Longas distâncias, falhas na assistência e ausência de preparo dos serviços agravam o cenário do HIV nas aldeias
No Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, a discussão sobre saúde ganha contornos urgentes quando o assunto é HIV. Apesar dos avanços no tratamento e na prevenção no Brasil, a realidade em territórios indígenas ainda é marcada por desigualdades profundas, invisibilidade e ausência de políticas públicas efetivas.
Para Johnnata Silva dos Santos, do povo Anapuru Muypurá, estudante de medicina da Universidade do Estado do Amazonas e atuante na área de saúde e sexualidade indígena, o cenário é atravessado por determinantes sociais e pela fragilidade da presença do Estado em regiões mais afastadas.
“O HIV é uma doença socialmente determinada. Quando a gente olha para territórios com ausência do Estado, com pobreza e falta de infraestrutura, o vírus entra e não há tratamento adequado”, afirma.
Diagnóstico tardio e acesso limitado
Nas comunidades indígenas, o acesso à saúde não é apenas uma questão de disponibilidade, mas de distância, muitas vezes extrema. Segundo Johnnata, há aldeias onde o deslocamento até uma unidade de saúde pode levar dias. “Tem comunidades que levam cinco, sete dias para chegar até um serviço de saúde. Imagina fazer isso para retirar medicamento e ainda precisar de acompanhamento com exames laboratoriais constantes”, explica.
Esse cenário impacta diretamente no diagnóstico. Muitos casos de HIV são descobertos tardiamente, quando o organismo já apresenta sinais de agravamento.
“Eles não chegam por causa do HIV. Chegam por outra doença, uma febre que não passa, uma tosse persistente, e acabam descobrindo o diagnóstico ali, de forma ocasional”, relata.
Tratamento desigual e risco aumentado
A dificuldade de acesso também compromete a continuidade do tratamento. Mesmo em áreas urbanas da região Norte, o acompanhamento já enfrenta barreiras — realidade que se agrava ainda mais nos territórios indígenas.
Além disso, a presença de outras doenças infecciosas amplia os riscos. “A tuberculose atinge três vezes mais indígenas. Quando associada ao HIV, o risco de morte é muito maior”, destaca.
A alta taxa de mortalidade, segundo ele, é um indicativo claro de falhas no sistema: “Se as pessoas estão morrendo mais, é porque o tratamento não está chegando como deveria”.
Prevenção sem diálogo não funciona
Outro ponto crítico está na prevenção. Para o estudante, não se trata de resistência cultural, mas de ausência de políticas adequadas. “Não dá para dizer que as pessoas não usam preservativo ou não se previnem. A questão é: essas ferramentas estão sendo realmente disponibilizadas? A informação está chegando de forma adequada?”, questiona.
Ele reforça que a prevenção precisa considerar as especificidades culturais e linguísticas de cada povo. “São mais de 300 povos indígenas no Brasil. Cada um tem sua forma de compreender o mundo. Não existe uma abordagem única que funcione para todos”.
Falta de dados e invisibilidade
A ausência de informações confiáveis sobre HIV em populações indígenas também dificulta a formulação de políticas públicas eficazes.
“Os estudos ainda são muito limitados. Muitas vezes surgem apenas em situações emergenciais, quando há aumento de casos. Falta pesquisa contínua, que realmente dê dimensão do problema”, afirma.
Sem dados, não há planejamento, e sem planejamento, a resposta ao HIV permanece insuficiente.
Falha estrutural e necessidade de ação
Para Johnnata, o enfrentamento ao HIV em territórios indígenas depende de uma mudança estrutural, com maior atuação do Estado em diferentes níveis.
“As ações coordenadas do poder público têm falhado na prevenção, no diagnóstico e no tratamento. A gente precisa de investimento, pesquisa e políticas públicas construídas a partir da realidade dos povos indígenas”, defende.
Ele também chama atenção para a necessidade de formação adequada dos profissionais de saúde. “Falta preparo intercultural. Não basta levar o serviço, é preciso saber como atender”.
Garantir o direito à saúde para os povos indígenas ainda é um desafio concreto no Brasil. Enquanto o país avança em tecnologias e estratégias de enfrentamento ao HIV, muitas comunidades seguem lidando com obstáculos básicos como acesso, informação e continuidade do cuidado.
“A gente não pode falar em avanço quando ainda existem pessoas sem acesso ao mínimo”, conclui.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Johnnatan Silva dos Santos
Instagram: @johnnatamuypura




