Encontro realizado antes do MEDTROP 2026 reuniu governo, especialistas, movimentos sociais e pessoas afetadas por doenças infecciosas e negligenciadas para discutir como transformar demandas dos territórios em políticas públicas
Ter diagnóstico, tratamento e tecnologias disponíveis não basta quando essas ferramentas não chegam às populações que mais precisam delas. Essa foi uma das principais mensagens do 2º Fórum de Doenças Negligenciadas, realizado no sábado (15), em Brasília, como parte da programação de pré-evento do MEDTROP 2026.
O encontro reuniu representantes de instituições públicas, movimentos sociais, entidades da área da saúde e pessoas afetadas por doenças infecciosas e negligenciadas para discutir um desafio que vai além da resposta biomédica: como garantir que a participação social influencie, de fato, a formulação, o acompanhamento e a implementação de políticas públicas.
Entre as doenças discutidas estão condições como tuberculose, malária e doença de Chagas, que atingem de maneira mais intensa populações expostas a diferentes formas de vulnerabilidade social e, por isso, vêm sendo cada vez mais tratadas também como doenças determinadas socialmente.
Ao longo da programação, participantes discutiram os espaços de participação social, o papel de lideranças e movimentos organizados e os caminhos para transformar demandas coletivas em propostas concretas capazes de chegar às instituições públicas.
“Nada sobre nós sem nós”
Uma das mesas centrais do fórum teve como tema “Nada sobre nós sem nós: como lideranças transformam demandas sociais em políticas públicas”.
A discussão partiu de um princípio simples, mas fundamental: pessoas diretamente afetadas pelas doenças precisam participar da definição das prioridades, da construção das respostas e da avaliação das políticas que interferem em suas vidas.
Durante a mesa, Draurio Barreira, coordenador-executivo do programa Brasil Saudável e diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs do Ministério da Saúde, chamou atenção para a distância que ainda existe entre a disponibilidade de tecnologias e o acesso real da população.
“Não adianta ter tecnologia, diagnóstico e tratamento se eles não chegam a quem precisa. Temos ferramentas para avançar na eliminação dessas doenças, mas ainda precisamos superar as desigualdades para que elas cheguem a todas as pessoas”, afirmou.
A fala coloca no centro do debate uma das contradições enfrentadas pela saúde pública: em muitas situações, o problema já não está apenas na ausência de conhecimento científico ou de ferramentas terapêuticas, mas na dificuldade de fazer com que essas respostas alcancem os territórios e populações mais vulnerabilizados.
Barreiras geográficas, sociais, econômicas e institucionais podem dificultar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento e contribuir para a permanência de doenças que já poderiam ser mais bem controladas ou eliminadas.
Participação social como parte da resposta
A programação também discutiu como movimentos sociais, pessoas afetadas e lideranças comunitárias podem ajudar a identificar essas barreiras e construir respostas mais próximas da realidade dos territórios.
Para Draurio Barreira, a participação social não deve aparecer apenas como uma etapa complementar das políticas públicas, mas como parte da própria estratégia de enfrentamento das doenças negligenciadas.
“Temos conhecimento, temos tecnologias e temos uma sociedade civil organizada e participativa. O desafio é fazer com que esses recursos cheguem a todas as pessoas. A participação social é fundamental para identificar as barreiras e ajudar a construir caminhos para superá-las”, concluiu.
A perspectiva reforça uma mudança importante no debate sobre doenças negligenciadas. Em vez de concentrar as decisões exclusivamente em especialistas e gestores, cresce a defesa de que as pessoas diretamente impactadas pelos problemas de saúde participem da construção das soluções.
Na prática, isso significa incorporar às políticas públicas experiências que muitas vezes não aparecem nos dados epidemiológicos: dificuldade de chegar aos serviços, demora no diagnóstico, estigma, discriminação, falta de informação, ausência de transporte e outras barreiras que ajudam a explicar por que determinadas doenças continuam atingindo os mesmos grupos e territórios.
Aproximação entre governo, ciência e sociedade
O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), o médico infectologista Gustavo Homero, também destacou a importância desses espaços de diálogo.
“São nesses espaços que garantimos a participação efetiva da sociedade nas decisões que afetam a comunidade e ajudamos a melhorar a saúde pública”, pontuou.
A aproximação entre gestores, pesquisadores, profissionais da saúde e sociedade civil foi um dos eixos do encontro.
Participaram do fórum representantes da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), do Ministério da Saúde, do Programa Brasil Saudável, do Conselho Nacional de Secretarias de Saúde (CONASS), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), do Conselho Nacional de Saúde (CNS), do Comitê Técnico Interinstitucional Uma Só Saúde, do Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas e do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN).
A diversidade de instituições reunidas reflete a própria complexidade do enfrentamento dessas doenças. Quando o adoecimento está relacionado também às condições de vida, renda, território, acesso a serviços e desigualdades sociais, a resposta deixa de depender apenas do sistema de saúde.
Ela exige articulação entre diferentes políticas públicas e, principalmente, escuta de quem vive essas realidades no cotidiano.
O 2º Fórum de Doenças Negligenciadas antecedeu a programação principal do MEDTROP 2026, congresso promovido pela Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
O evento acontece de 16 a 19 de agosto, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, e deve reunir cerca de 4 mil participantes.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações




