“Não é o fim da epidemia, é o fim do financiamento”: cortes no financiamento global ameaçam resposta à aids e pesquisa científica, alertam especialistas

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Em um duro diagnóstico sobre o futuro da resposta global ao HIV, especialistas reunidos pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) denunciaram nesta terça-feira (30) que os cortes internacionais de financiamento — liderados pelos Estados Unidos — colocam em risco não apenas o acesso a tratamento e prevenção em países pobres, mas também a própria estrutura científica construída em quatro décadas de enfrentamento da epidemia.

Eles participaram do seminário “Financiamento e Sustentabilidade na Resposta Global ao HIV/Aids”. Para além da falta de recursos, alertaram que o maior perigo é o apagamento da aids da agenda pública — um silêncio que ameaça vidas e fragiliza o futuro da resposta global.

O multilateralismo em xeque

Abrindo os debates, o assessor sênior do Unaids para acesso a medicamentos, Carlos Passarelli, destacou que a questão do financiamento do HIV está profundamente atravessada por disputas políticas e geopolíticas. Para ele, a redução de aportes a organismos multilaterais — como o Unaids, a OMS e fundos globais de saúde — não se limita a uma decisão orçamentária, mas faz parte de um movimento de despolitização estratégica, em que países doadores procuram enquadrar o multilateralismo a seus interesses.

“Quando falamos no fim do financiamento, não é apenas sobre números. É sobre quem define as prioridades da saúde global. A retirada de recursos não significa que a epidemia terminou; significa que ela será deixada de lado por decreto, sem que as condições concretas tenham sido superadas”, afirmou Passarelli.

Ele lembrou que, enquanto doenças transmissíveis como o HIV continuam a impactar milhões, emergem também crises interligadas: epidemias futuras, o crescimento das doenças crônicas não transmissíveis em países pobres, fluxos migratórios forçados e retrocessos democráticos. Neste cenário, a lógica de financiamento internacional, fortemente marcada pelo neoliberalismo e pela filantropia condicionada, tem mostrado seus limites: sustenta projetos pontuais, mas não altera os determinantes estruturais da saúde.

Pesquisas em risco: “um retrocesso histórico”

A fala mais contundente do seminário veio da presidente da International Aids Society (IAS), Dra. Beatriz Grinsztejn, que alertou para o impacto devastador dos cortes de financiamento internacional sobre a pesquisa e os serviços de prevenção e tratamento.

Segundo dados apresentados por ela, em 2024 foram registrados cerca de 630 mil óbitos relacionados ao HIV, sendo 60% na África Subsaariana, e mais de 210 mil adolescentes e jovens mulheres infectaram-se pelo vírus. “Estamos na contramão da meta 95-95-95 da ONU. Em vez de avançar, retrocedemos”, afirmou.

A pesquisadora ressaltou que países como Moçambique, cuja resposta ao HIV depende em mais de 90% de recursos do PEPFAR (plano emergencial dos EUA), estão à beira do colapso diante da reestruturação e cortes massivos. No caso da Nigéria, citou, a oferta de PrEP para homens que fazem sexo com homens caiu 74% em apenas dois meses.

“Os serviços voltados a populações vulneráveis — gays, homens que fazem sexo com homens, travestis e pessoas trans — eram quase totalmente dependentes do financiamento externo. Quando esses recursos são cortados, não há substituição nacional. O que vemos é um desmonte direto da rede de prevenção e cuidado”, denunciou.

Na pesquisa científica, o cenário é igualmente grave. A Dra. Beatriz relatou a interrupção de estudos internacionais financiados pela USAID e pelo NIH, incluindo protocolos que envolviam milhares de voluntários. Em alguns casos, pessoas foram deixadas sem acompanhamento após receberem medicamentos experimentais de longa duração, o que configura um risco ético inaceitável.

Ela lembrou que o governo Trump já havia proposto cortes de 40% no orçamento do NIH voltado ao HIV, e que a nova administração americana vem consolidando essa guinada. Isso compromete não só a busca por uma vacina, mas também pesquisas em novas drogas, resistência ao tratamento e estratégias de cura.

“Sem financiamento estável, corremos o risco de perder avanços históricos. O HIV foi a base da estrutura científica que permitiu respostas rápidas à covid-19. Enfraquecer a pesquisa em aids é fragilizar toda a capacidade global de enfrentar futuras pandemias”, afirmou a médica.

O papel do SUS e os desafios nacionais

A ativista Carla Almeida, da Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (Anaids), trouxe a discussão para o cenário brasileiro. Para ela, a existência do Sistema Único de Saúde (SUS) tem garantido que o país não sofra com o mesmo nível de impacto que outras regiões diante da retirada de recursos internacionais.

No entanto, Carla alertou para o subfinanciamento crônico do SUS, agravado pela Emenda Constitucional do Teto de Gastos (EC 95) e por cortes recentes que atingem diretamente a resposta comunitária ao HIV. Projetos aprovados em editais federais de 2024, por exemplo, ainda não tiveram repasses concluídos em outubro de 2025.

“Estamos sem nenhum calendário federal de financiamento para a resposta comunitária em 2025. Isso significa fragilizar a base da resposta brasileira, construída historicamente com protagonismo da sociedade civil”, disse.

Carla tambêm chamou atenção para o apagamento da aids da agenda política. “O HIV aparece cada vez menos nas prioridades do governo e nas peças orçamentárias. Esse apagamento é um risco silencioso, que esvazia a relevância política do tema e enfraquece a resposta comunitária”, afirmou.

Segundo ela, discutir a epidemia implica enfrentar temas que ainda são considerados “tabus” no Congresso e no Executivo, como direitos sexuais e reprodutivos, políticas para a população LGBTQIA+, legalização de drogas e aborto. “Enquanto essas pautas forem evitadas, a resposta ao HIV continuará sendo marginalizada”, criticou.

O diretor-presidente da ABIA, Richard Parker, reforçou que o objetivo do encontro não era oferecer soluções fáceis, mas diagnosticar a gravidade da conjuntura.

“O que mais me preocupa é o apagamento da aids das instituições e dos discursos. É como se tivessem decidido pelo fim da epidemia sem fazer o que precisa ser feito. A situação é grave, e não há saídas simples. Mas cabe a nós apontar os problemas, denunciar os retrocessos e manter viva a solidariedade que sempre esteve na base da luta contra a aids.”

Um chamado político

Para os especialistas, a sustentabilidade da resposta à aids não se resume a cálculos orçamentários, mas envolve uma disputa de prioridades no campo da política global e nacional. A mensagem foi clara: sem financiamento contínuo, sem ciência e sem participação comunitária, não há como avançar rumo ao fim da epidemia.

Como sintetizou dra. Beatriz Grinsztejn:

“Enfraquecer a ciência e os direitos humanos é correr o risco de reverter décadas de progresso e abrir caminho para novas pandemias. Precisamos de cooperação internacional baseada na solidariedade, na ciência e na centralidade da vida humana.”

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

ABIA
E-mail: abia@abiaaids.org.br

Apoios