Em reunião com Angeli Achrekar, diretora executiva adjunta do Unaids, organizações alertaram para desigualdades, barreiras nos serviços de saúde e redução do financiamento global da resposta ao HIV
Enquanto a AIDS 2026 apresentou uma nova geração de tecnologias capazes de transformar a prevenção e o tratamento do HIV, representantes da sociedade civil brasileira levaram ao Unaids uma preocupação que atravessou diferentes debates da conferência no Rio de Janeiro: de pouco adiantará a ciência avançar se preço, patentes, desigualdades e falta de financiamento continuarem determinando quem consegue ter acesso às inovações.
O alerta esteve no centro de uma reunião entre organizações brasileiras e Angeli Achrekar, diretora executiva adjunta do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), realizada na terça-feira (28), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026).
O encontro colocou frente a frente uma das principais dirigentes do Unaids e representantes de redes nacionais de pessoas vivendo com HIV e de organizações ligadas às populações-chave. Na pauta, estiveram questões que ultrapassam os avanços científicos anunciados na conferência e chegam ao terreno político da resposta à epidemia: acesso equitativo às novas tecnologias, preços dos medicamentos, monopólios relacionados às patentes, direitos humanos, desigualdades sociais, barreiras nos serviços de saúde e a redução do financiamento internacional.
Também foram discutidos o apoio do Unaids às intervenções conduzidas pela sociedade civil e o futuro do próprio programa diante do processo UN80, iniciativa de reforma do sistema das Nações Unidas.
Todo esse apoio passa por preço de medicamentos e monopólios
Uma das principais cobranças apresentadas durante o encontro foi para que o Unaids mantenha apoio às pautas consideradas estratégicas pela sociedade civil brasileira, especialmente em um momento em que novas tecnologias de prevenção e tratamento do HIV começam a ampliar as possibilidades de enfrentamento da epidemia.
Para Veriano Terto, diretor e vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), a discussão sobre inovação não pode ser separada das condições concretas para que essas tecnologias sejam incorporadas e cheguem à população.
“A sociedade civil brasileira quer o apoio do Unaids para as agendas que são importantes para nós, como, por exemplo, a incorporação das inovações em prevenção e tratamento ao HIV. Estes são desafios importantes para nós”, afirmou.
Terto foi além e colocou no centro do debate uma questão histórica do ativismo em HIV e aids: a relação entre propriedade intelectual e acesso. “Todo esse apoio passa por temas de preço de medicamentos e monopólios impostos por patentes”, concluiu.
A cobrança ganha peso em uma conferência marcada justamente pela apresentação e discussão de novas alternativas de prevenção e tratamento, incluindo tecnologias de longa duração. O avanço científico abre perspectivas importantes para a resposta ao HIV, mas também recupera uma disputa conhecida desde o início da expansão da terapia antirretroviral: como impedir que o custo das inovações atrase sua chegada aos sistemas públicos de saúde e às populações mais afetadas pela epidemia.
Sociedade civil leva desigualdade e financiamento para a mesa
As perguntas apresentadas a Angeli Achrekar foram construídas por redes nacionais de pessoas vivendo com HIV em conjunto com outras organizações representativas de comunidades-chave.
Entre as preocupações estavam o crescimento das desigualdades sociais, as barreiras que ainda dificultam o acesso aos serviços de saúde e a redução do financiamento global destinado à resposta ao HIV.
Unaids defende transformar evidências em ação
Durante a reunião, Angeli apresentou ações globais desenvolvidas pelo Unaids par fortalecer a resposta ao HIV e destacou iniciativas voltadas ao enfrentamento do estigma e da discriminação.
Entre elas está a Parceria Global para a Ação de Eliminação de Todas as Formas de Estigma e Discriminação Relacionados ao HIV, iniciativa da qual o Brasil participa e que envolve governos, organizações da sociedade civil e comunidades.
A diretora executiva adjunta também chamou atenção para a importância de pesquisas capazes de revelar como o preconceito continua interferindo no acesso ao cuidado.
Um dos exemplos citados foi o Índice de Estigma 2025, pesquisa realizada pela sociedade civil brasileira que reúne informações sobre as experiências de estigma e discriminação enfrentadas por pessoas vivendo com HIV, inclusive nos serviços de saúde.
Os resultados podem servir como instrumento para a própria sociedade civil cobrar mudanças e contribuir para a construção de serviços mais humanizados e livres de discriminação.
Diante desse cenário, o Unaids defende que o momento exige transformar evidências em ação, ação em responsabilização e responsabilização em mudanças duradouras.
Três frentes foram apontadas como fundamentais para alcançar esse objetivo: ampliar a produção local e regional de tecnologias relacionadas ao HIV; promover o acesso equitativo utilizando as flexibilidades existentes nas regras de propriedade intelectual; e proteger os direitos das comunidades e das pessoas participantes de pesquisas.
Para a sociedade civil brasileira, a discussão que começa depois da AIDS 2026 não será apenas sobre quais serão as próximas tecnologias contra o HIV, mas sobre uma pergunta essencialmente política:*quanto tempo será necessário esperar até que essas tecnologias deixem de ser inovação para poucos e se transformem em direito para todos?
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



