“Mulheres trans também precisam cuidar da próstata”, afirma o urologista Dr. Ubirajara Barroso

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Coordenador do Departamento de Cirurgia Genital Afirmativa da Sociedade Brasileira de Urologia explica que a próstata permanece mesmo após a cirurgia de redesignação sexual e alerta: a prevenção também é para elas.

O Novembro Azul é tradicionalmente voltado à saúde dos homens e à prevenção do câncer de próstata. Mas, segundo o urologista Dr. Ubirajara Barroso, coordenador do Departamento de Cirurgia Genital Afirmativa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), é fundamental que a campanha também inclua as mulheres trans.

Dr. Ubirajara conversou com a Agência Aids:

“É importante incluir as mulheres trans e os homens transnesse debate. No caso das mulheres trans, o sexo biológico é masculino, e, consequentemente, podem ocorrer condições que afetam esse sexo biológico, independentemente de cirurgia genital afirmativa”, explica.

A fala do médico reforça que o cuidado com a próstata não é exclusivo de homens cisgênero e que o direito à prevenção e à informação deve alcançar todas as pessoas que nasceram com o órgão.

A próstata também faz parte do corpo feminino trans

Dr. Ubirajara lembra que toda pessoa que nasce com próstata precisa de acompanhamento urológico, inclusive as mulheres trans que realizaram a cirurgia de redesignação sexual.

“A mulher trans também tem próstata. Mesmo aquela que realiza a cirurgia persiste com a próstata. E, quando se usa o hormônio feminizante para a congruência de gênero, os riscos de aumento prostático diminuem, mas não desaparecem”, afirma.

Segundo o urologista, o uso de hormônios feminizantes — como o estrogênio e os antiandrogênios — costuma reduzir o volume e a atividade da próstata, o que faz com que doenças como a hiperplasia prostática (o aumento benigno da glândula) se tornem menos comuns.

“Os hormônios reduzem o tamanho da próstata, o que diminui as chances de obstrução urinária, mas as mulheres trans ainda podem ter problemas, principalmente aquelas que iniciam a transição mais tarde, depois dos 40 ou 50 anos”, explica.

Por isso, o especialista alerta que elas também precisam realizar avaliações periódicas da próstata, sobretudo a partir dos 55 anos.

“As mulheres trans não estão livres do risco de câncer de próstata. É preciso ter essa consciência. Elas também devem fazer avaliação urológica de rotina”, reforça.

Cirurgia de redesignação não remove a próstata

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a cirurgia de redesignação sexual não remove a próstata. O órgão permanece no corpo, mesmo após a criação da neovaginae das estruturas externas femininas.

“A cirurgia da mulher trans é muito diversificada. Algumas fazem a neovagina completa, outras apenas retiram os testículos. Mas, independentemente disso, a próstata continua lá”, explica o médico.

O que muda, segundo ele, é a forma de realizar os exames.

“O toque da próstata já não é via retal, é via transvaginal. O canal mais próximo da próstata, no caso da mulher trans, é o canal vaginal, não o reto. Então o exame precisa ser adaptado”, detalha.

O especialista destaca que ginecologistas também podem acompanhar essas pacientes, desde que recebam capacitação para compreender as particularidades anatômicas de mulheres trans.

“A ginecologista pode cumprir seu papel com essas pacientes. O importante é que o profissional saiba acolher e entender a diversidade de corpos e de cirurgias.”

Homens trans também fazem parte desse cuidado

Durante a entrevista, o Dr. Ubirajara reforçou que o Novembro Azul deve ser um espaço de cuidado para todos os corpos com órgãos reprodutivos masculinos, inclusive os homens trans.

“O urologista é o médico do homem, mas não apenas do homem cis. É o médico do homem como um todo. O homem trans pode conversar sobre sexualidade, orgasmo, prazer, dificuldade para urinar — tudo isso faz parte da saúde integral”, afirma.

Ele explica que cirurgias como a metoidioplastia(reconstrução do falo a partir do clitóris hipertrofiado) e a neofaloplastia (criação do pênis com tecidos do antebraço ou da coxa) trazem novas demandas de saúde, tanto físicas quanto psicológicas.

“Essas pessoas lidam com a sexualidade, com a ereção, com o orgasmo e também com a saúde mental. O conceito de saúde inclui tudo isso.”

Preconceito e medo ainda afastam pessoas trans do consultório

Apesar dos avanços, o médico reconhece que ainda há grandes barreiras para que pessoas trans busquem atendimento médico, especialmente urológico.

“Muitos transexuais sequer se arriscam a ir ao posto de saúde por medo de preconceito, de violência ou de humilhação. Às vezes não é má vontade — é desconhecimento dos profissionais. Mas o efeito é o mesmo: o afastamento”, lamenta.

Segundo ele, o problema é estrutural e começa na formação médica.

“Os serviços precisam se despir de preconceitos e buscar capacitação. Aqui na Universidade Federal da Bahia, nós recebemos profissionais de todo o país para treinar equipes multiprofissionais no atendimento à população trans. É assim que mudamos a realidade”, conta.

Barreiras do cotidiano: banheiros e infecções urinárias

O médico chama atenção para situações cotidianas que também afetam a saúde das pessoas trans. A falta de banheiros inclusivos, por exemplo, pode causar problemas sérios.

“Muitos homens trans têm dificuldade de urinar em banheiros públicos, porque não conseguem usar o mictório e nem sempre há espaço seguro para sentar. Já mulheres trans, por medo de olhares ou hostilidade, deixam de urinar. E deixar de urinar é fator de risco para infecção urinária”, alerta.

Essas situações, segundo ele, mostram que a saúde vai muito além da anatomia — envolve acesso, segurança e respeito.

Sinais de alerta e quando procurar o urologista

O Dr. Ubirajara reforça que todas as pessoas trans devem procurar o urologista, mesmo sem sintomas.

“O urologista ajuda a tirar dúvidas sobre cirurgias, sobre disforia genital, avalia riscos e acompanha a saúde sexual e urinária. Mesmo quem já passou pela cirurgia devecontinuar com acompanhamento.”

Entre os sinais de alerta, ele cita:

Infecção urinária frequente;
Dificuldade para urinar;
Dor ou ferimentos nos genitais;
Nódulos ou alterações nos testículos;
Fimose ou dificuldade de expor a glande.

“Esses sinais merecem atenção. Procurar ajuda cedo evita complicações e garante mais qualidade de vida”, completa.

Prevenção é para todos

Ao final, o médico reforça que o Novembro Azul também pertence às pessoas trans.

“Essa campanha foi criada para falar sobre saúde masculina, mas deve ser entendida como uma campanha sobre saúde de todos que nasceram com próstata. É o momento de lembrar que prevenção é o melhor remédio”, afirma.

O urologista encerra com um recado de acolhimento:

“Que as pessoas trans se reconheçam nessa campanha. O Novembro Azul também é para elas — para que cuidem da saúde, busquem informação e saibam que têm direito a um atendimento digno e sem preconceito.”

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