Em um momento em que a resposta global ao HIV enfrenta uma de suas maiores crises desde o início da epidemia, a diretora executiva da International Treatment Preparedness Coalition (ITPC), Solange Baptiste, lançou um alerta que sintetizou o espírito da pré-conferência da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026): o desafio do presente já não é apenas garantir medicamentos, mas preservar a justiça que sustenta o acesso ao tratamento.
Ao encerrar a sessão “O tratamento em uma encruzilhada – crise, poder e a situação do movimento”, Baptiste afirmou que as profundas mudanças políticas, econômicas e sociais vividas no mundo exigem uma nova forma de pensar a resposta à epidemia.
“O que ouvimos esta manhã não foram histórias isoladas de países, mas diferentes expressões do mesmo tipo de mudança global que todos estamos testemunhando. Portanto, o desafio que temos pela frente não é mais simplesmente proteger o tratamento. Era disso que costumávamos falar, mas agora estamos realmente repensando como proteger a justiça no tratamento em um mundo muito diferente.”
A declaração resumiu horas de debate entre pesquisadores, ativistas, representantes de organizações comunitárias e lideranças internacionais sobre um cenário marcado pela redução do financiamento internacional, pelo enfraquecimento do multilateralismo, pelo avanço de movimentos conservadores e pelas incertezas sobre o futuro da resposta global ao HIV.
Embora cada país apresente desafios próprios, a avaliação compartilhada pelos participantes foi de que essas dificuldades fazem parte de uma transformação global que ultrapassa fronteiras e exige novas estratégias de mobilização política, fortalecimento comunitário e defesa dos direitos humanos.
Nesse contexto, o advogado queniano Allan Achesa Maleche destacou que o próximo capítulo da resposta ao HIV dependerá menos da existência de novas tecnologias e mais da capacidade de proteger aquilo que historicamente permitiu que elas chegassem às pessoas: a liderança das comunidades e a pressão da sociedade civil sobre os governos.
“Para mim, acho que se continuarmos firmes na proteção da liderança comunitária; se continuarmos a proteger os direitos humanos; e se continuarmos a desempenhar o papel de responsabilização, como fizemos no Quênia ao cobrar do governo dos EUA o acordo que firmou no Quênia, acredito que o próximo capítulo da resposta ao HIV pode ser tão transformador quanto o anterior.”
Ao longo da sessão, diferentes experiências mostraram que a resposta ao HIV atravessa um momento de inflexão. A preocupação já não se limita ao acesso às novas tecnologias de prevenção e tratamento, mas inclui a sustentabilidade das políticas públicas, o financiamento das organizações comunitárias e a preservação dos mecanismos de participação social que, nas últimas décadas, foram decisivos para transformar a epidemia.
Outro ponto recorrente foi o alerta para o ressurgimento da falsa dicotomia entre prevenção e tratamento — um debate considerado superado pelo movimento da aids, mas que volta a aparecer em meio à disputa por recursos cada vez mais escassos.
Para os participantes, enfrentar esse novo cenário exige muito mais do que inovação científica. Será necessário reconstruir alianças políticas, fortalecer organizações lideradas pelas comunidades e garantir que os avanços da ciência sejam acompanhados de equidade, direitos humanos e justiça social.
Participaram da sessão Michael Reid, da Universidade da Califórnia em San Francisco (Estados Unidos); Allan Achesa Maleche, da Kenya Legal & Ethical Issues Network on HIV & AIDS; Solange Baptiste, da International Treatment Preparedness Coalition (ITPC); María Lorena Di Giano, da Red Latinoamericana por el Acceso a Medicamentos (Argentina); Marina Chokheli, da TBpeople Georgia; Jorge Luis Díaz, da Aid for AIDS (Colômbia); Dmytro Sherembei, da organização 100% Life (Ucrânia); e Ndivhuwo Rambau, da iniciativa Ritshidze – Saving Our Lives (África do Sul).
Ao encerrar o encontro, Solange Baptiste deixou uma mensagem que extrapola a discussão sobre medicamentos e financiamento. Em um mundo marcado por crises sucessivas e desigualdades crescentes, afirmou, proteger o tratamento continua sendo indispensável. Mas garantir que ele chegue a todas as pessoas passa, antes de tudo, por defender justiça, direitos e o protagonismo das comunidades que sempre estiveram na linha de frente da resposta ao HIV.
Bárbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



