“Não existe marcador biológico”: no Roda Viva, neuropediatra José Salomão Schwartzman critica protocolos frágeis no diagnóstico do autismo

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Especialista aponta crescimento dos casos, falhas na formação médica e falta de critérios objetivos para identificar o Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de questionar o uso de canabidiol como tratamento

Enquanto o número de diagnósticos de autismo cresce em ritmo acelerado — já atingindo uma em cada 31 crianças — especialistas alertam para um cenário marcado por lacunas científicas e falhas na formação médica. No Roda Viva, o neuropediatra José Salomão Schwartzman detalha os limites dos critérios atuais, a influência genética e ambiental e desmonta expectativas em torno do canabidiol.

A participação no programa, exibido nesta segunda-feira (6), colocou no centro do debate não apenas o crescimento dos diagnósticos no Brasil e no mundo, mas também as fragilidades que ainda cercam a compreensão do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Referência nacional na área, Schwartzman destacou que o aumento dos casos não pode ser explicado por um único fator — e que parte dessa expansão também está relacionada à forma como o diagnóstico é conduzido.

“O aumento exponencial do autismo não tem uma explicação, tem várias explicações. É uma coisa que a gente discute muito hoje. Por outro lado, todos os protocolos de hoje são estritamente frouxos, eles não definem claramente a que se propõem. E você não tem um fator marcador biológico para reconhecer”, afirmou o neuropediatra.

A ausência de um marcador biológico objetivo, segundo ele, torna o diagnóstico dependente de critérios clínicos que ainda carecem de maior precisão — o que abre margem para interpretações distintas e amplia a complexidade do cenário.

Canabidiol: entre expectativas e evidências científicas

O debate também avançou sobre um tema que tem ganhado visibilidade nos últimos anos: o uso de medicamentos à base de canabidiol no tratamento do autismo.

Sem descartar totalmente os efeitos observados em contextos específicos, Schwartzman fez questão de estabelecer limites claros entre percepção e evidência científica.

“Todos os estudos feitos com canabidiol em autismo refletem discretas melhoras em alguns aspectos, como na comunicação e na diminuição de estereotipias. Mas, se você considerar as grandes pesquisas, com todo o material já produzido, não há nenhuma evidência de que o canabidiol, tal como ele existe hoje, ajude no autismo. Pode ajudar em casos de epilepsia refratária, mas não no autismo”, afirma José Salomão Schwartzman.

O neuropediatra reforçou que, atualmente, o uso do canabidiol está respaldado principalmente em outras condições clínicas, como epilepsia refratária, dores crônicas e cuidados com pacientes terminais — e não como tratamento para o TEA.

Diagnóstico precoce esbarra na formação médica

Outro ponto crítico abordado durante a entrevista diz respeito à capacidade do sistema de saúde em identificar precocemente sinais do autismo — etapa considerada decisiva para o desenvolvimento das crianças.

Para Schwartzman, há uma lacuna importante na formação dos profissionais de saúde no Brasil, especialmente entre pediatras.

“O médico brasileiro não tem, em geral, uma formação adequada do ponto de vista do desenvolvimento, não só do desenvolvimento neurológico. Muito frequentemente, o médico formado no Brasil é um profissional que faz puericultura, que reconhece as doenças mais tradicionais, mais fáceis de serem observadas, e conhece pouquíssimo sobre questões como deficiência intelectual, que, lamentavelmente, acabam sendo da alçada do especialista”, afirma o especialista.

Ele defende que o diagnóstico do TEA não deveria ficar restrito aos especialistas, justamente por se tratar de uma condição frequente e que exige identificação precoce para melhores resultados no cuidado.

Genética, ambiente e os “gatilhos” do autismo

Provocado pelo apresentador Ernesto Paglia sobre possíveis sinais e fatores associados ao autismo, Schwartzman reforçou que o TEA é uma condição complexa, com múltiplas determinações.

“O autismo, hoje, você considera que é uma desordem que depende fundamentalmente, na maioria dos casos, de uma genética que é a base para que você possa ser autista e, muito frequentemente, você precisa de um gatilho”, diz José Salomão.

Ele explicou que, em situações de forte herança genética, fatores externos podem sequer ser necessários para o desenvolvimento da condição.

“Se você tiver uma carga genética muito forte, eu não preciso do gatilho. Tem família que tem seis filhos autistas. Eu tenho famílias que têm filho, neto, bisneto, tataravô autistas. Nesses casos, a carga genética é de tal importância que eu não preciso de um gatilho”, ressalta.

Ao mesmo tempo, o especialista destacou que fatores ambientais — especialmente durante o período intrauterino — vêm sendo cada vez mais estudados e podem influenciar a probabilidade de desenvolvimento do autismo.

E reforça um dos pontos centrais da discussão atual: “Não existe um marcador biológico para reconhecer a presença de TEA”, diz Salomão Schwartzman.

Durante a edição do programa, o neuropediatra ressaltou, por exemplo, que não há evidência científica que ligue o uso de Tylenol ao autismo.

“Não há nenhuma relação, isso trouxe danos. O Tylenol é o único analgésico que você permite para uma gestante. Quando se difundiu essa ideia, de que o Tylenol poderia causar autismo, foi um caos. Esse tipo de coisa acontece toda hora com o autismo, além de promover uma ideia que ninguém sabe de onde veio e as redes sociais disseminam pelo mundo”, afirmou o especialista.

Um debate plural sobre ciência, inclusão e sociedade

A edição reuniu uma bancada diversa, refletindo a complexidade do tema. Participaram Fernanda Brandalise, Francisco Paiva Jr., Gabriel Alves, Luciana Viegas, Silvia Ruiz e Willian Chimura, trazendo diferentes perspectivas — da ciência à vivência.

Com apresentação de Ernesto Paglia, o Roda Viva segue como um dos principais espaços de debate público do país, ampliando discussões que atravessam saúde, ciência e direitos.

Nesta edição, o diagnóstico foi claro: embora o conhecimento sobre o autismo tenha avançado, o Brasil ainda enfrenta desafios importantes para garantir identificação precoce, formação adequada de profissionais e acesso a um cuidado qualificado — elementos essenciais para responder, de forma consistente, ao crescimento dos casos.

Assista ao programa na íntegra:

Redação da Agência de Notícias da Aids 

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