos, agora é acessível a qualquer pessoa em situação de risco, o que ela considera uma grande vitória.

Apesar dos desafios que enfrenta, mantém uma visão otimista para o futuro. Para ela, é fundamental que os jovens sejam incluídos nos processos de formulação de políticas públicas. A ativista acredita que o futuro de Moçambique depende da participação ativa dos jovens, que precisam ser ouvidos e ter um papel protagonista não só na construção, mas na fiscalização dessas políticas.

Moçambique, assim como muitos países africanos, enfrenta grandes desafios em relação à epidemia de HIV/aids e, muitas vezes, fica à margem das discussões globais. Por isso, Sheryss destaca a importância de lutar coletivamente e de que os líderes se atentem para essas questões. Em Moçambique, mais de 2 milhões de pessoas vivem com HIV, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas Sobre HIV/aids (UNAIDS).

Segundo a ativista, a parceria entre Brasil e Moçambique pode contribuir para importantes avanços, especialmente por serem países de língua portuguesa.

Ela finaliza deixando uma mensagem para o mundo: “Não subestimem Moçambique. Somos fortes, resilientes e cheios de potencial.”

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
@sheryss_saide


