Em uma mesa marcada por emoção, história e resistência, lideranças reforçaram que a memória das mulheres que enfrentaram a epidemia de HIV é também uma ferramenta de luta política.
“Rapidamente perde-se. Demora para conquistar, mas rapidamente pode-se perder.” O alerta da ativista Rosaura de Oliveira Rodrigues ecoou entre as participantes da mesa “Conversa afiada: Entre Conquistas e Ameaças – Enfrentando o Presente, Disputando o Futuro” durante o XI Encontro Nacional do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) em Fortaleza. A atividade reuniu reflexões sobre os desafios atuais enfrentados pelas mulheres que vivem com HIV e a importância de preservar a memória de quem abriu caminhos para as conquistas de hoje.
Representando a Rede Feminista de Saúde (RFS) e a Comissão Intersetorial de Saúde das Mulheres (CISMU), Rosaura conduziu uma análise sobre os riscos do enfraquecimento da participação social e do apagamento político das mulheres vivendo com HIV. Para ela, nenhuma conquista chegou por acaso.
“As leis não são dádivas. Não são dadas. Elas são conquistadas com muita luta”, afirmou, ao lembrar que o acesso universal à saúde, a participação social e os direitos das mulheres foram construídos por décadas de mobilização popular.
Ao recuperar marcos históricos como a redemocratização do país, a Constituição de 1988 e a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), Rosaura ressaltou que a participação das mulheres foi decisiva para a construção das políticas públicas que hoje garantem direitos fundamentais. Segundo ela, esquecer essa trajetória significa abrir espaço para retrocessos.
“Temos que falar desse presente olhando para o nosso passado, reverenciando as lutas, mas olhando para o futuro”, destacou.
Memória viva da resistência
Se Rosaura trouxe o olhar sobre os desafios políticos atuais, Jenice Pizão, professora aposentada e fundadora do MNCP em São Paulo, levou as participantes a uma verdadeira viagem pela história do ativismo das mulheres vivendo com HIV no Brasil.
Em sua fala, Jenice lembrou que muitos dos direitos hoje considerados garantidos nasceram da insistência de mulheres que se recusaram a aceitar o silêncio.
Uma dessas histórias é a de Nair Brito, ativista que desempenhou papel fundamental na luta pelo acesso aos medicamentos antirretrovirais no Brasil. Quando retornou de uma conferência internacional trazendo informações sobre tratamentos capazes de salvar vidas, encontrou resistência até mesmo dentro do próprio movimento.
“Se não fosse Nair, ninguém acreditaria. Ela foi lá e tentou, e deu certo. E hoje todo mundo tem medicamento. Talvez tivéssemos acesso depois, mas demoraria anos. Muita de nós não estaria aqui”, recordou Jenice.
A mobilização resultou em ações judiciais que pressionaram o Estado brasileiro a garantir o acesso universal aos antirretrovirais, uma das políticas públicas mais reconhecidas internacionalmente na resposta ao HIV.
Para Jenice, essa trajetória demonstra que as mudanças não acontecem espontaneamente. “Se a gente não lutar pelos nossos direitos, ninguém vai lutar”, afirmou.
Mulheres que falaram quando ninguém queria ouvir
Ao longo da mesa, diversas histórias revelaram como as mulheres precisaram enfrentar não apenas o estigma relacionado ao HIV, mas também o machismo presente dentro e fora dos espaços de militância.
Jenice lembrou que a criação do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, em 2004, nasceu justamente da necessidade de construir um espaço próprio para que as mulheres fossem ouvidas.
“Os homens diziam: ‘Por que vocês vão criar um movimento? Já tem nós para representar vocês’. Mas os homens não parem, não menstruam, não têm hormônios. Como é que um homem vai representar a mulher?”, questionou.
A fundação do MNCP foi recebida com críticas e resistência, mas acabou se tornando uma das principais referências nacionais na defesa dos direitos das mulheres vivendo com HIV.
Outro exemplo citado foi a luta das mulheres afetadas pela lipodistrofia, a alteração corporal provocada pelos primeiros antirretrovirais. Segundo Jenice, foi a denúncia pública de uma mulher durante um encontro nacional que obrigou gestores e pesquisadores a olharem para os efeitos dos medicamentos sobre os corpos femininos.
Também nasceram da mobilização das mulheres pautas como a distribuição de fórmula láctea para prevenir a transmissão vertical e a defesa de políticas específicas para as necessidades femininas na epidemia.
O perigo do apagamento
Para Rosaura, o maior risco atual talvez não seja apenas a perda de políticas públicas, mas o enfraquecimento da capacidade de organização coletiva.
“Quem vai falar da especificidade de ser uma mulher vivendo com HIV? Tem que ser vocês”, afirmou, ao defender a ocupação de espaços de controle social, conselhos de saúde, conferências e instâncias de decisão.
Ela alertou que o apagamento político acontece quando as demandas das mulheres deixam de ser prioridade e quando sua representação é silenciada. Por isso, insistiu na necessidade de organização permanente.
“Mulher não fica só. Mulher faz grupo. Mulher vai junto e a gente vai ocupando esses espaços”, declarou.
Tecendo o futuro
A mesa terminou com uma mensagem que atravessou todas as falas: memória não é apenas lembrança, é estratégia de sobrevivência.
Ao relembrar mulheres que enfrentaram o preconceito, desafiaram governos, pressionaram instituições e conquistaram direitos que salvaram milhares de vidas, as participantes mostraram que a história do HIV no Brasil também é uma história de protagonismo feminino.
Uma história construída por mulheres que se recusaram a desaparecer e que seguem lembrando às novas gerações que nenhum direito está garantido para sempre.
Como resumiu Jenice Pizão:
“Se a gente ficar sentadinha em casa, não acontece nada. A história é feita pelas pessoas que mudam essa história.”
Redação da Agência de Notícias da Aids




