“Não basta falar de remédio. É preciso falar de renda, de moradia, de saúde mental, de violência.” A frase, dita durante um dos debates do X Encontro Estadual do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas de São Paulo (MNCP-SP), resume o tom da discussão que reuniu mulheres vivendo com HIV de diferentes regiões do estado para refletir sobre os rumos da resposta à epidemia.
Ao debater a conjuntura do enfrentamento ao HIV/Aids em São Paulo, participantes e especialistas apontaram avanços na política pública, mas também alertaram que as estratégias atuais ainda precisam dialogar mais profundamente com a realidade das mulheres — especialmente aquelas que vivem nas periferias e enfrentam múltiplas vulnerabilidades.
Realizado em São Paulo com o tema “Entre a Luta por Direitos e o Amor Próprio: Mulheres Tecendo Novos Futuros”, o encontro chegou à sua décima edição no estado reunindo ativistas, lideranças comunitárias e mulheres vivendo com HIV para discutir direitos, cuidado, políticas públicas e dignidade.
Uma das mesas centrais do evento colocou em pauta justamente os caminhos da resposta institucional à epidemia. O debate contou com a participação da médica Rosa Alencar, do Programa Estadual de IST/Aids, e da ativista Renata Souza, do MNCP-SP.
A resposta institucional e seus desafios

Ao apresentar o cenário da política pública, Rosa Alencar destacou que o estado de São Paulo possui uma das redes mais estruturadas do país para o enfrentamento do HIV, com serviços especializados, estratégias de prevenção combinada e acesso universal ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde.
Apesar disso, ela ressaltou que o desafio central está em garantir que essas políticas cheguem de forma efetiva a toda a população.
Entre os pontos destacados estão a necessidade de fortalecer a articulação entre estado e municípios, ampliar o acesso à informação e fortalecer a atenção básica como porta de entrada para o diagnóstico e o cuidado.
Segundo Rosa, o enfrentamento da epidemia exige uma abordagem que vá além do setor saúde.
“A resposta ao HIV precisa dialogar com outras políticas públicas, como educação, assistência social e direitos humanos. É um trabalho que exige articulação permanente”, afirmou.
Mulheres no centro da resposta
Na sequência da mesa, a ativista Renata Souza trouxe para o debate a perspectiva das mulheres vivendo com HIV e destacou que a epidemia não pode ser compreendida apenas a partir de indicadores epidemiológicos.
Para ela, é preciso olhar para as condições concretas de vida das mulheres. “Muitas vezes a mulher é quem cuida de todo mundo: dos filhos, da casa, da família. E acaba sendo a última a cuidar de si mesma”, disse.
Renata lembrou que hoje grande parte das mulheres vivendo com HIV enfrenta desigualdades sociais profundas, que impactam diretamente o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento.
Segundo ela, fatores como pobreza, violência de gênero, racismo e falta de autonomia econômica aumentam as vulnerabilidades e dificultam a continuidade do cuidado.
“A gente não pode falar apenas de medicamento. A gente precisa falar de moradia, alimentação, renda e saúde mental. Tudo isso influencia a forma como a mulher vive e enfrenta o HIV.”
Construindo um plano para mulheres
Um dos momentos mais marcantes da discussão aconteceu quando Renata convidou as participantes a contribuírem diretamente com a construção do Plano de Enfrentamento ao HIV/Aids para Mulheres no Estado de São Paulo. A proposta foi abrir espaço para que as próprias mulheres apontassem o que não pode faltar em uma política pública voltada para elas. A dinâmica transformou o debate em uma escuta coletiva.
Entre as propostas levantadas pelas participantes, destacaram-se:
* ampliação da educação sexual e da informação sobre HIV, inclusive nas escolas;
* combate ao estigma e à discriminação nos serviços de saúde e na sociedade;
* fortalecimento do cuidado em saúde mental;
* apoio às famílias e redes de cuidado;
* políticas de autonomia econômica e geração de renda;
* maior integração entre saúde e assistência social;
* garantia de participação das mulheres na formulação das políticas públicas.
A autonomia financeira apareceu como um tema central nas falas das participantes. “Sem renda e sem independência econômica, muitas mulheres não conseguem priorizar o próprio cuidado ou sair de situações de violência”, afirmou uma das participantes.
Outra destacou a importância da informação como ferramenta de prevenção. “Conhecimento muda vidas. Muitas mulheres ainda chegam ao diagnóstico sem saber quase nada sobre HIV.”

Vulnerabilidades que se sobrepõem
Ao longo da discussão, também foi ressaltado que a epidemia entre mulheres está profundamente ligada às desigualdades estruturais.
Mulheres negras, periféricas, trabalhadoras informais e usuárias de drogas enfrentam barreiras maiores para acessar diagnóstico precoce, tratamento e acompanhamento contínuo.
Segundo Renata, não é raro que muitas mulheres cheguem ao serviço de saúde apenas quando a doença já está em estágio avançado. “Ela passa por vários atendimentos antes, mas ninguém pensa em oferecer o teste ou acolher aquela situação com o cuidado necessário.”
Para as participantes, enfrentar essas desigualdades exige formação permanente das equipes de saúde, políticas públicas sensíveis às questões de gênero e fortalecimento do controle social.
Movimento social como espaço de transformação
O encontro também evidenciou o papel do movimento social na trajetória de muitas mulheres vivendo com HIV.
Renata compartilhou que chegou ao movimento há mais de duas décadas, em um encontro semelhante, e encontrou ali acolhimento e informação. “Quando a gente chega, muitas vezes vem cheia de medo. No movimento, a gente encontra outras mulheres que já passaram por isso e percebe que não está sozinha.”
Essa troca de experiências, segundo ela, fortalece o protagonismo das mulheres na construção das respostas à epidemia.
Tecendo novos futuros
Mais do que um espaço de debate, o X Encontro Estadual do MNCP-SP reafirmou a força das mulheres vivendo com HIV na defesa de direitos e na construção de políticas públicas mais justas.
Entre análises técnicas, relatos de vida e propostas concretas, o encontro deixou uma mensagem clara: a resposta ao HIV precisa ser construída com as mulheres — e não apenas para elas.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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