Mulheres trans ainda enfrentam grandes desafios para ter acesso à saúde no Brasil

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No ano de 2022, o Brasil registrou  43.403 novos casos de infecção por HIV, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado no final de 2023, mas os casos se distribuem de forma completamente desigual na população brasileira. No Brasil, dois grupos que são desproporcionalmente mais acometidos pela epidemia de HIV/Aids: os homens gays e bissexuais e as pessoas trans. No mês em que se comemora o Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, se confirma que a priorização dos transexuais “é uma das maiores prioridades no enfrentamento da pandemia de HIV. E fica evidente como aqui no Brasil estamos ficando para trás nesse processo”, alerta Rico Vasconcelos, em artigo publicado no Uol.

“Enquanto na população geral a prevalência da infecção por HIV é baixa (menor que 1%), existe pelo menos um subgrupo populacional com prevalência alta (maior de 5%). Os subgrupos populacionais que apresentam altas prevalências de HIV podem variar de um país para o outro, mas uma característica nunca falha: eles sempre são constituídos por pessoas marginalizadas da sociedade e privadas de direitos básicos como acesso a saúde, emprego, moradia ou segurança.”

O médico informa que até hoje, no Brasil, a ficha de notificação de HIV não diferencia se um indivíduo é cis ou transgênero, a esmagadora maioria das mulheres trans recorre ao trabalho sexual para compor sua renda, ambulatórios de saúde integral trans são encontrados em pouquíssimos municípios e apenas 4% dos usuários de PrEP no SUS são transexuais ou não binários.

“Com a melhora dos dados mundiais sobre HIV na população trans, se confirma que a priorização desse subgrupo é uma das maiores prioridades no enfrentamento da pandemia de HIV. E fica evidente como aqui no Brasil estamos ficando para trás nesse processo”, alerta Rico.

Sabrina Luz, mulher trans, influenciadora digital e ativista que vive com aids há 14 anos, diz que a resistência das mulheres trans com HIV tem se mostrado muito forte nos últimos anos, o engajamento está ficando cada vez maior e o compartilhamento de informação tem chegado a pessoas que não são ativistas na luta contra a aids.

“As discussões sobre nossa saúde sempre foram algo que, muitas vezes, não eram levadas em conta. Há alguns anos, serviços especializados começaram a ser  oferecidos para nós na rede pública de saúde brasileira. Apesar de lentamente, as pautas sobre aids e mulheres trans estão sendo ouvidas. É muito relevante também como a comunicação ajuda a conscientizar muitas mulheres ou pessoas que não são o público-alvo. É preciso ter engajamento para que a resistência persista, atinja mais lugares, mostre que mulheres trans com HIV merecem o devido respeito.”

Sabrina conta que a resistência transgênero sempre foi difícil. Por ser ativista e influenciadora, muitas mulheres vão até ela para pedir ajuda em seus diagnósticos e ressalta que uma rede de apoio também é resistência. “A luta é cansativa mas é preciso levantarmos nossa bandeira para que nós, mulheres trans com diagnóstico positivo, sejamos ouvidas e entendidas dentro da nossa sociedade. Muitas mulheres chegam a mim sem saber o que fazer, sem conhecimento e eu sempre penso o quanto é importante que haja uma rede de apoio para que aconteça um acolhimento que leve essa mulher a realizar a terapia antirretroviral para viver bem. Para mim, a nossa resistência é baseada na união.”

Tathiane Araújo, coordenadora da Parada LGBT de Aracaju (SE), fundadora da ONG Astral LGBT e secretária do LGBT Socialista, comenta que a resistência é o que a comunidade trans mais faz por coisas básicas, e diz ter como objetivo levar conhecimento, pois muitas mulheres trans não conseguem acessar informações.

“A resistência trans nessa luta contra a aids é muito mais do que apenas importante, é uma luta muito significativa, pois resistir é o que mais fazemos enquanto respiramos. A comunidade trans resiste por saúde, por educação, por direitos básicos que todo ser humano precisa ter. Há um grande número de mulheres transgêneros com HIV/aids. Algumas delas não têm acesso à informação, e um dos nossos objetivos é levar o conhecimento para quem não tem, levar, também, a solidariedade para quem precisa resistir no dia a dia.”

Tathiane também explica que o preconceito envolvendo mulheres trans e aids existe há um longo tempo e é necessária a capacitação das mulheres que sabem tudo sobre o HIV para auxiliar as que não sabem. “A maior das nossas resistências foi a luta para que parassem com o preconceito de dizer que nós [mulheres trans] propagávamos a aids. A nossa batalha a cada dia é para ficarmos visíveis. Somos uma comunidade frágil, temos menor acesso à PrEP por conta da exclusão que vivemos e que se torna maior quando falamos sobre saúde. Precisamos capacitar mais mulheres para que consigam ajudar outras mulheres falando sobre prevenção, diagnóstico positivo, terapia antirretroviral e todas as questões que todas devem saber.”

Sabrina fala que a resistência deu bons resultados mas que a transfobia ainda é um empecilho para o combate contra a aids. “Nossa resistência nos deu diversas vitórias durante os anos em prol da nossa luta, portas foram abertas, mas apesar de todas as coisas boas, ainda resistimos para que sejamos ouvidas pois o nosso maior inimigo para que a luta contra o HIV é a transfobia. Temos os remédios, temos PrEP, temos a informação mas isso não chega em quem tem que chegar, em quem precisa saber. Precisamos eliminar a transfobia para conseguirmos espalhar mais e mais informações sobre a aids.”

Tathiane finaliza dizendo que a resistência pode abranger não somente as mulheres trans, mas todos que desejam lutar lado a lado e que não se pode descansar até que todas as mulheres trans sejam lembradas para os tratamentos de aids. “Resistimos todos os dias e, muitas vezes, somente nossa voz e nosso grito não alcançam quem deveria alcançar. Precisamos sempre da ajuda de pessoas, não para falar por nós, mas para falar junto conosco. Conseguimos desbravar um longo caminho até aqui, precisamos ir mais longe, preencher todos os espaços em branco, não descansaremos até todas as mulheres transgêneros no Brasil tenham total conhecimento sobre o combate da aids, tenham acesso aos remédios, a PrEP e tudo que temos direito até que a cura da aids chegue para nós.”

 

Lygia Cavalcante

 

Dica de Entrevista

Sabrina Luz

Instagram: @sabrinaluz_pessoa

Tathiane Araùjo

Instagram: @tathiaraujo.aju

 

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