
Ativistas do movimento brasileiro de luta contra a aids soaram o alarme após a divulgação do novo Relatório Global sobre a Aids 2025, lançado nesta quinta-feira (10) pelo Unaids. O documento aponta que a crise de financiamento internacional está colocando em risco décadas de avanços na resposta ao HIV, podendo causar até 6 milhões de novas infecções e 4 milhões de mortes até 2029.
“O relatório é revelador e necessário, porque mostra que a epidemia nunca foi apenas uma questão médica — é uma questão ética, social e política. E exige compromisso real, não austeridade”, afirmou Renata Souza, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP). Já a ativista Alessandra Nilo, da ONG Gestos, reforça: “Apesar de todos os avanços científicos, o que vemos é uma ausência de compromisso político global. Estamos diante de um cenário gravíssimo”.
O relatório denuncia cortes abruptos em serviços essenciais em países de alta prevalência, como Moçambique, onde mais de 30 mil profissionais de saúde foram afetados, e Nigéria, que viu a oferta de PrEP cair de 40 mil para 6 mil pessoas/mês. Ao todo, 9,2 milhões de pessoas vivendo com HIV seguem sem tratamento, incluindo 620 mil crianças. Em 2024, 630 mil pessoas morreram por causas relacionadas à aids, com 61% dessas mortes concentradas na África Subsaariana. Entre adolescentes e jovens mulheres, foram 210 mil novas infecções no último ano — cerca de 570 por dia.
Além do colapso dos serviços, organizações comunitárias estão perdendo apoio financeiro em ritmo alarmante: mais de 60% das iniciativas lideradas por mulheres vivendo com HIV deixaram de receber recursos em 2025. O PEPFAR, programa dos EUA, que apoiava milhões de pessoas com ações de prevenção, teve vários projetos suspensos após cortes do governo norte-americano.
“Trata-se de uma necropolítica internacional. Quando a resposta depende da vida de pessoas negras, pobres, LGBTI+, ela é a primeira a ser cortada”, disse João Geraldo Neto*, do Instituto Multiverso. “É inadmissível que, em 2025, ainda se discuta quem merece viver.”
Brasil é destaque, mas enfrenta desafios
Apesar do cenário global preocupante, o Brasil foi citado como exemplo positivo no relatório. Em 2024, o país alcançou 96% de diagnóstico entre pessoas com HIV, 82% em tratamento e 95% com carga viral indetectável. O documento destacou o projeto Trans Amigas, que mostrou aumento de 40% na adesão ao tratamento entre mulheres trans acompanhadas por pares, e um estudo que relacionou o Bolsa Família à redução de 41% na incidência de HIV e 39% na mortalidade relacionada à aids.
No entanto, ativistas brasileiros alertam para os riscos da estagnação. “Temos um orçamento previsto, mas ainda não liberado. Muitas ONGs seguem trabalhando sem apoio financeiro do Estado”, afirmou Eduardo Barbosa, do Grupo Pela Vidda/SP e da Anaids. “O relatório mostra que precisamos retomar a priorização da aids como questão estratégica de saúde pública.”
Confira a seguir a fala dos ativistas na íntegra:
Renata Souza, representante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas no Conselho Nacional de Saúde:
“O relatório do Unaids é extremamente preocupante, mas também revelador de caminhos possíveis, o numero de pessoas sem tratamento mostra que, mesmo após décadas de respostas globais à epidemia de HIV, a desigualdade no acesso a tratamento persiste. Muitas dessas pessoas estão em países de baixa renda, em regiões marcadas por estigma, discriminação e negligência estrutural. O dado também expõe o abismo entre os avanços tecnológicos e científicos e a sua implementação real nos territórios. O MNCP já pontua nos espaços de fala que a resposta ao HIV nunca foi apenas uma questão médica — ela é política, social e econômica. Cortar investimentos agora é comprometer todo o esforço das últimas décadas e retroceder no que já foi conquistado. Em relação as comunidades, este é, talvez, o ponto mais estratégico e esperançoso do relatório. Onde há fortalecimento das comunidades locais, onde se atua com base nos direitos humanos, os resultados aparecem. Não é só sobre distribuir remédios, é sobre ouvir, incluir, proteger e garantir dignidade. Políticas públicas que envolvem a população LGBTQIAPN+, pessoas negras, periféricas, trabalhadoras do sexo, usuários de drogas, por exemplo, têm impacto direto na prevenção e no cuidado. O relatório faz todo sentido e mostra que o caminho não é só técnico, mas profundamente ético e político. Precisamos de mais investimento, sim, mas também de coragem para enfrentar o estigma, rever prioridades orçamentárias e reconhecer que a vida das pessoas que vivem com HIV e aids não pode ser descartada em nome de uma austeridade econômica que só favorece poucos. Saúde, não é mercadoria!”
Alessandra Nilo, jornalista e co-fundadora da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero:
“Todos estamos muito preocupados com essa situação atual, gravíssima que nós enfrentamos, porque nesse momento que realmente está indicado é que apesar dos avanços da ciência, apesar da possibilidade de a gente acabar com a aids até 2030 como uma pandemia, nós vemos que não há e não houve compromisso suficiente dos governos no mundo inteiro para responder de uma forma articulada e organizada aos cortes que foram feitos pelo governo Trump, que teve um impacto imenso na cooperação internacional. Então, para a gente é um cenário muito preocupante e significa que nós precisamos nos mobilizar mais enquanto a sociedade se viu, significa que nós precisamos retomar uma onda de ativismo muito forte. Porque nessa guerra contra os direitos, a saúde tem sido uma das principais vítimas.”
