Simpósio reúne especialistas e ativistas de diferentes países para defender que combater a discriminação exige transformar sistemas de poder, fortalecer organizações comunitárias e colocar os direitos humanos novamente no centro da resposta ao HIV
Mais de quatro décadas depois do início da epidemia de HIV, um dos maiores desafios da resposta global continua sendo o mesmo: o estigma. Mas, diante do avanço da extrema direita, da redução do financiamento internacional e do recrudescimento das desigualdades, apenas aprender a sobreviver à discriminação já não é suficiente.
Foi essa a principal mensagem do simpósio “Além da Resiliência: Construindo Resistência contra o Estigma e a Discriminação para Populações-Chave em Ambientes de Saúde”, realizado nesta quarta-feira (29), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro.
Moderado pelo antropólogo Richard Parker, fundador da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e uma das maiores referências mundiais nos estudos sobre estigma e direitos humanos, o debate propôs uma mudança profunda na maneira como a resposta ao HIV vem enfrentando a discriminação.
Para Parker, o conceito de resiliência, tão valorizado nos últimos anos, pode ser insuficiente quando as estruturas que produzem exclusão permanecem intactas. “Se quisermos continuar avançando na resposta ao estigma relacionado ao HIV, precisamos ir além da resiliência e construir resistência. Isso significa enfrentar barreiras estruturais, interromper sistemas de poder, fazer política e lutar contra a opressão.”
Da terceira epidemia ao desafio atual
Ao reconstruir a história da epidemia, Parker lembrou que, nos anos 1980, quando praticamente não havia tratamento disponível, a resposta à aids foi construída sobre valores como solidariedade e direitos humanos.
Ele recordou que o fundador da ABIA, Herbert de Souza (Betinho), foi um dos primeiros líderes mundiais a afirmar que a aids era uma questão de direitos humanos — antes mesmo de essa perspectiva ganhar espaço nas Nações Unidas.
Segundo Parker, desde aquela época a Organização Mundial da Saúde passou a falar em três epidemias simultâneas: a infecção pelo HIV; a doença causada pelo vírus; e uma terceira epidemia, marcada pelo estigma e pela discriminação.
Embora os avanços científicos tenham transformado radicalmente o tratamento e a prevenção, essa terceira epidemia permanece viva. “O tratamento evoluiu. A prevenção evoluiu. Mas tivemos muito menos sucesso em combater o estigma”, alertou.
Para ele, o cenário atual tornou-se ainda mais preocupante diante dos cortes globais de financiamento, da polarização política e do crescimento de movimentos conservadores que atingem justamente as populações mais vulneráveis ao HIV.
“Resiliência pode significar apenas suportar”
Grande parte da apresentação de Parker foi dedicada a explicar por que o conceito de resiliência precisa ser revisto. Na ecologia, lembrou, resiliência significa recuperar-se depois de um choque. Na psicologia, representa a capacidade de uma pessoa superar adversidades.
O problema, segundo ele, é que esse conceito pode deslocar a responsabilidade do sistema para o indivíduo. Em outras palavras, espera-se que a pessoa aprenda a suportar o preconceito em vez de transformar as estruturas que produzem discriminação. “A adaptação psicológica não basta quando o estigma continua crescendo ao nosso redor”, argumentou.
A resposta, afirmou, deve ser coletiva.
Trabalho sexual: quando o estigma afasta a prevenção

A pesquisadora Dulce Ferraz, da Universidade Lumière Lyon, apresentou resultados do estudo PISTAS, desenvolvido entre Brasil e França com mulheres cisgênero trabalhadoras do sexo.
O objetivo foi compreender por que essa população continua pouco representada entre usuárias da PrEP.
Hoje, apenas cerca de 6% das pessoas em uso da profilaxia pré-exposição no Brasil são mulheres cisgênero, realidade que, segundo ela, não se explica pela falta de interesse, mas pelas barreiras estruturais que dificultam o acesso aos serviços.
A revisão de 53 estudos mostrou que o principal obstáculo continua sendo o estigma, acompanhado por vulnerabilidade social, condições precárias de trabalho e discriminação institucional.
Por outro lado, iniciativas lideradas pela comunidade, com informação qualificada, apoio entre pares e serviços organizados junto às próprias trabalhadoras do sexo, apresentam melhores resultados na permanência e adesão à PrEP.
Pessoas que usam drogas: “Não somos difíceis de alcançar. Os serviços é que são difíceis de acessar”

