A COP30 reuniu o mundo para discutir soluções diante da emergência climática, mas deixou para trás um elemento fundamental da equação: as pessoas. É assim que a ativista María Elias Silveira, representante regional do MNCP (Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas), descreve a ausência quase total de saúde e prevenção na conferência — um apagamento que, segundo ela, evidencia o quanto o Brasil e o Pará ainda falham em integrar clima, cuidado e direitos humanos. Em entrevista à jornalista Fabi Mesquita, María relata um cenário de “vazio” e “desatenção”, no qual temas como testagem, PrEP, preservativos e acolhimento ficaram restritos à atuação isolada da sociedade civil, enquanto governos municipais e estaduais permaneceram ausentes. Para quem vive com HIV, diz ela, as mudanças climáticas não são um conceito abstrato: são enchentes que impedem o acesso a medicamentos, barreiras geográficas que isolam comunidades inteiras e desigualdades que se aprofundam quando políticas públicas não chegam. O recado que María traz da COP30 é direto — sem saúde, não há transição possível; sem prevenção, não há futuro. E se a conferência quer realmente discutir justiça climática, precisa colocar no centro quem enfrenta, todos os dias, vulnerabilidades que o aquecimento global só agrava.
Confira a entrevista à seguir:
Como você viu a relação entre clima e saúde na COP30?
Olha, a COP fala muito de clima, né? Mas saúde quase não apareceu. Eu senti que ficou um buraco ali. Em outros lugares a gente vê vacina na entrada, testagem, camisinha, orientação, gente da saúde por perto. Aqui não teve isso. Faltou cuidado.
O que você acha que mais faltou na parte de saúde?
Faltou prevenção. Faltou informação. Faltou alguém falando de PrEP, de testagem, de proteção. Coisas simples que ajudam muita gente. Parecia que saúde não era importante ali.
A sociedade civil fez alguma ação?
Fez sim. A Humanitas, por exemplo, trabalhou no domingo, dia 16. Eles distribuíram camisinha, gel, falaram com o povo, explicaram direitinho. Também acompanharam o bloco Chiquita Day, que tem um público LGBTQIA+. Eles conversaram, entregaram insumos e foram acolhendo as pessoas.
Mesmo assim você disse que sentiu um vazio. Por quê?
Porque só as ONGs não dão conta, né? Faltou o estado, faltou o município. Parece até que falar de HIV ainda é tabu. Não deveria ser. Muita gente precisa dessas informações até por questões de quebra de preconceito, se cuidar e melhorar as estatísticas de infecções sexualmente transmissíveis e evitar o aquecimento por Aids.
Como as mudanças climáticas afetam pessoas que vivem com HIV?
Afeta muito. Muita gente mora em área que alaga, que cai barranco, que fica isolada. Aí a pessoa não consegue pegar o remédio, não consegue ir ao médico. Isso atrapalha tudo. Quem vive com HIV sofre ainda mais com esses problemas.
O que deveria ter sido feito?
Ah, tinha que ter mais ação de saúde. Mais prevenção, mais informação, mais agente de saúde por perto. Tinha que ter campanha, tinha que ter acolhimento. Isso faltou demais.
Qual recado você deixa depois de viver isso na COP30?
Eu digo que saúde tem que estar no centro. Não dá pra falar de clima e esquecer das pessoas. Prevenção é cuidado, é vida. E faltou muito disso aqui. Espero que na próxima tenha mais atenção, mais presença da saúde e mais respeito com quem vive essas vulnerabilidades no dia a dia. Porque prevenção não pode faltar jamais. Égua, isso precisa melhorar muito no Pará e no Brasil inteiro.
Fabi Mesquita, de Belém do Pará, especial para a Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
MNCP
Site: www.mncp.org.br