João Geraldo Neto, influenciador digital e co-fundador do Instituto Multiverso:
“O novo relatório do Unaids expõe com força a gravidade da crise de financiamento que ameaça reverter décadas de avanços na resposta ao HIV. Com 9,2 milhões de pessoas ainda sem tratamento, não se trata de falta de tecnologia, mas de ausência de compromisso com vidas negras, pobres, LGBTI+ e outras populações vulnerabilizadas. Os cortes abruptos dos EUA revelam uma necropolítica que trata essas vidas como descartáveis, numa pandemia que sempre foi marcada por desigualdades. Ainda assim, onde há investimento, há progresso. Podemos ver nos países africanos que apostaram em protagonismo comunitário e sistemas públicos e alcançaram as metas 95-95-95. É inadmissível que, em 2025, ainda discutamos quem merece viver. A solidariedade internacional precisa ser ética e estratégica. O Brasil ainda é exemplo, mas tem muito o que melhorar. Avançou pouquíssimo nos últimos anos. Acreditar na transformação é possível, mas só se agirmos com urgência, coragem e compromisso agora. A vida de milhões de pessoas tem pressa.”
Eduardo Barbosa, presidente do Grupo Pela Vidda São Paulo, coordenador do Mopaids (Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids) e Secretário Político da Anaids:
“O recente relatório do Unaids reflete a dura realidade do enfrentamento do HIV/aids no mundo. Depois de quase cinco décadas, ainda esbarramos em questões ideológicas e financeiras para superar os desafios. É nítido o retrocesso vindo de posturas como a do atual presidente americano, mas também de congressistas no Brasil e no mundo, assim como de outros governos, como os do Mali, Uganda e Trinidad e Tobago, que criminalizam e afastam pessoas em situação de maior vulnerabilidade do acesso a serviços e direitos. Temos que lembrar que a aids não tem fronteiras. Aquilo que afeta os países de baixa e média renda também impacta os países de economia forte. As recentes medidas tomadas pelo governo americano, com a retirada de recursos dos seus programas, afetam diretamente populações em situação de maior vulnerabilidade, mas também atingem o próprio povo americano. É urgente que os países — como alguns já vêm fazendo — invistam mais e melhor em seus próprios territórios para o enfrentamento da aids. Ter ainda milhões de mortes e números alarmantes de novas infecções coloca em risco tudo o que construímos ao longo das décadas. No Brasil, neste momento, temos uma retomada dos programas e projetos de enfrentamento da aids. Mas, também aqui, precisamos de maior compromisso político e financeiro para agilizar a resposta nacional. Até a presente data, temos um orçamento previsto, mas ainda não liberado. As organizações sociais que trabalham com HIV/aids sofrem com o desfinanciamento de suas ações e com atrasos no repasse de recursos de projetos já aprovados. Muitas dessas instituições atuam na base sem o apoio financeiro do Estado e da sociedade — e isso não pode continuar. O relatório reflete a necessidade de uma retomada da priorização do enfrentamento desta epidemia, como uma medida fundamental para garantir que a sociedade não seja afetada, como um todo, pela ruptura de seus processos econômicos e também sociais.”
Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI+:
“Infelizmente, o capitalismo selvagem ataca as pessoas menos privilegiadas e em situação de pobreza. É preocupante. Enquanto sociedade, precisamos retomar aquele ativismo dos anos 1990, com atuação junto aos governos, agências e à sociedade em geral. Vidas estão sendo ceifadas por falta de recursos. A partir dessas informações, temos que nos mobilizar e identificar onde estão os maiores problemas. Já sabemos que os países do continente africano enfrentam dificuldades imensas. E aqui na América Latina, também não estamos em um céu de brigadeiro — os desafios persistem. Estamos em alerta e precisamos resgatar aquele ativismo mais intenso, mais incisivo, que foi suavizado nas últimas décadas. A situação é muito grave e delicada. É uma situação periclitante. São muitas vidas em jogo. O grande problema tem sido a política externa dos Estados Unidos, especialmente desde o governo Trump. Trata-se de uma política da morte, e nós, ativistas, precisamos debater esse cenário nos âmbitos nacional e internacional. Temos que acionar nossas redes e abrir diálogo com os BRICS, que representam uma possibilidade concreta de enfrentamento à hegemonia dos EUA. Também é essencial buscar articulação com a União Europeia e com governos estaduais e locais de diferentes países. Precisamos encontrar novas formas de financiamento para minimizar essa situação tão preocupante.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dicas de entrevista
MNCP
Site: www.mncp.org.br
ONG Gestos
Tel.: (81) 3421-7670
Instituto Multiverso
Site: www.institutomultiverso.org
Grupo Pela Vidda São Paulo
Tel.: (11) 3258-7729
Aliança Nacional LGBTI+
Site: www.aliancalgbti.org.br