Uma das falas mais contundentes veio do representante da comunidade de pessoas que usam drogas, Jonathan Gobeil. Falando a partir da própria experiência, ele descreveu como o medo, a desconfiança e sucessivas experiências de maus-tratos afastam usuários dos serviços de saúde.
“Quando uma pessoa entra em um serviço de saúde, ela se pergunta: estarei segura aqui? Posso confiar nesse profissional? Posso confiar no sistema?”, relatou.
Segundo ele, pequenas atitudes de julgamento ou invalidação podem determinar se alguém jamais retornará ao serviço.
Gobeil também criticou a forma como muitos sistemas responsabilizam as populações vulneráveis pela baixa procura dos serviços.
Citando uma liderança da comunidade, resumiu: “Quando dizem que pessoas que usam drogas são difíceis de alcançar, na verdade estão dizendo que os serviços são difíceis de acessar.”
Sua defesa foi clara: fortalecer organizações de pares, investir em redução de danos, ampliar o apoio comunitário e criar ambientes onde as pessoas sejam ouvidas antes de serem julgadas.
Migração amplia camadas de exclusão

A pesquisadora Annick Borquez, da Universidade da Califórnia em San Diego, abordou outro eixo central do debate: a interseccionalidade.
Migrantes vivendo com HIV, explicou, enfrentam não apenas barreiras relacionadas ao status migratório, mas também racismo, homofobia, transfobia, discriminação linguística, pobreza e insegurança alimentar.
Mesmo em países onde existem serviços disponíveis, muitos migrantes deixam de procurar atendimento por medo de deportação, perda do emprego ou desconhecimento de seus direitos.
Entre as estratégias apresentadas estão: navegadores de pares; campanhas culturalmente adaptadas; clínicas móveis; fortalecimento de organizações comunitárias; formação de profissionais em competência cultural e redução do estigma.
Para Borquez, apoiar a resiliência das populações migrantes é importante, mas insuficiente. “Precisamos apoiar sua capacidade de enfrentar as dificuldades enquanto desafiamos os sistemas de opressão que continuam produzindo essas vulnerabilidades.”
Direitos humanos voltam ao centro da discussão
O debate ganhou ainda mais força durante as perguntas do público. Uma participante questionou como será possível cumprir a meta global de eliminar o estigma como ameaça à saúde pública até 2030 sem que ele se torne prioridade absoluta das políticas públicas.
Outro ponto levantado foi a necessidade de incorporar pessoas vivendo com HIV, usuários de drogas, profissionais do sexo, pessoas LGBTQIA+ e outras populações-chave dentro da própria força de trabalho em saúde.
Os debatedores defenderam que profissionais e navegadores de pares podem reduzir significativamente experiências de discriminação, aumentar a confiança e facilitar o acesso ao cuidado.
Uma mudança de paradigma
Ao longo de todo o simpósio, uma ideia atravessou as diferentes apresentações. Não basta oferecer medicamentos inovadores, testes ou novas tecnologias se os serviços continuam produzindo medo, exclusão e violência simbólica.
A resposta ao HIV depende, cada vez mais, da capacidade de transformar instituições, redistribuir poder e fortalecer organizações lideradas pelas próprias comunidades. Ao propor substituir a lógica da adaptação pela da transformação, Richard Parker resumiu o espírito do encontro.
Mais do que ensinar pessoas vulneráveis a suportar o preconceito, chegou a hora de construir condições para que elas possam enfrentá-lo — e mudá-lo.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




